Crítica | De forma fatigante, ‘Mank’ traz à luz um dos responsáveis pelo grande sucesso ‘Cidadão Kane’

Em 1941, um dos filmes mais emblemáticos de todos os tempos estreava nos Estados Unidos. Dirigido, estrelado, roteirizado e produzido por Orson Welles, o drama que aborda a história de poder e decadência de uma grande figura emblemática chamada Charles Foster Kane, ganhava o público e crítica especializada que mesmo após 80 anos de seu lançamento ainda o consideram uma das maiores obras da sétima arte. O nome de Welles foi consagrado na história após seu grande drama que mudou os rumos do cinema, se tornando inclusive um dos nomes mais famosos da indústria. Enquanto isso, por outro lado, pouco se fala no nome de um dos roteiristas do seu longa, Herman J. Mankiewicz. Mank

Conhecido como Mank, Herman J. Mankiewicz foi uma figura tão querida quanto odiada por escritores, diretores e atores de Hollywood que viam além de talento, uma grande ameaça às suas carreiras devido a sua posição política. Antinazista, alcoolista, viciado em jogos de sorte e azar, Mank só tinha o seu talento ao seu favor, e mesmo quando não podia ser creditado por suas obras nos grandes estúdios – como O Mágico de Oz (1939) – dentre outros, ainda assim não perdia a chance de utilizar os seus atributos. Muito se fala sobre Cidadão Kane, mas pouco se fala sobre um de seus responsáveis, Mank, que mesmo sem ser creditado pelo filme, correu atrás dos seus direitos enquanto autor.

Em Mank, David Fincher utiliza o roteiro de seu falecido pai Jack Fincher, para contar a história de um talentoso jornalista que precisou encontrar o equilíbrio entre seus valores e o trabalho. Produzido e distribuído pela Netflix, o novo longa de Fincher traz à luz essa grande figura da história do cinema ainda tão pouco conhecida. Retratando o tempo de sua vida no qual desenvolveu o roteiro de Cidadão Kane em paralelo aos encontros com a personalidade que serviria de maior inspiração para o roteiro, o jornalista e empresário William Randolph Heart.

Assim como Cidadão Kane, Mank é narrado de forma não linear, seguindo dois momentos da vida de Herman entre os anos 1930 e 1940. Acompanhamos, através de flashbacks pontuados pelo filme, o roteirista em um de seus maiores momentos da carreira, enquanto grande nome no departamento da MGM, persona influente dentro dos sets de filmagens e fora deles. Em contrapartida aos flashbacks, no momento atual, vemos um Mank já desgostoso pela decadência de sua carreira, abatido pelo vício do álcool, e machucado após um acidente de carro. Enquanto se recupera, Mank desenvolve o roteiro de Cidadão Kane, buscando em seu passado aparatos apresentados ao público através de suas memórias em Hollywood.

O filme com fotografia preto e branco não se esforça ao pontuar a nostalgia e referenciar o modo de funcionamento de Cidadão Kane, buscando um apelo histórico, mas também afetivo aos amantes de cinema que podem, pela primeira (e única) vez acompanhar o processo de um dos grandes filmes já feitos. Com grandes figuras da Hollywood dos anos 30, Fincher cria seu próprio faz-de-conta e guia o público cinéfilo a uma visita a sua “Disneylândia”, onde podemos ver nomes como Louis B. Mayer (Arliss Howard), Irving Thalberg (Ferdinand Kingsley), Orson Welles (Tom Burke) e Marion Davies (Amanda Seyfried) em ação. Através de um design de produção digno da Era de Ouro de Hollywood, Mank nos leva em uma viagem ao passado onde o cinema moderno recria a fábrica de sonhos.

Assim como os outros trabalhos de Fincher, Mank é extremamente intimista, por mais que apresente uma série de grandes personalidades de época em cena. Semelhante ao seu trabalho em O Curioso Caso de Benjamin Button (2008), onde Fincher conta a história de seu personagem através dos seus encontros e afetos durante sua vida, no longa da Netflix o mesmo ocorre. Entretanto, diferente de Benjamin Button, Mank não transpassa ao tempo a fluidez da vida de seu personagem. Em Cidadão Kane, acompanhamos toda a vida, ascensão e morte de Kane de forma não linear que ocupa o tempo real de duas horas. Sua edição, entretanto, torna a história dinâmica ao ponto do tempo sequer existir enquanto o assistimos, são duas horas que se transvestem de 20 minutos. O mesmo, infelizmente, não pode ser dito sobre Mank, que com um pouco mais de duas horas de duração, não possui a fluidez nem a atração do filme que retrata.

Amanda Seyfried e Gary Oldman em “Mank” – 2020 (Netflix)

Mesmo com personagens interessantes e curiosos, o longa se desenvolve de forma maçante, às vezes confusa, o que dificulta a sua experiência. Extremamente didático, o filme pontua cada vez que estamos em um flashback, entretanto nem a falta de sutileza foi o suficiente para evitar o emparelhamento das ocorrências, bem como o acúmulo gradativo de um amontoado de personagens. Apesar de ser um prato cheio para grandes estrelas de Hollywood viverem outras grandes estrelas, não é fácil destacar uma ou duas performances.

Com um processo semelhante ao que teve em seu passado, Gary Oldman vive Herman em Mank uma grande figura do cinema que teve problemas com alcoolismo. Aqui, como de costume, Oldman não decepciona ao interpretar um roteirista antinazista que precisa se esquivar para não ser prejudicado, situação próxima ao do longa Trumbo: Lista Negra (2015), por exemplo, que também retrata um cenário baseado em fatos reais onde vários profissionais da arte precisavam se desdobrar diante de seu posicionamento político e seu trabalho. Oldman patina entre essas duas esferas de seu personagem de forma palpável, graciosa e eloquente, estando sólido quanto roteirista, mas ainda mais autêntico quando reivindica por seus ideais políticos. 

Oldman, entretanto, perde o brilho talvez quando perto de Marion Davies, interpretada por uma madura e presente Amanda Seyfried. A atriz, que já trabalhou com os mais variados gêneros no cinema, sendo a loira burra em Meninas Malvadas (2005), a jovem ingênua em Mamma Mia! (2008) e o símbolo sexual em Lovelace (2013), unifica em Mank todas as personagens que já deu vida nas telas. Uma Seyfried mais equilibrada e divertida rouba a cena mesmo tendo somente 19 minutos de tela, tempo que, espalhado pelas mais de duas horas de filme, torna-os mais vivos e prazerosos de acompanhar. 

Sendo um dos favoritos nessa temporada de premiações, a parceria entre Fincher e a Netflix já parece colher os frutos da ambiciosa produção. Entretanto, é difícil não dizer o quão frustrante é ter um diretor como David Fincher, responsável por projetos como Zodíaco (2007) e A Rede Social (2010), sendo reconhecido como nunca antes, por esse importante mas tedioso drama biográfico. Apesar do interessante roteiro, e grandiosidade da história que conta, Mank perde força como filme pela edição que o torna arrastado e pela grande quantidade de informações que se tornam descartáveis na cena seguinte. Aliás, tirar alguns dos personagens para dar mais tempo de tela a Amanda Seyfried não seria de todo mal no final das contas.

Mank recebeu 10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Ator (Gary Oldman), Melhor Atriz Coadjuvante (Amanda Seyfried), Melhor Direção (David Fincher), Melhor Edição de Som, Melhor Trilha Sonora, Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Figurinoe Melhor Cabelo e Maquiagem.

MANK
2.5

Resumo

Apesar de possuir interessante roteiro, nem a performance de Gary Oldman, nem a direção de David Fincher sustentam o tedioso drama biográfico.

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Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.