O triunfo do Coringa em ‘Batman: O Cavaleiro das Trevas’

O ano de 2008 foi marcante em relação aos filmes de super-heróis. Com a estreia do Homem de Ferro no final de abril, a Marvel produziria mais 20 filmes alcançando enorme sucesso de bilheteria em muitos deles. Em julho, foi lançando Batman: O Cavaleiro das Trevas, sem dúvida o maior sucesso já feito pela DC nos cinemas. Apesar de já ter obtido êxito com Batman Begins (2005), foi com o Cavaleiro das Trevas que veio a confirmação para o investimento maciço nesse novo filão.

Após 10 anos, a DC obteve bons resultados na bilheteria, seja com O Homem de Aço (2013), Batman vs Superman (2016), Esquadrão Suicida (2016) e Mulher Maravilha (2017). Entretanto, nenhum deles teve a mesma qualidade e complexidade como O Cavaleiro das Trevas, mesmo depois de tanto tempo, este filme continua imbatível. Depois do fiasco da quadrilogia dos filmes do Batman dos anos 90, encerrado com Batman e Robin, sem dúvida o mais vergonhoso dos 4 filmes, a franquia ficou congelada por 8 anos.

Cristopher Nolan assumiu a responsabilidade em produzir, dirigir e roteirizar, juntamente com seu irmão Jonathan Nolan a trilogia do Cavaleiro das Trevas, salvando assim a dignidade do morcego velho. Ao invés de utilizar uma linha mais cômica inspirada na série televisa dos anos 60, como fez Joel Schumacher em Batman Eternamente (1995) e Batman e Robin (1997), Nolan foi na contramão e elaborou um Batman ultrarrealista, brutal e ainda mais sofrido, baseado nos quadrinhos de Frank Miller.

Christian Bale em “Batman: O Cavaleiro das Trevas”

Em Batman Begins (2005), Nolan reinventou a origem do herói. Sem ignorar o clássico assassinato dos pais de Bruce Wayne (Christian Bale), ele inseriu a Liga das Sombras como o principal centro de treinamento do Batman, que lá aprendeu artes marciais, técnicas de intimidação e dramatização. Em Batman Begins temos uma história de origem bem estruturada, mas sem grandes surpresas, pois o melhor ainda estava por vir 3 anos depois. No final do filme, já temos uma expectativa do que nos aguarda. Coringa já dava os seus primeiros passos no crime e deixava o seu cartão de visita.

Em O Cavaleiro das Trevas, temos uma cena de abertura magistral com o audacioso assalto ao banco. O mais interessante não é o assalto em si, mas a maneira como foi concebido. Conforme os bandidos foram executando o seu papel de acordo com o plano, um a um foi sendo assassinado pelo outro até sobrar somente um deles, o próprio Coringa (Heath Ledger). Nessa apresentação do vilão já era possível saber do que ele era capaz, tanto no que se refere à crueldade quanto a perspicácia.

No filme assim como nos quadrinhos, não sabemos nada da história do Coringa, sabiamente Nolan não quis se aventurar nessa alçada, mesmo porque isso é irrelevante para a história. Nos quadrinhos, ainda que existam histórias de origem como o clássico “Piada Mortal” (1988) de Alan Moore, elas não são consideradas canônicas. Um dos aspectos mais fascinantes do filme é tentar compreender os atos bizarros e destrutivos do Coringa.

Heath Ledger em “Batman: O Cavaleiro das Trevas”

Depois de tomarem um golpe razoável do palhaço aloprado, os mafiosos de Gotham se reúnem, pois não bastando o assalto, descobriram que o dinheiro estava sendo rastreado pela polícia. Nessa terapia de grupo, como Coringa a definiu debochadamente, se apresentou e propôs um plano: matar Batman, pois antes dele o crime organizado reinava soberanamente.

Em um primeiro momento os bandidos negam a proposta do palhaço, pouco tempo depois aceitam. Enquanto isso, era firmada uma forte parceria entre Batman, Gordon (Gary Oldman) e Harvey Dent (Aaron Eckhart), o novo promotor de Gotham, corajoso o bastante para bater de frente com a máfia. Apesar da tentativa dos criminosos em despachar o dinheiro para a China, Batman conseguiu capturar o contador responsável para assim poder processar todos os bandidos envolvidos a partir da delação premiada dele.

Conforme o plano dos três paladinos, centenas de bandidos foram presos, mas a vitória duraria pouco tempo. Após as prisões, Coringa voltou a agir e colocou Batman em um jogo terrível. Enquanto ele não fosse preso, todos os dias alguém morreria. Conforme o prometido, policiais, juízes, políticos foram brutalmente assassinados. Bruce, arrogantemente, acreditava que Batman não tinha limites, mas não suportou carregar o peso das mortes de tantas pessoas e decidiu se entregar.

Os 3 paladinos: Harvey Dent, Gordon e Batman

Alguns instantes antes de Bruce assumir a dupla identidade frente a mídia, Harvey se adiantou e fingiu ser o morcego e consequentemente foi aprisionado no lugar de Bruce. Coringa obviamente não se contentou com a prisão do suposto Batman e caçou Harvey. Durante a perseguição, talvez a melhor cena de ação do filme, Batman consegue impedir o palhaço e o prende.

Harvey escapou ileso, mas logo em seguida caiu em outra arapuca, os policiais de Gordon o entregaram para os bandidos, em troca de propina. Assim como ele, Rachel (Maggie Gyllenhaal) também foi parar nas mãos dos criminosos. Assim era iniciado mais um jogo perverso do Coringa. Na delegacia o palhaço foi interrogado por Batman, mas em nenhum momento se intimidou com a agressividade do morcego, pelo contrário, o colocou em um dilema moral terrível, salvar Harvey ou Rachel.

Apesar de ter escolhido resgatar Rachel, o Coringa inverteu a localização dos dois. Batman conseguiu salvar Harvey, mas não sem sequelas. O rosto do promotor estava molhado com gasolina, como foi salvo pouco antes da explosão, uma de suas faces foi queimada. Enquanto isso, Gordon foi socorrer Rachel, apesar de seus esforços, chegou tarde. Harvey quando soube da morte de sua amada surtou, assumiu a personalidade do Duas-Caras e passou a perseguir os culpados pela morte dela.

Heath Ledger e Maggie Gyllenhaal em “Batman: O Cavaleiro das Trevas”

A subtrama do Duas-Caras é também muito interessante no filme, apesar de ter sido sobreposta pelos planos diabólicos do Coringa. Antes de se transformar em um vilão, Harvey era extremamente convicto na lei e no livre-arbítrio de suas ações, jogava a sua moeda com a mesma face em ambos os lados como um símbolo da sua convicção da sua plena autonomia. Ao perceber o quanto a vida pode ser cheia de acidentes e fatalidades, perde a sua fé na Lei utiliza o acaso como juiz por meio de sua moeda, que após a explosão passou a ter uma das faces queimadas também.

Ao encontrar os responsáveis pelo assassinato de Rachel, Dent arremessava a moeda para o alto e a pegava no ar, dependendo do resultado executa a vítima ou a deixa viver. Perto do fim do filme, Coringa revela a Batman ter enxergado certa loucura em Harvey, ao explorar o assassinato de Rachel como gatilho, e o promotor acaba por surtar, pois lhe é esfregado na cara a sua falta de controle diante de certas circunstâncias. Como diria o próprio palhaço: “A loucura é apenas uma questão de gravidade, basta apenas um empurrãozinho”.

Depois de todo caos, Coringa ainda reservou uma última surpresa, dessa vez envolvendo civis. Dois navios estavam saindo da cidade e foram sequestrados pelo vilão, em cada um deles havia uma bomba, só que o capitão de cada barco estava com o detonador para explodir o navio do outro. O palhaço estipulou um tempo para que um explodisse o outro primeiro; caso ninguém ativasse nenhum dos detonadores, Coringa explodiria os dois barcos. Em uma das embarcações havia civis comuns, no outro continham presidiários. Após uma bizarra votação, os cidadãos de ”bem” decidiram ativar o detonador do barco dos presidiários, afinal já tiveram a chance deles e eram pessoas, teoricamente, piores do que eles. Entretanto, houve um fator decisivo para impedir a fatídica atitude: o sentimento de culpa.

Ninguém teve coragem de apertar o botão e se sentir responsabilizado pela morte de centenas de pessoas. Graças a esse fator o experimento do palhaço não ocorreu conforme ele esperava. Alguns instantes antes de detonar os dois navios, Batman consegue chegar a tempo e evita a tragédia, arremessa Coringa do alto do prédio e o deixa pendurado de cabeça pra baixo.

Heath Ledger em “Batman: O Cavaleiro das Trevas”

Por dentro da mente insana do Coringa

De todos os personagens do filme, o que talvez tenha compreendido melhor o palhaço insano foi Alfred (Michael Caine). Bruce, em um primeiro momento, acreditava que ele era mais um criminoso comum, enquanto Alfred percebeu que Coringa não era alguém razoável, motivado por dinheiro ou bens materiais, ele simplesmente queria ver o circo pegar fogo. Em um dado momento, após receber a sua enorme premiação monetária da máfia, o palhaço taca fogo em uma enorme pirâmide de dinheiro e em seguida diz: “Essa cidade precisa de uma classe melhor de criminosos”.

Mais do que ver o circo pegar fogo, Coringa tem a intenção de deturpar, distorcer e destruir qualquer lógica ou racionalidade. Ele quer provar a impossibilidade de se obedecer plenamente a Lei ou um sistema de regras. Inevitavelmente todos nós tendemos a derrapar, mostrando assim um aspecto perverso do psiquismo humano. Por exemplo: em uma cena do filme, Harvey interroga e tortura psicologicamente um suspeito com um transtorno mental.

A forma como a polícia aceita a colaboração de Batman na captura dos criminosos é também paradoxal, pois o morcego, de certa forma, é um fora-da-lei. Batman na busca incessante pelo Coringa desenvolveu um sistema de escuta por ondas sonoras dos celulares de todas as pessoas da cidade, para assim rastrear o vilão e encontrá-lo. Apesar da boa intenção, o herói invadiu a privacidade dos cidadãos, outro ato totalmente ilegal.

Michael Caine e Christian Bale em “Batman: O Cavaleiro das Trevas”

Em uma das obras mais importantes de Freud, “Totem e Tabu” (1913), o autor formula a sua teoria sobre a formação das primeiras civilizações baseado no tabu do incesto. Segundo Freud, a interdição em ter relações sexuais entre irmãos, pais e filhos ou com algum tipo de ligação consanguínea foi determinante no estabelecimento de uma sociedade.

Para ilustrar melhor isso, o psicanalista criou um mito de origem. Antes do surgimento das leis e regras sociais, havia um pai autoritário com um poder absoluto sobre todas as mulheres da horda primitiva. Somente ele tinha relações sexuais com elas e expulsava os filhos da horda depois de crescidos. Um dia, seus filhos se revoltaram com esse pai onipotente e decidiram mata-lo. Em seguida o devoraram, e após o banquete antropofágico, se identificaram com esse pai que apesar de odiado também era invejado pela sua força e pelos antigos privilégios.

Após o banquete, eles manifestaram sentimentos ambivalentes e contraditórios em torno do pai, por terem sentido amor e ódio surge assim um sentimento de culpa. Ironicamente o pai morto se tornou mais poderoso do que jamais havia sido em vida. Na tentativa de reparar o parricídio, os filhos decretam a proibição do assassinato do pai-substituto por meio do totem e compartilharam entre si as mulheres. A partir da culpa e do reconhecimento dela, fundam a civilização, toda sociedade está estruturada sobre a conivência de um grande crime.

Aaron Eckhart em “Batman: O Cavaleiro das Trevas”

O pai autoritário e o herói errante

Depois de prender o Coringa, ainda restava apanhar Duas-Caras, que estava na casa de Gordon ameaçando sua esposa e filhos, nessa cena a antiga tríplice paladina se encontra pela última vez completamente esfacelada e corrompida. Enquanto Duas-Caras arremessa a moeda para cima para dar o veredito em relação ao filho do comissário, Batman aproveita a oportunidade e derruba Harvey do alto do prédio, que cai morto.

Batman assumiu todos os crimes do cavaleiro branco na tentativa de preservar a imagem dele, para poderem viabilizar a lei Harvey Dent, que proporcionaria um dispositivo mais eficiente na prisão dos criminosos, como mostrado no último filme da trilogia. Assim como no mito freudiano, Harvey é uma espécie de “pai” abusador e autoritário. Após sua morte, o morcego e o comissário criaram um símbolo em torno do promotor, apesar de ocultarem seus assassinatos, com intuito de propiciar um legado pela luta contra a corrupção e a delinquência.

No final do filme, apesar de negarem a vitória do Coringa, com a farsa criada por eles, os dois fraudaram seus próprios valores. De qualquer jeito o palhaço triunfou. Chama a atenção no filme como Batman falha miseravelmente em muitos momentos. Perde o grande amor de sua vida, Rachel, também amada por Harvey; não consegue impedir os crimes do Duas-Caras, a morte de vários civis e muitas vezes não freou os planos do Coringa, como a explosão do hospital. Poucas vezes vimos um super-herói tão errante, tendo que suportar o domínio maciço de um vilão. Não bastando isso, o morcego teve que abdicar de sua ética, seja para apanhar o palhaço no final do filme ou ao assumir os crimes do Duas-Caras.

Toda a ruína de Batman no decorrer da história contribui para ele se tornar o Cavaleiro das Trevas e o ato final para ele se transformar nisto culminou com a fraude em omitir a chacina de Harvey e se responsabilizar por seus crimes. Desse momento em diante, Batman deixa de ser o herói de Gotham convocado por um holofote e torna-se uma figura dúbia e criminosa.

Christian Bale e Heath Ledger em “Batman: O Cavaleiro das Trevas”

Por fim, Batman: O Cavaleiro das Trevas se mostrou um filme completo com uma excelente bilheteria. Foram mais de 1 bilhão de dólares arrecadados, com um roteiro profundo e excelentes atuações do elenco; Heath Ledger, merecidamente, recebeu o Oscar póstumo de ator coadjuvante. Já Cristopher Nolan obteve um esplêndido resultado combinando os elementos já citados com uma direção impecável, uma bela fotografia, filmagens com câmeras IMAX, uma montagem minuciosa e uma ótima edição e mixagem de som.

Ironicamente, ainda que o Cavaleiro das Trevas tenha sido um dos principais filmes a abrir caminho para as outras produções com super-heróis, seu resultado foi tão espetacular que nenhum outro filme dessa temática chega aos seus pés. Não é em vão que O Cavaleiro está na lista de vários sites como um dos 100 melhores filmes de todos os tempos. Batman e Coringa mudaram o cinema para sempre.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.