Crítica | ‘Bela Vingança’ reflete de forma fabular a relação da sociedade com seus jovens homens promissores

Em setembro de 2020, a hashtag #JustiçaPorMarianaFerrer bombava nas redes sociais. Tanto o Twitter, quanto o Instagram, eram bombardeados pela frase que buscava, de alguma forma, uma mobilização social pelo veredito do julgamento no qual o empresário André de Camargo Aranha foi inocentado ao ser acusado de estupro pela promotora de eventos Mariana Ferrer. Vídeos, mensagens da jovem trocadas com suas amigas, e fotos não foram o suficiente para provar que o homem sabia da embriaguez da moça na hora do estupro, o que levou o promotor do caso a incentivar que o ato teria sido uma espécie de “estupro culposo”. Enquanto aqui no Brasil, as mulheres clamavam por justiça em nome de Mariana Ferrer, nos Estados Unidos, Emerald Fennell (The Crown, Killing Eve) levava seu longa Bela Vingança (Promising Young Woman) do Festival de Sundance às grandes premiações estadunidenses.

Com uma estreia divisava, Fennell não teve medo de ousar. Utilizando uma narrativa de vingança conduzida pela brilhante Carey Mulligan (aqui Cassandra), a diretora dedica sua fábula feminina ao que os homens fazem e deixam de fazer numa sociedade misógina e patriarcal. Sem papas na língua, a exagerada metáfora catártica da artista não é somente um grito que visibiliza a situação das mulheres em situação de vulnerabilidade, mas que, escancara, por exemplo, o que levou o jovem empresário brasileiro a ser absolvido no caso que ocorreu em 2018 aqui no Brasil.

Delimitando o seu espaço de criação, Fennell não nega: estamos em uma fábula. Nela, tudo é possível, incluindo uma mulher se passar por embriagada todas as noites para que homens a leve para suas casas, e ela possa, assim, dar uma lição de moral a cada um deles. Impulsionada por uma dor que não somente aperta, mas incomoda, e busca formas de sair, Cassie (Mulligan) não age de forma impulsiva, mas calcula cada passo que dá em direção àquilo que pode lhe trazer um pouco de paz. Paz essa que não vive dentro da moça, que, desde o início não apresenta muita perspectiva de futuro pessoal.

Através de um design de produção que choca o sensual com o fofo e lúdico, Fennell trabalha as personas de Cassie através do seu ambiente. Enquanto de dia a moça que trabalha em uma confeitaria é rodeada de tons azuis e rosa bebê, quando sai à caça de novas vítimas para dar um susto durante a noite – aqui ousando na troca de papéis -, as cores são reforçadas em tons escuros tecendo o fundo que irá agregar a personalidade dissimulada, fatal e ambiciosa, que busca sempre por novos números em seu caderno. Esse trabalho é ainda intensificado com a potente trilha sonora que reverbera e destaca a força de sua protagonista em músicas de grandes figuras femininas do Pop como Toxic, da Britney Spears (aqui versão em violino) e It’s Raining Man, de The Weather Girls.

A protagonista não possui tantos segredos de seu público. Sua vida, interrompida por uma tragédia quando mais nova, reverberou em uma personalidade dura e crua pronta para lidar com a realidade ao seu redor, onde somente os homens possuem espaço o suficiente para crescer e se desenvolver. Desde criança é dito que os homens amadurecem mais devagar, quando o fazem estão prontos para uma sociedade que irá abraçá-los, ou seja, tudo o que for preciso será feito para proteger o “promising young men” – termo utilizado para falar sobre homens jovens promissores que possuem uma bela carreira pela frente – e não há nada que os atrapalhe nisto.

Só na ficção os exemplos são múltiplos, a começar por todos os personagens masculinos deste longa. De obras mais recentes é possível citar o jovem promissor autor Zain Tareen, personagem de I May Destroy You, e o golpista de internet em Bom dia, Verônica. Enquanto fora da ficção é possível ver o jovem empresário André, além de outros jovens – promissores, brancos e ricos – denunciados pela página de instagram @IsisNina_ que acumula mais de 125 publicações com denúncias de assédio e abusos sexuais de jovens da cidade de Vitória da Conquista, onde muitos abusaram de suas vítimas enquanto estas estavam desacordadas.

Carey Mulligan em “Bela Vingança” (2020) – Universal

Na vida real, as mulheres dificilmente conseguem justiça, caso como os de Mariana Ferrer são comuns, mesmo com inúmeras provas além do próprio depoimento da vítima. Emerald em sua fábula, descarregando em imagens o que as palavras não podem dizer, não foge de sua proposta em momento algum. Até mesmo enquanto a jovem encontra alguém de seu passado (Bo Burnham) suas cenas são extremamente exageradas, forçando um amor idealizado à pieguice, proporcionando momentos que quase descolam do objetivo do filme, se sua proposta não fosse ser extremamente exagerada.

Não há meio termo com a protagonista, e nem com o seu filme. Emerald tece uma narrativa que não deixa espaço ou alternativa para escapes com pés no real, a não ser, talvez, por toda a composição masculina, que torna-se incrivelmente engraçada através da tamanha bizarrice de seu roteiro. Como é o exemplo da cena onde um rapaz afirma para seu amigo que ele “não fez nada de errado”, mesmo ele tendo plena consciência do que fez. Os jovens que podiam fazer tudo durante a adolescência e início da vida adulta, continuam podendo também quando mais velhos, encontrando sempre o colo um do outro para poder se livrar de atrocidades cometidas seja no filme, como também na vida real. 

Ao dar forma a sua imaginação, Emerald não poupa energia em desenvolver sua personagem arquetípica. Cassandra não é multifacetada, nem possui profunda personalidade, suas raízes foram cortadas cedo, e é sem tempo para pensar em outra coisa e sem outro objetivo que Carey Mulligan desenvolve um dos maiores papéis de sua carreira. Com atitude e carisma, a atriz explora sua personagem através das duas únicas esferas que lhe são permitidas: a amiga que busca vingança, e a jovem que ainda pode ser conquistada. Não à toa que Mulligan, uma das atrizes mais promissoras dos últimos anos, acumula um grande número de prêmios da crítica no ano de 2021, quanto também acumula espinhosas agressões verbais de críticos homens que provam, novamente, os caminhos que permeiam a misoginia na sociedade.

Bela Vingança não fala de todas as mulheres, e nem é o seu objetivo. Ao retratar o núcleo de uma jovem, mulher, branca de classe média, ele se desdobra nas dores e afagos que essa mulher vive, que obviamente, não são as mesmas de uma mulher negra, rica ou periférica. Mas, que partem de um lugar onde os homens, brancos, cis, heterosexuais, ainda possuem certo tipo de regalia. Onde não precisam de muito para saírem impunes da justiça, seja tendo um vídeo que prove sua culpa como o caso de Cassie, na ficção, ou com um vídeo que o incrimine como no caso de Mariana Ferrer, na vida real.

Bela Vingança recebeu cinco indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Atriz (Carey Mulligan), Melhor Direção e Melhor Roteiro (Emerald Fennell) e Melhor Edição.

BELA VINGANÇA | PROMISSING YOUNG WOMAN
4

Resumo

Com uma de suas melhores performances, Carey Mulligan dá vida a Cassie nessa instigante aventura de Emerald Fennell em Bela Vingança.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.