Crítica | ‘O Som do Silêncio’ traz ao público uma reflexão importante sobre como lidar com perdas e crises existênciais

Á primeira vista, O Som do Silêncio (The Sound of Metal) propõe uma história bastante simples,  porém bastante complexa e reflexiva em sua essência. Isso por que conta a história de Ruben (Riz Ahmed), um baterista de uma banda de heavy metal em ascensão que de uma hora para outra, simplesmente perde sua audição, levando-o a se questionar o que fazer da vida, uma vez que um dos principais sentidos (senão o principal) responsável pela sua profissão e também seus sonhos, simplesmente lhe foi roubado.

O enredo não demora a apresentar o primeiro ponto de virada da história, quando do desaparecimento da audição do protagonista. Talvez o choque pudesse ser menor se este sentido começasse a falhar gradualmente e ele enfim a perdesse ao longo dos anos, mas não, em questão de dias, ele simplesmente fica quase que completamente surdo. Seja por fatores genéticos ou exposição a sua música barulhenta, o personagem se vê em uma situação de completo desespero, contagiando sua companheira Lou (Olivia Cooke), também integrante da banda (ela é a vocalista), com sua nova fase problemática. Mas isso não significa que o casal está embarcando em sua primeira fase de problemas, uma vez que a acertada direção do longa vai mostrando por meio de detalhes, o quão disfuncional é a dupla.

Dessa forma, tendo como objetivo conseguir dinheiro para pagar uma cirurgia bastante cara, ao mesmo tempo em que interrompe (e dissolve) a banda, Ruben acaba encontrando uma casa que serve de abrigo para surdos, uma instituição criada com o objetivo de acolher novos surdos e auxiliá-los na sua reintegração junto à sociedade. E é aí que novas questões surgem para nosso protagonista, uma vez que ele serve de fio condutor para que o público possa se enxergar na situação apresentada pela história. Fica no ar aquele sentimento de “E se tivesse acontecido comigo?”.

E, sem dúvidas, é aí onde está o principal acerto da obra, uma vez que ela coloca uma pessoa normal em uma situação completamente extraordinária. As pessoas depositam suas esperanças e seu ânimo de levantar todas as manhãs graças à esperança de que um dia as coisas estarão melhores e que seus sonhos estão um dia mais próximo de se realizarem. E se esse sonho simplesmente fosse tirado de você para sempre?

Riz Ahmed e Olivia Cooke em “O Som do Silêncio” – Amazon Prime Video (2021)

Vários sentimentos explodem no personagem sensivelmente interpretado por Riz Ahmed (inclusive, lhe garantindo merecidamente uma indicação ao Oscar 2021 na categoria de Melhor Ator), passando pela raiva, a rebeldia e aos poucos, a inevitável aceitação, inclusive com uma significativa mudanças de perspectiva de vida, com aquele pensamento, “se seu sonho lhe foi roubado, você ainda está vivo, sonhos podem ser substituídos”. Apesar de difícil de lidar no começo, ao poucos, podemos perceber que Ruben não é apenas uma pessoa rebelde e má educada o tempo todo, mas sim, é uma boa pessoa que passou por maus bocados e precisa lidar todos os dias com um passado difícil, crises existenciais e que talvez, só talvez, perder a audição até que pode ter sido uma coisa boa.

Outra atuação brilhante e cuja personagem, apesar de possuir menos tempo de tela, também impressiona, é a Lou de Olivia Cooke, que mostra que apesar de ser uma menina de bom nascimento e que sempre teve tudo desde criança (diferente de Ruben), também sofre com vários problemas internos, especialmente a depressão. Um fator bastante singelo do filme é expor que alguns relacionamentos, mesmo repletos de amor, podem se tornar em menor ou maior grau tóxicos, e que isso realmente é uma questão visceral e de difícil solução, afinal, se você ama alguém com todo o seu coração, se vocês dois juntos fazem mal um ao outro, como fazer para se afastar? Como viver longe daquilo que mais ama? Seja ela o amor da sua vida ou a sua audição?

Outro mérito do longa é mostrar um pouco da cultura dos surdos, expondo sua natureza peculiar, mas que não pode ser menosprezada ou considerada como inferior. Partindo do pressuposto de que pessoas surdas não são necessariamente tristes ou menos funcionais do que pessoas que ouvem, podemos perceber que esses indivíduos não são menores do que os demais, mas apenas observam o mundo de forma diferente. Sem a audição, os surdos são pessoas visuais, que enxergam o mundo com mais profundidade, admirando as belezas da vida sem a agitação sonora que as ronda.

Com uma fotografia realista e com poucas cores, interpretações extremamente minimalistas e uma história que parte do público pode achar lenta e não tão épica, mas que nem por isso, acaba por ser algo maçante, O Som do Silêncio mostra que a vida é uma caixinha de surpresas e que essas surpresas às vezes são boas, mas às vezes são avassaladoras, mas que enquanto houver vida, pode haver esperança, mesmo das formas mais inusitadas possíveis.

O SOM DO SILÊNCIO | SOUND OF METAL
4.5

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...