Crítica | ‘O Que Ficou Para Trás’ une terror, crítica social e originalidade

Seus fantasmas te seguem” é uma das frases mais impactantes do novo filme da Netflix His House – ou O Que Ficou Para Trás. Quando pensamos em terror no cinema, certamente uma série de filmes vêm à mente. A maioria muito semelhante entre si, com códigos parecidos. No entanto, é possível observar uma onda no gênero – o que tem sido chamado de pós-terror – que assume novos meios de representação. O nome de Jordan Peele é um destaque nesta tendência com os aclamados e geniais Corra! e Nós. Com certeza, o estreante diretor Remi Weekes o referencia, mas sem perder jamais a originalidade. 

A chave para entender este longa é a crítica social, pois esta é utilizada para alavancar o horror na trama. Mesmo assim, as reflexões propostas são feitas de forma bastante orgânica, sem parecerem forçadas ou encenadas demais. Bol (Sope Dirisu) e Rial (Wunmi Mosaku) foram resgatados de um naufrágio durante a travessia entre o Sudão do Sul e a Inglaterra. Quando na Europa, precisam lidar com a necessidade de adaptação em uma nova cultura, preconceitos e a dor da perda da jovem Nyagak (Malaika Wakoli-Abigaba). Após sair do centro de refugiados, o casal vai para uma casa cedida pelo governo enquanto sua situação legal é analisada. 

Uma grande sacada da obra é que os ingredientes recorrentes a filmes de terror estão aqui, mas tudo adquire simbologias diferentes e outras perspectivas. Um dos principais elementos utilizados é o da casa mal assombrada. Sombras, barulhos atrás da parede, aparição de entidades. Está tudo aí. Mas para nossos olhos viciados em produções “americanizadas” – e “europeizadas”, “ocidentalizadas” – em que as histórias parecem todas as mesmas – mesmos rostos, enredos, demônios, soluções, crenças – O Que Ficou Para Trás é uma grata surpresa. 

Há várias sequências bem assustadoras e que glorificam o gênero com alusões a zumbis, ao gore e até ao trash. O clima de tensão é extremamente bem construído, inclusive em cenas não explícitas de terror, como a que Rial caminha na vizinhança para chegar ao médico e as ruas parecem um labirinto. Há também quadros belíssimos que retratam as ilusões dos personagens, como a que eles estão jantando e a câmera vai se afastando e vemos o mar atrás da parede da casa. 

Todos temos traumas e cicatrizes do passado e, às vezes, do presente. Estes nos acompanham e, se permitirmos, nos assombram. Os protagonistas de O Que Ficou Para Trás, ao chegarem em um país desconhecido, precisam apagar suas próprias culturas e identidades para serem aceitos como cidadãos britânicos. Essa desconstrução – essa obrigatoriedade em se desconhecer – constitui um fato mais pesado e assustador do que o terror visível do filme. Os fantasmas nunca desaparecem. A escolha é entre deixá-los ficar ou fazer as pazes com as nossas memórias. 

O QUE FICOU PARA TRÁS | HIS HOUSE
5

RESUMO

O Que Ficou Para Trás alinha terror à crítica social em uma obra incrível.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"