Crítica | Em ‘Nomadland’ a resposta é a jornada

Há uma estrutura clássica em road movies. O personagem que se perde para se encontrar; a jornada que ensina e amadurece; a compreensão de que a vida é muito mais múltipla do que jamais poderíamos imaginar. Nomadland, espera-se, encaixa nessa categoria, mas também a expande, a complexifica. Afasta-se do exemplar Na Natureza Selvagem, pois aqui a felicidade não é exclusiva de quem a compartilha e quem a compartilha não necessariamente esbanja felicidade. Aqui, há momentos lindos e tristes de solitude e solidão, há raiva e conformidade, há trocas e procuras, há beleza e a feiura. Nada é único e, ao mesmo tempo, tudo é único. 

Neste indicado ao Oscar 2021 de melhor filme – também de melhor atriz, direção, roteiro adaptado, montagem, fotografia – acompanha-se os caminhos de Fern (Frances McDormand) que após o colapso de uma comunidade industrial rural, passa a viver em sua van, explorando as margens de um país que mercantiliza a sobrevivência. Ela é uma nômade moderna que, de certa forma, recusa-se a obedecer à lógica dominante capitalista. Mas o que significa existir fora desse fundamento se a própria existência tornou-se submetida à essa máxima, em uma retroalimentação sufocante?

As motivações de Alexander Supertramp (Na Natureza Selvagem) aqui até parecem banais, apesar de autênticas. Esses nômades modernos, muitas vezes, não escolheram estar sempre em movimento e sim foram impulsionados a isso. Não se trata de uma natureza, mas sim de uma sociedade selvagem que larga indivíduos pelos caminhos. São as sobras resilientes de uma luta injusta. Há uma crítica sócio-política forte, mas sutil, em Nomadland, uma obra que retrata de forma íntima a rotina dessas pessoas.

São paisagens estonteantes, planos abertos para mostrar o horizonte que não tem fim, o deserto pintado de um céu de cores pastéis e melancólicas. Elementos que abraçam e confortam as tantas histórias tristes desses viajantes. A direção de Chloé Zhao é precisa em não se intrometer tanto nas narrativas contadas. Esse distanciamento acaba por nos aproximar daquela realidade e acrescentar um tom documental à obra, que se completa pela presença de não atores. Exceto por McDormand e David Strathairn (Dave), todos os personagens são realmente nômades. 

Frances McDormand em Nomadland (2020)

É preciso também elogiar a genialidade de Frances em mais uma atuação fantástica. A atriz incorpora completamente a protagonista, a interioriza. É uma performance internalizada, pois é possível captar seus sentimentos apenas com olhares, trejeitos, expressões. Há algo em sua postura resignada e corajosa que gera identificação e empatia. Se o roteiro de Zhao transporta-nos para essa história, é Frances quem a engrandece. 

Road movies geralmente são sobre encontrar respostas ao final da jornada. Em Nomadland, é possível que a resposta seja a jornada. Estradas que levam a outras estradas, instantes que emocionam de tão belos e outros que abalam. Ou talvez não haja resposta, mas resistência e, ao mesmo tempo, um acordo de convergência com a própria vida de que haverá momentos de solidão e também de contato e convivência. 

NOMADLAND
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RESUMO

Nomadland, de Chloé Zhao, é uma história sobre resistência e resiliência na sociedade capitalista e selvagem.

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Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"