Crítica | A desmistificação de ‘Professor Polvo’

Desde que o ser humano se entende por espécie vive um processo de contínua desmistificação de vários aspectos físicos, psicológicos, religiosos, raciais e relacionais que resultaram na sociedade dm que vivemos hoje, no século XXI. Dessa forma, ao concluírem o filme/documentário Professor Polvo (2020), disponível na Netflix, os co-diretores Philippa Ehrlich e James Reed ajudaram Craig Foster a realizar mais um desses processos num mundo à parte situado no mar da costa da África do Sul.

No documentário, nós acompanhamos um cineasta (Foster) forjar uma inusitada amizade com um polvo, enquanto o animal vai ensinando a ele sobre os mistérios da floresta de algas em que vive.

Sendo assim, assistir a essa obra é, em primeiro lugar e acima de tudo, emocionante. Foster nos cativa tão completamente com sua paixão (que ele próprio chama de obsessão), que, de repente, nos percebemos amando sua amizade com um molusco. É tudo tão natural, tão puro, tão “do nada”, que é impossível não se curvar a essa história que, de simples, não tem nada, mas é tão complexa quanto o ser humano e seus sentimentos.

Desta feita, ao observar não só o inusitado desenvolvimento da amizade entre o cineasta mergulhador e o polvo, mas também a cinematografia do documentário, é o que o torna tão especial e merecedor da indicação ao Oscar que recebeu. Mesmo que o foco seja o mar, onde o principal da história acontece, os diretores dão especial atenção à dualidade da vida do protagonista, que parece precisar tanto da água, como necessita do ar. Ao focarem nos pés descalços de Foster toda vez que ele caminha pela trilha pedregosa até o local de mergulho, Ehrlich e Reed mostram não só a ligação forte que o cineasta possui com a terra, já que não somos seres aquáticos, mas também revelam a trajetória sacrificial que ele escolhe tomar ao selar essa relação com o molusco – porque mergulhar todos os dias em águas cuja temperatura chega perto de 0º não é para qualquer um.

Professor Polvo (2020) – Netflix

 

E depois disso, através de uma fotografia fascinante que desbrava o fundo do mar, podemos acompanhar a vida agitada e voltada para a sobrevivência dia-a-dia dos seres submarinos, mas que não seria nem minimamente tão interessante se não fosse mostrada pelos olhos de um apaixonado que nos obriga a fica pregado no sofá, esperando para saber como aquilo tudo vai terminar enquanto desmistificamos muito do mundo subaquático – suas belezas, seus sons, seus rastros e, sobretudo, seus perigos. De uma forma sensível, passamos a conhecer literalmente a fundo a vida do mais impensado e estranho dos animais, e é por isso que desafio qualquer um a pensar em que momento da existência, você pensaria que se emocionaria com um polvo.

Sendo assim, é com obras como essa que percebemos como nós, seres humanos, em nossa eterna prepotência de nos acharmos deuses, somos parte dessa mesma natureza a que pertence o mais rudimentar dos moluscos. Porém, será que eles são tão rudimentares assim? Como diz Shakespeare, há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia. Mas com a lição do Professor Polvo, eu também incluiria o mar nessa máxima.

Professor Polvo recebeu uma indicação ao Oscar 2021 de Melhor Documentário.

PROFESSOR POLVO | MY OCTOPUS TEATCHER
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Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.