Locarno 2021 | Em ‘Zero and Ones’, Abel Ferrara conduz Ethan Hawke em uma Roma apocalíptica

O medo do desconhecido, do novo, de algo que deve ser temido mesmo não sendo visto é uma narrativa que o cinema já explorou e ainda explora ao retratar perigos eminentes em torno de seus protagonistas. Na vida real, os perigos são quase sempre conhecidos, mas no ano de 2020, quando o mundo parou, foi exatamente essa a narrativa vivida. O medo do desconhecido que levou todos para dentro de suas casas. Nas ruas, a tentativa de fuga e proteção do perigo invisível. Zero and Ones

O novo filme de Abel Ferrara, filmado durante a pandemia, pode ser visto seguindo essa mesma história. JJ, um soldado americano, não sabe exatamente contra o que luta, precisa fugir daqueles que querem o pegar, sempre na certeza de que há algum mal a espreita. Essa é a história de um dos irmãos gêmeos interpretados por Ethan Hawke em Zero and Ones, enquanto o outro é um militante desaparecido, sempre visto através das telas, filmagens e gravações, que pode estar morto ou não.

Não faz muito tempo que Ferrara infestou os festivais de cinema – já no formato híbrido (online e presencial) – de incertezas, sonhos e situações atípicas, levando-nos de um imagético para outro sem nunca quebrar uma linha que, apesar de confusa, construía a si mesma como linear. Em Siberia (2020), a escuridão foi palco do Dafoe, que, brincou com as vivências e passado de seu personagem, em uma profunda imersão nas lembranças. Em Zero and Ones, filme exibido em Competição Internacional no Festival de LocarnoHawke navega pela escuridão que assola as ruas de Roma, fugindo de um lugar para o outro, de um mal que nem o mesmo conhece.

Com máscara no rosto, álcool em gel na mão, as armas apontadas para sua cabeça se confundem com termômetros, utilizado comumente no filme para permitir o livre acesso aos locais. Ferrara resgata a forma como o mundo estava nos primeiros dias da pandemia do coronavírus. Ruas vazias, soldados pela cidade monitorando o que ocorre, sua única companhia são as câmeras.

Zero and Ones (2021)

Assim como no período pandêmico, as câmeras, telas e aparelhos eletrônicos ajudaram a construir o universo em que o filme se passa. Com câmeras que monitoram as ruas, webcam em sua casa, gravações de seu irmão, uma sextape sendo gravada com o inimigo sob ameaça, chamada vídeo, não há um momento sequer que a câmera também não seja vista em cena. Somente aquela que Ferrara utiliza para registro de seu personagem. Quando não utilizado para se conectar a outra pessoa, é vigiado sem participar da conversa. É dessa forma que Hawke passa todo o tempo em Zero and Ones. 

Menos reflexivo e mais expositivo, Ferrara mergulha na ação para explorar as nuances e possibilidades que uma Roma deserta pode proporcionar. Com explosões no vaticano, agentes secretos, inimigos declarados, Hawke é um Bourne mais obscuro, em um mundo mais apocalíptico. Mesmo sem multidões na rua, ainda há fugas e lutas. A tensão é construída a partir da certeza de que algo em breve irá acontecer ao protagonista, e aqui Ferrara nos permite imaginar.

Com a onda do caos e do pessimismo que o mundo se encontrou desde o início da COVID-19, é somente na perspectiva de um amanhã melhor, com a população vacinada, com menos mortes e descaso social que se pode figurar qualquer possibilidade de otimismo. Ferrara não nos deixa esquecer: há um amanhã. E é no amanhã que tudo estará melhor, seja com o nascer de um novo sol, ou com as pessoas que amamos por perto.

Acompanhe aqui a nossa cobertura da 74º edição do Festival de Locarno.

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Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.