Crítica | Road movie adolescente, ‘Unpregnant’ se destaca pela relevância de seu tema, não pela comédia

Poucas vezes o tema do aborto foi abordado no cinema de forma não trágica, não dolorosa e não natural. É possível listar uma série de filmes que tratam do assunto como uma experiência que desencadeia uma série de traumas para as vidas dos envolvidos; sem contar que, no cinema, na maioria dos casos, os abortos ocorrem de forma espontânea. Entretanto, quando se é uma garota de 17 anos, no final do Ensino Médio, não são muitas as jovens que engravidam e recebem a notícia como a melhor coisa de suas vidas. Em Unpregnant, acompanhamos Veronica Clarke (Haley Lu Richardson), uma jovem do Missouri que ao descobrir que está grávida, vê na sua melhor amiga de infância (Barbie Ferreira), a única saída para ajudá-la a interromper a gravidez. 

A protagonista Haley Lu Richardson já é conhecida no cinema por participar dos mais variados coming age movies, filmes que exploram o período entre a adolescência e a vida adulta. A lista que inclui as comédias dramáticas Quase 18 (2016)Support the Girls (2018), o melancólico Columbus (2017) e romance A Cinco Passos de Você (2019), precisava de um road movie político como esse.

A jovem de 17 anos vive cercada por um grupo de amigas populares da escola e um namorado aparentemente perfeito, quando vê seu mundo desabar ao descobrir que está grávida. Desde o princípio, sabendo que deseja realizar o aborto, não consegue contar as suas melhores amigas e muito menos aos pais. Assim, a jovem decide olhar para o passado e pedir ajuda aquela a quem a muito tempo não conversava. Interpretada por Barbie Ferreira (Euphoria), a jovem punk Bailey, utiliza o carro do namorado de sua mãe para levar sua ex-amiga até Albuquerque, cidade mais próxima onde a jovem poderá realizar o procedimento de forma legal. 

O filme vai direto ao ponto, o que distancia a protagonista do público, entretanto mesmo que pudesse ser melhor, não dá para não se divertir e refletir com a nova produção original da HBO Max, plataforma de vídeo sob demanda. O longa é uma adaptação do livro Desgrávida escrito por Ted Caplan e Jenni Hendriks, escrita e dirigida por Rachel Lee Goldenberg.  

Frenético, engraçado, surpreendente e extremamente necessário, Unpregnant é uma viagem que só melhora com o tempo. O longa não introduz as personagens de forma profunda, mas sim a situação. Não conhecemos os personagens envolvidos, mas sabemos que alguém está grávida e quer abortar. O que vem em seguida se desenrola de forma ainda mais rápida, porque o filme em si se passa todo durante a viagem, entretanto, por não termos uma apresentação imediata as personagens que iremos acompanhar, a relação de proximidade com as protagonistas acaba se tornando algo distante. É possível compreender a situação, mas somente isso, a construção da empatia com ambas as personagens se retarda, e tudo isso influencia a perca de interesse no longa. 

A falta de uma construção de apresentação a essas personagens, e a priorização da situação, torna a relação das protagonistas um tanto quanto artificial. Piadas e intimidade do passado são apresentadas durante toda a primeira parte do filme, mas a priori é difícil comprar essa amizade que soa robotizada, quase desfiando, costurada a partir de bordões e manias que a dupla possuía. Assistir ao longa sem pensar em Quase 18 é uma missão difícil, principalmente quando lembramos que a protagonista Nadine (Hailee Steinfeld) e sua amiga (Haley Lu) podem ser amadas ou odiadas porque nós a conhecemos, enquanto Veronica e Bailey parecem estranhas não somente para nós, mas também para elas mesmas. 

O longa vai pegando o ritmo, e com a entrada e saída de diversos personagens coadjuvantes, tendemos a nos apegar as jovens aventureiras. Durante a jornada das duas até Albuquerque, uma série de eventos ocorre, o que faz com que o plano perfeito devidamente desenhado em um mapa pela certinha Veronica se torne totalmente inútil. Desde o carro utilizado para a viagem, até um encontro com um duvidoso casal em um parque de diversões, o filme não polpa cenas de tensão e ação que tiram o espectador do âmbito somente da comédia adolescente. 

O filme aborda todos os principais assuntos que afligem um jovem, desde as relações familiares, amizades, aos relacionamentos amorosos. As possíveis perspectivas de futuro que quando introjetadas parece sufocar as protagonistas a ponto de viverem intensamente o presente, mesmo que o passado esteja sempre à espreita. A conexão das duas acontece de fato na metade do filme, entretanto, não é difícil pensar que teria sido ainda mais prazeroso acompanha-las se a conhecêssemos mais do que é apresentado. Apesar da linda jornada, após o final do filme já não conseguia me recordar qual o nome das protagonistas. 

O ponto alto do longa fica de fato para suas questões políticas. Toda a trama é desenvolvida somente porque Veronica não pode fazer o aborto em sua cidade, e muito menos sem a autorização de seus pais. Apesar de serem poucos os momentos que o filme ultrapassa o clichê de outros longas comig of age, os momentos onde o aborto é discutido de fato se destacam. Em um desabafo após perder um trem, Veronica se pergunta o porquê que ela está passando por essa situação, sendo que, a priori, uma simples lei mudaria tudo isso. O filme utiliza a jovem para falar em nome de várias adolescentes que passam pelo mesmo. Mas como um bom filme de comédia adolescente, tudo dá certo no final, o que não é a realidade de muitas. 

A cena na qual Veronica ouve todo o procedimento no qual será submetida, e juntos, vivemos a experiência com ela em sua imaginação, é de fato o momento de brilho do longa. Acolhimento e instruções que deveriam existir em todos os lugares, garantindo a saúde e vida da mulher. A sensação de tranquilidade, conforto e segurança passada no olhar da protagonista é um acalento em nós que acompanhamos durante todo esse tempo a ansiedade e agonia da jovem que sentia estar carregando um peso. O alívio demonstrado no sorriso de Veronica e uma outra mulher após ambos os procedimentos é o olhar que gostaríamos de ver no mundo real, mulheres que possuem um suporte para poder realizar tal procedimento, saindo viva e feliz para dar continuidade a sua vida. 

Unpregnant é um longa divertido e conscientemente político que soa extremamente intimista. Entretanto o filme possui um início frenético que pesa para o mesmo, sem conhecer nossas protagonistas as acompanhamos por curiosidade e não necessariamente por vontade de segui-las. Haley Lu Richardson interpreta uma personagem típica e clichê que não aparenta ser mais do que aquilo que vai fazer, uma ampla exploração da personagem poderia ter mudado isso. Enquanto Barbie Ferreira vive uma e-girl punk mais diferente e divertida que a sua Kat de Euphoria. A conexão das duas pode não ser das melhores (como em Quase 18, Lady Bird, Fora de Série) mas seu objetivo transcende todo o resto. 

UNPREGNANT
3

RESUMO

Nova comédia com Haley Lu Richardson e Barbie Ferreira decepciona por ter potencial, mas somente seu tema se destaca.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.