Crítica | ‘Rua do Medo’ é uma agradável surpresa da Netflix

Uma proposta curiosa e inusitada da Netflix: lançar três filmes sequenciais, no formato de uma série, mas como filmes separados, embora ligados pelo enredo e lançados com o intervalo de uma semana. Iniciativa inteligente, pois ao cativar o público, garante audiência para os próximos longas, isso sem mencionar no engajamento com as pessoas e interação na internet. A Trilogia Rua do Medo chegou como um projeto audacioso e original, bastante pertinente para esse período que vivemos.

No primeiro filme, Rua do Medo: 1994, somos apresentados à uma cidade onde estranhos assassinatos costumam acontecer sem qualquer explicação plausível. Pessoas comuns simplesmente se transformam em assassinos e começam a matar sem nenhum motivo aparente. Local agourento com a fama de ser assombrado por uma terrível bruxa morta há séculos, mas que cuja maldade e magia negra perdura até os dias de hoje, possuindo seus moradores com o instinto assassino.

Nesse cenário, um grupo de adolescentes liderados por Deena (Kiana Madeira) e sua paixão adolescente, Hanna Miller (Olivia Scott Welch) acaba na mira dos assassinos mortos vivos e precisam procurar uma forma de se livrar da maldição da bruxa ao mesmo tempo em que tem que lidar com crises típicas de adolescentes da década de 1990.

Apesar de conter elementos sobrenaturais, o filme contém majoritariamente o clima de tensão dos filmes de terror slasher da década de 90, com um assassino soturno que sempre surge do nada, matando com uma lâmina, bem ao estilo Pânico e Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, clima este que é potencializado por meio da Direção e da Direção de Fotografia. Interessante ressaltar o uso do vermelho nesta obra, surgindo na fotografia de forma mais estilizado do que realista e que faz sentido na narrativa, pois está ali para prenunciar os ataques (sempre que a fotografia mostra algum detalhe de luz vermelha, algum assassino aparece para atacar).

Um dos problemas iniciais de Rua do Medo 1994 está nas questões adolescentes que consomem grande tempo de tela no início da obra. A questão é que estas situações são extremamente irritantes e desinteressantes, mas que mesmo assim, de alguma forma, muito provavelmente por causa do carisma dos intérpretes, começa a se tornar relevante mais para o final do filme. No final do segundo ato para o terceiro, o expectador de alguma forma começa a se preocupar com aqueles personagens e a torcer por sua sobrevivência.

Talvez funcione pelo fato de o longa utilizar de forma bem feita os clichês do gênero e utilizar a violência e o sacrifício inesperado de personagens para lembrar ao expectador que eles estão diante de uma ameaça real e não apenas ameaças genéricas que só estão ali para representar alguma pequena dificuldade para os protagonistas.

O filme, apesar de conter uma conclusão bem finalizada, acaba em formato de gancho, abrindo a prerrogativa para o segundo filme e faz isso muito bem, finalizando em um momento bastante pertinente e criando expectativa para o próximo.

Rua do Medo 1978 funciona de uma forma muito melhor, incrementando e enriquecendo o projeto ainda mais. Sem dúvida, o melhor dos três filmes, a segunda parte conta um flashback de uma época bastante anterior aos eventos ocorridos na década de 1990, bem ao estilo Sexta Feira 13 da década de 1980, em um acampamento de verão, um grupo de adolescentes precisa lidar com a manifestação de um assassino possuído pela bruxa e que começa a matar incessantemente as crianças com um machado.

O protagonismo agora está em duas irmãs, Ziggy (Sadie Sink) e sua irmã mais velha, Cindy (Emily Rudd), ambas moradoras da cidade amaldiçoada e que agora, estando na mira do assassino possuído pela bruxa, precisam investigar a origem da maldição e alguma forma possível de derrotá-la e sobreviver.

Um elemento ousado que vemos neste filme é a violência que é direcionada com crianças pequenas, causando grande impacto na tela e mostrando que os vilões não estão para brincadeira e não tem compaixão nem mesmo pelos personagens mais frágeis e alívios cômico, que geralmente são poupados na maioria dos filmes adolescentes.

Com uma fotografia escura, quente e repleta de ruído, como os filmes da década de 1980, o longa perde menos tempo com as mornas e desinteressantes tramas adolescentes (elas continuam presentes, mas em bem menor escala) e indo logo para a ação desenfreada e violenta, entregando um prato cheio para os fãs de filmes de terror e gore.

Revelando mais sobre o universo da bruxa e seus domínios sobre toda a região começando pelo subterrâneo e revelando a origem de alguns personagens misteriosos no primeiro filme (mas que aqui estão extremamente mais jovens), a trama começa a revelar possíveis formas de enfrentar a entidade, formas estas que podem ser utilizadas no futuro para salvar os personagens já apresentados.

Rua do Medo 1666, o último filme da trilogia, acaba escorregando um pouco e apesar de não ser um desastre total, em matéria de construção, é o inferior dos três. Se no primeiro filme, a década de 1990 estava bastante presente no desenho de produção e na atuação dos personagens, a adaptação para o ano de 1666 só funciona no quesito relacionado à direção de arte bastante prestativa e bem realizada. Mas em um dos quesitos principais, que se diz respeito à atuação dos atores, deixa bastante a desejar.

Contando com a mesma dupla de atrizes do primeiro filme como protagonista, agora Madeira interpretando a bruxa Sarah Fier e sua companheira Welch, Samantha Frasier, existe, de fato, uma iniciativa de tentar inserir um sotaque característico nos atores a fim de contextualizar para o período histórico retratado, porém, talvez por causa das limitações dos performers ou pelo tempo de preparo e limitações de produção, essa dramatização apresenta vários problemas, com os personagens mais parecendo caricaturas frágeis.

A sexualidade, assim como nos filmes anteriores, é bastante explorada em meio aos adolescentes, o que é elogiável, porém, em alguns momentos, o enredo dá alguns escorregões, com cenas problemáticas mais parecendo adolescentes do futuro fingindo estarem no passado. Destaque para uma festa na floresta que mais parece uma reunião de adolescentes contemporâneos, que nada ou pouco tem a ver com a vida dura dos adolescentes naquele período histórico.

Assim sendo, o enredo funciona em relação à trama, ao condensar e explicar a origem da bruxa, bem como revelando as reais razões da madição. Apesar de o gore e os efeitos visuais e práticos serem bem realizados, não há sustos praticamente. Ao tentar reproduzir um clima parecido com filmes como A Bruxa, o clima fica perdido. As melhores cenas do filme acontecem quando a timeline retorna para a década de 1990, entregando uma resolução interessante e apesar de problemática, satisfatória para aqueles que se engajaram na trilogia.

Com uma premissa interessante e uma proposta cativante, a trilogia Rua do Medo é divertida e que realmente vale a pena a conferida, seja por fãs de filmes de terror, seja para amantes de histórias de aventura adolescente.

TRILOGIA RUA DO MEDO

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Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...