Crítica | Liga da Justiça: ‘Snyder Cut’ mostra a que veio com uma forma peculiar de contar histórias de heróis

Antes de entrar na ancestral disputa entre Marvel e DC Comics, batalha esta que desde muito tempo vem se desenrolando entre os fãs das duas grandes editoras de quadrinhos e em tempos mais recentes, se alongou para os cinemas, é preciso que se analise essas obras de uma forma mais imparcial, afinal, o verdadeiro fã de quadrinhos, não escolhe entre Liga da Justiça ou Vingadores, ele simplesmente aprecia as histórias como um admirador de boas histórias, independente de qual editora seu personagem preferido pertence.

A partir deste conceito, pode-se afirmar que as duas editoras, apesar de suas semelhanças, apresentam formas diferentes de contar histórias. A Marvel, com seus heróis mais mundanos, com histórias divertidas e bem humoradas, em filmes com paletas de cores saturadas e diversos momentos de alívio cômico, em contrapartida à sua ‘rival’ DC, com seus personagens soturnos oriundos de um cenário sombrio e realista (trazendo heranças da trilogia Batman – Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, mas que convenhamos, não é mais tão realista assim), com heróis repletos de traumas, com pouco tempo para piadas e muita terapia por fazer, onde as cores são escuras e as cores sem saturação.

Apesar dessas características tão distintas entre os dois estúdios (a Marvel, com Marvel Studios, da Disney, e a DC, com a Warner Bros.), o fã não precisa escolher entre um dos estilos e sim, pode se ver beneficiado com a dádiva de poder assistir duas formas distintas de se contar histórias. Qual deles é melhor? Depende do seu gosto pessoal.

Mas o que é realmente concreto é a relevância do novo filme da Liga da Justiça. Após Batman vs Superman em 2016, o diretor Zack Snyder estava a frente do Universo Cinematográfico da DC, ditando os conceitos de como seriam os heróis, e foi assim que nasceram o Batman de Ben Afleck, a Mulher Maravilha de Gal Gadot, o Ciborgue de Ray Fisher, o Flash de Ezra Miller e o Aquaman de Jason Momoa, heróis estes que logo ficaram gravados no imaginário dos fãs, não a toa o sucesso dos filmes solo de Mulher-Maravilha e Aquaman.

Porém, durante a empreitada de gravações da Liga da Justiça, problemas com o estúdio e uma tragédia pessoal obrigaram Snyder a abandonar o projeto, deixando a finalização do longa a encargo de Joss Whedon, responsável pela produção de importantes filmes da rival, Marvel, como o impactante Os Vingadores (2012).

A Liga foi um fiasco e bastante criticado pela crítica especializada, o que inviabilizou vários dos projetos futuros da Warner com a DC. Porém, algo incomum estava para acontecer e o responsável por isso foi Zack Snyder. É comum quando se pensa a indústria cinematográfica norte-americana ouvir diretores reclamando de divergências criativas com os estúdios, afirmando que a suas versões das obras eram superiores, porém, o que não é comum é que esses famosos cortes injustiçados dos diretores vejam a luz do dia. Porém, indo contra tudo e contra todos, o diretor recorreu aos fãs e buscou conseguir os recursos necessários e anos depois. Assim, finalmente ocorreu o nascimento do tão famigerado Snyder Cut.

Muitos criticaram o filme de Joss Whedon e como se não bastasse, vieram a tona alguns problemas de bastidores, especialmente os envolvendo Ray Fisher, que relatou várias conflitos com o diretor, inclusive, ao analisar a obra de 2021, além dos primeiros trailers lançados, percebe-se que o seu personagem, o Ciborgue, é um dos mais prejudicados nesta versão.

Ray Fisher como Ciborgue em “Liga da Justiça – Snyder Cut” – HBO Max

Leia a nossa crítica de Liga da Justiça (2017)

Mas o filme de Whedon é completamente ruim? Não necessariamente. O filme não é bom, mas é preciso se considerar que o diretor foi obrigado a assumir um projeto que já estava em vias de ser finalizado e buscou a partir de algumas refilmagens, criar algo mais compacto e coeso. Apesar de grande parte de suas escolhas não ter logrado êxito, é possível perceber o que Whedon tentava, ao contar uma história mais rápida (o filme de 2017 tem 2 horas de duração, enquanto o Snyder Cut alcança a megalomaníaca marca de 4 horas) e que fizesse sentido, apesar de muitas pessoas considerarem a narrativa confusa.

Após contextualizar todos esses fatores, chegamos finalmente ao famoso Snyder Cut, e comparando-se ao filme de 2017, ele é uma verdadeira obra-prima. Deixando as comparativas de lado, é preciso que se analise ao filme como ele deve ser analisado, como uma obra audiovisual de 4 horas de duração, lançado diretamente para o serviço de streaming da HBO, o HBO Max.

Sim, o Snyder Cut é uma obra de arte. Apesar de possuir alguns pequenos deslizes de ritmo, o filme foi planejado originalmente para ser uma obra dividida em 4 capítulos e esse fator, por si só, já justifica sua duração. Assim sendo, o texto de Snyder não apenas une os 5 maiores heróis da DC para enfrentar um vilão qualquer, mas ele o faz de uma forma magistral, inserindo arcos interessantes em cada um desses personagens. E mais, ele contextualiza e desenvolve arcos para vários dos personagens principais.

Todos os heróis e seus conceitos são aproveitados. Quanto às origens da Mulher-Maravilha, as amazonas da ilha de Themyscira são tão bem desenvolvidas (ouso dizer que ainda melhor do que nos dois filmes solo produzidos por Patty Jenkins), e pode-se ver Zack Snyder referenciando seus próprios filmes anteriores. A batalha das amazonas contra o Lobo da Estepe, principalmente, parece um recorte de 300 (2006). Interessante ressaltar que os cortes de Znyder, diferente de Whedon, não mostram as mulheres em ângulos gratuitamente sexualizados, mas sim, as demonstra como guerreiras páreas para qualquer grande guerreiro masculino.

O Flash também é extremamente desenvolvido, com uma cena inicial que rapidamente demonstra como funcionam seus poderes e sua dinâmica com seu pai, que está mantido preso em uma penitenciária por um crime que não cometeu. Já o Batman, que foi amplamente desenvolvido no filme anterior, possui um novo arco neste longa, dessa vez, em uma jornada de redenção, após seu envolvimento na morte do maior herói da Terra, para o qual ele realizou uma promessa de reunir meta-humanos para proteger o planeta da ameaça pré-anunciada por Lex Luthor (Jesse Eisenberg).

Aquaman, de Jason Momoa, é apresentado como uma espécie de anti-herói ou um herói desajustado, com dificuldades de coexistir entre o mundo dos humanos e o mundo dos atlantes, mas que faz isso com estilo e muito álcool. Por outro lado, a Mulher-Maravilha dessa vez é quem demonstra como possui tato com os integrantes da equipe (assim como nos quadrinhos, como é descrita como o coração da Liga da Justiça), mas também mostra como é poderosa e é capaz de chutar traseiros de quem for, poderosos ou não, terrestres ou de outros mundos.

E por fim, mas não menos importante, Kal-el, o último filho de Krypton, o maior herói da Terra. O Superman (Henry Cavill) só aparece já com duas horas de filme, no momento de sua ressurreição. A partir daí, cabe ao kryptoniano recuperar suas memórias e se juntar à Liga com um novo uniforme, o preto, referenciando seu retorno nos quadrinhos (da icônica época da Morte do Superman, nos anos 1990).

Henry Cavill é um Superman diferente no Snyder Cut – HBO Max

O vilão principal do longa, o antes criticado Lobo da Estepe, que no filme de 2017 não apresentava ameaça nenhuma, com um design muito mais interessante e um arco menos preguiçoso, se mostra extremamente carismático, causando em vários momentos uma real aura de ameaça (pelo menos até os momentos finais).

Com tantos personagens importantes e ainda com tempo de tela para vários personagens secundários, pode-se dizer que o filme poderia ficar confuso ou cansativo, mas isso não acontece graças à habilidade cativante de Snyder de narrar. Com cenários lindíssimos, uma fotografia que está sempre muito bem inspirada, efeitos visuais com CGI de ótima qualidade, desenho de produção impecável e um roteiro inteligente, as quatro horas passam sem se arrastar (apesar de que quatro horas ainda são quatro horas, portanto, pode ser que parte do público precise dar pausas).

Liga da Justiça – Snyder Cut vem para provar que o universo da DC nos cinemas não está morto e ainda tem muita lenha para queimar e belíssimas histórias para contar, entrando para a história como um dos mais emblemáticos e sim, um dos melhores filmes de super-heróis já feito.

LIGA DA JUSTIÇA – SNYDER CUT
4.5

Summary

Zack Snyder finalmente entrega sua visão peculiar sobre os heróis da Liga da Justiça com o famigerado e aguardado Snyder Cut.

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...