Locarno 2021 | Em ‘Aswang’ o pesadelo folclórico é visto nas ruas filipinas durante o governo de Duterte

A guerra contra as drogas, iniciada nos Estados Unidos e replicada em diversos países, como o Brasil, por exemplo, foi algo bem-sucedido como necropolítica cujo único objetivo é dizimar sua população mais precária. Essa guerra, que tem um só propósito, continua sendo utilizada como mandamento moral dito em “prol da população”, entretanto que população é essa a diretora filipina Alyx Ayn Arumpac explora em Aswang, filme exibido na seção Open Door Screenings, voltada para filmes do Sudeste Asiático e da Mongólia.

A jornalista embarca nas ruas do país para ver, entre os corredores escuros das ruas, entre as poças de sangue e água jorrando – seja nas calçadas, para limpar o sangre, ou nos olhos dos familiares, que lutam por justiça pelos parentes que perderam suas vidas nas mãos da milícia, – a arma utilizada pelo governo de Rodrigo Duterte, eleito em 2016, para dizimar a população. 

Para explorar o que a “guerra às drogas” tem feito no país, Arumpac não utiliza somente seu poder jornalístico, que realmente guia o espectador diante de um cenário de calamidade pública. Depoimentos de familiares desesperados por informações de parentes desparecidos; testemunhas que apontam como esses sujeitos estavam ao serem vistos pela última vez; e registro de casas humildes com um grande número de pessoas ocupando o mesmo espaço, fazem parte do material utilizado pela diretora. Arumpanc também utiliza um personagem essencial a quem a “guerra às drogas” parece ter tirado quase tudo.

Com pai e mãe presos, o jovem Jorami acaba de perder o melhor amigo levado pelo governo de Duterte. Arumpac passa acompanhá-lo entre suas aventuras com os amigos que brincam de serem policiais enquanto estão na margem de um lago poluído pelo lixo. Os gritos de diversão das crianças que brincam no rio como sendo ‘polícia e ladrão’ se contrapõe com o cenário que ocupam, um tenta superar o outro, em desgaste, em miséria. Não superam, ambos se complementam. O descaso público é geral, e nos territórios à beira é onde podem viver os que estão à margem.

Aswang (2021)

Arumpanc vai além naquilo que busca. Remontando uma linearidade do descaso público e em como a guerra às drogas reforçou a desigualdade social do país, a jornalista e cineasta descobre ainda mais. O trabalho de pesquisa aqui fica eminente, é preciso ver para crer, ver para crer até que ponto o governo e seus mandantes irão chegar, e qual o tipo de tortura estão dispostos a fazer em sua missão.

O tema de guerra às drogas, pode ser visto em documentários como ‘Quebrando o Tabu (2011)’ e ‘Cartel Land (2015)’, entretanto, este, com enfoque no país do Sudeste Asiático, ganha a originalidade da diretora ao trazer viva a identidade de seu país. Como dito o título, Aswang remete a figuras malignas do folclore filipino que se alimentam das pessoas, e no filme Arumpanc não mede esforços para mostrar o conto vivo em cena, nas ruas, na casa das pessoas, na cadeia, nos locais escondidos. O grande pesadelo folclórico, temido por todos, assusta menos do que a própria realidade. O mito está de fato, vivo.

Entretanto, remetendo a realidade de outros países que vivem em governos tenebrosos assim como a atual Filipinas, é um acalento poder perceber o movimento popular tomando força, pois, de acordo a própria lenda do Aswang, quando ele aparece, a multidão também desperta.

Acompanhe aqui a nossa cobertura do 74º Festival de Locarno.

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Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.