Crítica | A liberdade em ‘Wolfwalkers’

Às vezes nós nos esquecemos do poder que a animação pode alcançar. Essa forma de contar histórias já deixou de ser exclusividade das crianças há muito tempo e nós, adultos, precisamos reaprender a consumir esse tipo de película se não quisermos deixar de apreciar filmes tão maravilhosos, como é o caso de Wolfwalkers (Tomm Moore, Ross Stewart, 2020).

A história do longa segue Robyn Goodfellowe (Honor Kneafsey), uma pequena aprendiz de caçador que se muda para a Irlanda com o pai para exterminar o último bando de lobos da floresta ao redor da cidade. Mas quando ela conhece uma garotinha nativa selvagem chamada Mebh (Eva Whittaker), Robyn vai conhecer o fantástico mundo dos wolfwalkers.

A animação nos leva para um mundo cercado de magia e superstição, uma metáfora para a colonização e repressão inglesa na Irlanda e a retratação da busca pela liberdade, tudo isso misturado com a rica tradição folclórica irlandesa. Mas aqui, entretanto as fadas e os elfos são deixados um pouco de lado para dar lugar a outra figura um pouco mais selvagem e temível: os lobos, uma das criaturas mais presentes do imaginário infantil (e que consequentemente nos segue depois de crescidos) desde que as histórias de terror foram inventadas.

No entanto, mesmo com lobisomens no contexto, Wolfwalkers não tem absolutamente nada de terror. É uma história muito sensível que quer nos falar sobre sermos livres através de uma fantasia que nos liga diretamente a nosso lado mais selvagem. Ironicamente, a a grande questão reside em saber se o ser humano é pior do que o lobo.

Wolfwalkers (2021)

Por outro lado, impossível não se encantar com a fotografia que, posso dizer sem medo, é a mais maravilhosa que já vi em uma animação, uma obra de arte em que cada quadro poderia estar exposto na parede de um museu. A maneira como as formas geométricas se fundem com o movimento é encantadora demais para dizer o mínimo e as cores cuidadosamente escolhidas cumprem seu papel de guia enquanto nos alternamos entre a cidade e a floresta, entre o avermelhado quente dos cabelos de Mebh ao azul calmante dos olhos de Robyn, entre o verde da floresta e os tons sombrios dos sonhos de lobo.

Assim, este não é um filme cuja forma ou o enredo possam ser considerados inéditos, mas é único e inigualável de uma forma que não se pode explicar. A animação está indicada ao Oscar em sua categoria e, se dependesse de mim, já teria ganhado. O favorito Soul também é lindo, mas alma de Wolfwalkers, pelo menos por enquanto, é muito mais brilhante.

WOLFWALKERS
5

RESUMO

Em Wolfwalkers, animação indicada ao Oscar da categoria em 2021, o ser humano consegue se tornar mais bestial do que o lobo.

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Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.