Crítica | ‘A Voz Suprema do Blues’ se revela um excelente recorte cultural ao som do bom e velho blues

Produzido por Denzel Washington e tendo como estrelas principais Viola Davis, no papel da famosa cantora de Blues, Ma, e Chadwick Boseman na pela do trompetista Levee, A Voz Suprema do Blues é uma daquelas obras indispensáveis pelos amantes da História e do Cinema.

Baseada na peça Ma Rainey’s Bottom, a película se assemelha muito a uma peça de teatro musical, tendo os eventos quase que completamente desenrolados em um mesmo cenário, trazendo óbvias semelhanças com outro filme idealizado por Washington, Um Limite Entre Nós (também baseado em uma pela teatral) e focado no desenvolvimento dos personagens principais e seus conflitos. Muitos são os elementos que provam que essa obra é uma obra de arte.

O primeiro aspecto e talvez o mais importante é um texto e na forma como ele se mostra relevante nos tempos atuais (há quem possa dizer que é uma obra atemporal), mostrando a essência do racismo e de como os negros eram (e muitos são até hoje) considerados como inferiores em relação aos outros seres humanos (brancos), mas que graças ao seu esforço, acabam se destacando em algumas áreas, ainda mais do que os brancos.

Contudo, o filme mostra que assim que os holofotes se apagam, os negros voltam a ser apenas negros, alheios à sociedade branca, nunca atingindo de fato, seus reais objetivos de se inserirem de forma significativa e respeitosa nas castas sociais mais elevadas. Sendo pressionados por todos os lados e incapazes de se rebelar de vez contra seus opressores, os negros acabam se voltando uns contra os outros.

Os conflitos começam quando o trompetista Levee (Boseman), motivado por seus sonhos, acaba tentando se destacar em um universo que é dominado pela poderosa Ma (Davis) e que graças ao seu orgulho, conquistado ao longo dos anos a ponto de permiti-la maltratar pessoas brancas, se sente intimidada por ele. É sobre isso que o texto fala.

Nesse jogo de poderes, os personagens principais, rodeados por pessoas brancas oportunistas e que só querem sugar os talentos dos negros até deixá-los sem nada, acabam demonstrando suas reais feridas, deixadas por seus opressores em um cenário de violência, abuso e injustiça.

Viola Davis é destaqie em “A Voz Suprema do Blues” (2020) – Netflix

A direção de fotografia, bastante contrastada, com cores quentes é auxiliada pela direção de arte e maquiagem para reproduzir o clima abafado e quente dos porões dos estúdios de gravação musical da Chicago de 1927, e essa sensação, de fato, é transmitida pela tela. Outro elemento bastante interessante é a edição e os enquadramentos. A quantidade ângulos utilizados para captar os diversos sentimentos dos personagens é enorme, assim como os fluídos movimentos de câmera, uma montagem bastante complexa, uma espécie de caos controlado que faz com que o filme se assemelhe a uma canção de blues, cheio de nuances e personalidade.

Por fim, mas não menos importante, é preciso que se diga o quanto a direção de George C. Wolfe é esforçada, tendo o diretor na função do maestro dessa caótica e enérgica banda. E quanto ao blues, esse é um espetáculo a parte que irá agradar todos os fãs dessa fase maravilhosa da música mundial. Com os óbvios destaques para Viola Davis e Chadwick Boseman, que encabeçam o elenco de peso, é preciso que se mencione as belíssimas performances dramáticas, que fazem com que o público se contorça na poltrona em um momento e no momento seguinte, esteja se esgarçando em prantos.

A Voz Suprema do Blues foi indicado ao Oscar 2021 em cinco categorias: Melhor Ator (Chadwick Boseman), Melhor Atriz (Viola Davis), Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino e Melhor Cabelo e Maquiagem.

A Voz Suprema do Blues
5

Resumo

Assim como uma montanha-russa musical (se é que existe tal coisa), A Voz Suprema do Blues é um filme indispensável, especialmente para os amantes do teatro e da música negra.

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Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...