Crítica | Em ‘Meu Pai’, Anthony Hopkins justifica o Oscar de Melhor Ator

Ao assistirmos a um filme, coletamos informações que nos são dadas logo de início para compor o cenário da trama que virá em seguida. Confiamos à continuidade nossa compreensão do que estamos vendo e ouvindo. Em Meu Pai, do diretor Florian Zeller, no entanto, este simples acordo é desconstruído, pois as ideias que nos são passadas são, a todo momento, desconsideradas. Toda obra propõe um código de entendimento e aqui o código é a ambiguidade, existe uma incerteza sobre o que é exposto em tela. 

Tal linguagem é o que, justamente, torna Meu Pai uma obra excelente.  Anthony (Anthony Hopkins) é um senhor de idade avançada que passa a precisar da ajuda da filha Anne (Olivia Colman) com mais frequência, até para realizar tarefas mais habituais, apesar dele mesmo negar. A história que, à princípio parece simples, destaca-se pela forma com que nos é mostrada se apoiando numa estrutura cronológica não linear, em que rostos, informações, ambientes são exibidos em uma espécie de desordem mental para evidenciar o envelhecimento. 

O longa assume o ponto de vista de Anthony, refletindo seus sentimentos com maestria. Há transformações pequenas nos cenários para garantir a sensação de confusão e aflição por parte do personagem. A percepção é um conceito bastante explorado à medida que compartilhamos dessa perspectiva de esquecimento e desorientação. Outro ponto interessante a se perceber é a noção de tempo que é completamente descontínua. São dias que se repetem, assumem novos tons, descobrem-se novos diálogos, o que proporciona uma ideia de desaparecimento dentro de si. 

As atuações do longa, que foi destaque nos festivais de Toronto e Veneza no ano passado, são brilhantes, especialmente a de Hopkins, vencedor do Oscar de Melhor Ator em 2021. Sua performance é de partir o coração ao externalizar com perfeição a figura de alguém que enfrenta as mazelas do tempo, transmitindo uma vulnerabilidade comovente. O filme, que é uma adaptação da peça teatral “Le Père” de autoria de Zeller, assume nuances que combinam tanto a linguagem cinematográfica quanto cênica, o que enriquece muito a trama. 

O diretor também foi muito perspicaz em assumir um ângulo de fragilidade em relação à situação exposta. O longa também é bem-sucedido em descrever as oscilações das relações entre pais e filhos, principalmente no que tange à inversão de papéis quando a pessoa que sempre teve domínio das situações demonstra uma enorme fraqueza e carência. Meu Pai é doído ao trazer à tona essa angustiante ideia de ausência de si mesmo. A cena mais forte e impressionante é quando Anthony relata: “Sinto que estou perdendo todas as folhas”.  

MEU PAI | THE FATHER
5

RESUMO

Em Meu Pai, o ganhador do Oscar Anthony Hopkins atinge performance brilhante demonstrando a vulnerabilidade do envelhecimento.

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Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"