Em ‘Medusa’, curiosidade é desejo, caminho para a liberdade – Crítica

Crítica de ‘Medusa”, visto no Festival de Toronto 2021

Em 2019, última vez que ocorreu a Mostra Cinema Conquista na cidade de Vitória da Conquista (BA) antes da pandemia, o filme que abriu o evento foi Divino Amor, de Gabriel Mascaro. O Centro de Cultura da cidade, local onde ocorre a Mostra, lotou. O evento em si é um dos principais momentos culturais da cidade, mas a abertura sempre leva até aqueles que não costumam voltar nos outros dias. Na saída do filme, que possui grande referência religiosa através da estética de cores em neon em tons de azul e rosa, os comentários eram muitos: positivos e negativos. Mas a sensação de poder assistir aquele filme, naquele evento dedicado ao cinema nacional, sem depender dos únicos cinemas de shopping da cidade dedicados a blockbusters, Marvel e DC, realmente foi um evento.

Agora, dois anos depois, em meu quarto festival internacional desde o início da pandemia, me deparo com uma situação totalmente contrária. Cobrindo um dos maiores festivais internacionais do mundo, através de uma tela de computador, sozinha, tendo a oportunidade de assistir um filme que todo o país anseia para ver, ou pelo menos àqueles que acompanham de perto o que está rolando no cinema nacional. Novamente, um filme que também possui grande referência religiosa, social, e que utiliza a estética de cores neons – dessa vez verde, vermelho, rosa e azul – para imprimir os dilemas presentes na sociedade apresentada. É possível visualizar de forma quase palpável este filme abrindo uma nova edição da Mostra Cinema Conquista, e como é bom poder vislumbrar isto.

Seja no Festival de Toronto, ou numa hipotética sessão da Mostra Cinema Conquista, a questão é que Medusa daria o que falar em ambos os eventos. Isso porque, internacionalmente falando o filme já viajou o mundo, e em cada novo lugar que compõem a line-up de um novo evento, o filme desperta novos olhares, novos debates e discussões. O mesmo iria ocorrer aqui em Conquista. Medusa não passaria batido. Não passaria despercebido pelos olhares, através dos cochichos, permaneceriam na memória sendo revisto em looping, e a cada nova imersão na memória do sujeito, a pessoa pensaria algo novo sobre o filme. Pelo menos é isto o que ocorreu comigo.

Introduzindo uma mulher se contorcendo no chão com movimentos em forma de ponte e outros que utiliza a plataforma retilínea para se remexer, a moça possui sobre si as luzes verde e vermelho neon, enquanto a câmera se afasta, é exposto que a mesma faz parte de um video que outra mulher assiste. Ao descer do ônibus a noite, no qual estava assistindo o video, a moça é atacada por um grupo de jovens mulheres com roupas rosas, cabelos lisos – de forma natural ou não – e mascaras brancas. O motivo? “Pecadora, puta, vagabunda…” é o que dizem “você deve aceitar jesus.”. 

Com essa introdução ao que será representado em Medusa, o filme acompanha uma das jovens cristãs de máscara branca, Mariana (Mari Oliveira), a protagonista que trabalha em uma clínica de estética. Mari é melhor amiga de Michele (Lara Tremouroux), a jovem líder do grupo que possui um canal no youtube onde da dicas cristãs de maquiagens e fotos. Nessa estrutura apresentada é evidente os princípios morais e quais são os bens mais valiosos naquele grupo: Deus – acima de tudo e de todos – a beleza, e, o principal, o cacife para manter os dois aspectos firmes lado a lado.

Para isso, na estrutura social apresentada há um pastor que está se candidatando na política (Thiago Fragoso), utilizando seus discursos para evidenciar que o poder de deus e o poder político devem andar lado a lado; um grupo de jovens rapazes que usando fardas verde-escuro compondo a guarda do local. Os homens do filme, sempre sérios, em treinamento com movimentos repetitivos que evidenciam a reprodução da cultura machista impregnada nas práticas sociais. Quando em cena o grupo de rapazes são sempre visualizados em um ambiente escuro com expressões sérias, gerando desconforto.

Medusa (2021)

O oposto ocorre com o grupo de meninas que estão sempre com cores mais alegres como o rosa, e o azul bebê, ou branco, seja nas roupas, na maquiagem, ou nas apresentações musicais que fazem na igreja, rodeada por luzes rosa e azul em neon. O neon aqui é um artifício utilizado durante todo o filme, o que além de se tornar uma marca estética do filme, também influencia na experiência sensorial impulsionada pelas ações e reações dos personagens diante das situações vividas.

Outras duas cores que marcam presença durante todo o filme são as cores verdes e vermelho. Enquanto o verde está presente na máscara fácil que Mari lava após acordar, na roupa de seu novo trabalho como enfermeira, no uniforme dos rapazes, na floresta ao lado do hospital, sempre remetendo a algo indefeso, inocente, sutil, angelica. Enquanto o vermelho parece conduzir atmosfera oposta a esta. O sangue que Mari lava após sofrer um machucado, a cor da luz na festa da floresta, em todos os momentos trazendo um aspecto do carnal, impuro, sexual, sensações opostas àquelas que as jovens do… devem sentir.

Há de fato um forte presença do simbólico no filme, cartazes com frases que reforçam a importância de Deus naquela comunidade como os sagrados encontros que ocorrem seja na igreja ou na casa de uma das fiéis, cartazes com desenhos de cobras os quais Mari sempre demonstra especial atenção a eles. Além da utilização de espelhos, câmera, o que remete ao mito original da Medusa; amaldiçoada por Atena, pelo fim da castidade de sua sacerdotisa, e teve seu cabelo transformado em cobras, transformando sempre pessoas em pedra.

Quanto menos se sabe, melhor é se torna a experiência com Medusa. Um filme que desde os minutos iniciais não poupam a quem assiste de um compasso frenético, apresentando a quem chega atrasado a nova constituição social regida por regras e condutas religiosas atrelados ao poder. A distopia, entretanto não parece tão distante quando em um mundo fora do filme o governo bolsonarista utiliza como slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Na verdade, Medusa pode ser vista como uma alegoria da frase do atual presidente, que cita a palavras Deus sempre que tem oportunidade.

Medusa (2021)

Entretanto, Medusa também injeta a dose enérgica do que há de contraponto a essa ideia pragmática e doutrinária. Jovens impulsionadas pelo desejo, pela curiosidade do novo, e também do passado – como, por exemplo, a fixação de Mari em saber o que ocorreu com uma antiga atriz da cidade , pelo sufoco de se ver presa em uma instância adestradora.

Em Mate-me Por Favor (2015) as jovens meninas mulheres precisavam fugir e se cuidar para permanecerem vivas, em Medusa (2021) Anita Rocha da Silveira questiona qual é a forma que essas mulheres permanecem vivas: através do seu desejo, ou do desejo do outro?

MEDUSA
3.5

RESUMO

Em Medusa, Anita Rocha da Silveira volta a estudar as relações sociais com enfoque em um grupo de jovens mulheres.

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Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.