Crítica | ‘Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica’, amor fraternal e ‘Dungeons & Dragons’

Como misturar J.R.R. Tolkien e Dungeons & Dragons? A resposta é mais fácil do que parece. As duas coisas são espantosamente fáceis de serem “linkadas”, porque têm tudo a ver, e o filme Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (Onward, 2020), do diretor Dan Scanlon, está aí para ilustrar essa afirmação.

Com esse longa, a Pixar mostra mais uma vez que sabe fazer animações, mesmo que os mais puristas possam dizer que essa é uma obra para agradar uma “guilda” que cresce a cada dia mais: a guilda dos geeks. Se a intenção foi essa, porém, ela foi extrapolada, uma vez que mesmo quem não entende nada sobre O Senhor dos Anéis ou Dungeons & Dragons, também vai curtir o filme, embora de forma diferente, já que perderá as referências.

No enredo, Ian (Tom Holland) e Barley (Chris Pratt) são dois irmãos elfos órfãos que embarcam numa missão para tentar ressuscitar seu pai por um dia. Para isso, eles precisam encontrar a Gema da Fênix, uma pedra rara e muito poderosa.

Dessa forma, na extraordinária visão de Scanlon, o mundo do RPG é transportado para o cinema de uma forma muito divertida que agrada tanto as crianças como os adultos. Nele, é retratado como a magia forte e bela, mas complexa, vai sendo gradativamente esquecida e substituída pela praticidade e evolução da tecnologia. Mas alguns, como o engraçado e determinado Barley, insistem em olhar para trás, para os tempos de glória de sua espécie em que os magos poderosos dominavam a mágica, enquanto a maioria das outras criaturas não está nem aí para isso.

Barley, inclusive, é o ponto alto do filme, um personagem puro e virtuoso que merece todas as atenções. Sendo assim, é muito bonito o fato de que ele não sente nenhuma inveja do irmão ao descobrir que é Ian, e não ele, quem tem os poderes antigos que ele tanto admirava e buscava. Pelo contrário, Barley fica tão feliz e eufórico quanto se tivesse esse poder em si próprio. O mais interessante, porém, é que toda a mágica de Ian de nada lhe serviria se não fosse o irmão mais velho, uma vez que mesmo não podendo executá-la, é Barley quem detém todo o conhecimento sobre magia, estudioso que é. Por isso, a dupla forma uma dinâmica que funciona muito bem.

E essa dinâmica resulta de uma missão que os dois precisam empreender para poder passar um dia com o pai falecido. É aí que todas as referências a Dungeons & Dragons, um dos mais famosos jogos de RPG, e também de alguns elementos que lembram muito O Senhor do Anéis começam a se destacar. É o caso dos ambientes que Barley e Ian visitam, como tabernas, dos obstáculos que se apresentam a eles no meio do caminho, como o cubo gelatinoso, e alguns detalhes que são mencionados, como o segundo café da manhã – uma refeição bastante apreciada pelos Hobbits de Tolkien, por exemplo. Isso sem falar, é claro, dos próprios personagens do filme – elfos, manticoras, centauros, entre outros, que também são mais do que familiares nesse mundo fantástico. Fora isso, existem também as alusões aos outros filmes da própria Pixar, como não podia deixar de ser, e tentar descobrir quais são acaba se tornando uma brincadeira.

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (2020)

Por outro lado, é de se notar a ausência dos humanos no longa, que não aparecem em nenhum momento, mas que também não fazem falta nenhuma! O mundo é mesmo das criaturas mitológicas que emprestam ao filme muita diversão e muitas cores, outro ponto em que a película de animação se destaca. A paleta de cores é diversificada, perpassando várias cores e alternando entre noite e dia de forma muito eficiente. Notável também a troca de figurino de Ian, que mostram as transformações do personagem ao longo da história, além da trilha sonora, que é uma delícia!

Por essas e outras é que Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica recebeu mais do que merecidamente a indicação ao Oscar em sua categoria e, como fã de fantasia, devo dizer que amei esse retorno da magia ao mundo das comodidades tecnológicas. Um filme imperdível para toda a família.

DOIS IRMÃOS: UMA JORNADA FANTÁSTICA

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Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.