Análise | A Terra é Plana: os terraplanistas e a massificação de um delírio

Com spoilers de A Terra é Plana (Behind the Curve), disponível na Netflix

O Futuro de uma Ilusão

Há alguns anos, um estranho movimento intelectual tomou proporções enormes, composto por milhões de seguidores atualmente. Essas pessoas acreditam que a Terra não é redonda, mas sim chata como uma chapa. O documentário A Terra é Plana (2018), dirigido por Daniel J. Clark, trata justamente desse grupo peculiar que reivindica o fato indiscutível do nosso planeta ser uma esfera.

O documentário inicia com a saga de Mark Sargent, um leitor assíduo de teorias da conspiração, sobre o começo do movimento do terraplanismo e a sua proliferação pelos Estados Unidos e restante do mundo. Ele não foi o criador da bizarra teoria, mas foi um dos principais propagadores da ideia.

Mark busca justificar a tese do terraplanismo com argumentos simplistas e sem nenhum embasamento científico. Segundo ele, a partir de sua casa é possível avistar Seattle que está há dezenas de quilômetros. Se a Terra fosse redonda, seria possível perceber uma curvatura entre esses dois pontos. Para ele, o planeta é uma chapa coberto por uma cúpula. O líder do movimento ainda afirma que existe uma conspiração da NASA em omitir o terraplanismo.

Depois de Mark realizar uma série de vídeos com supostos argumentos sobre a Terra ser plana, aos poucos o movimento foi ganhando força. As discussões não se limitaram a isso, alguns questionam até mesmo o modelo heliocêntrico, a idade da Terra, a evolução do homem a partir das espécies de hominídeos e a existência dos dinossauros!

Mais do que uma ideia, o terraplanismo se tornou um dogma, apesar deles considerarem um paradigma. O que culminou em um estilo de vida para essas pessoas, envolvendo objetos de decoração, alterações nas chapas dos carros e um site de relacionamento destinado exclusivamente aos envolvidos do movimento. Enfim, um grande delírio coletivo com uma identidade própria.

Uma teoria interessante explorada no A Terra é Plana é o chamado Efeito Dunning-Kruger. Segundo os especialistas, esse efeito é caracterizado por uma sensação psicológica ilusória em ter um conhecimento profundo sobre algo, sem ter estudado adequadamente. Como se tudo o que acreditam saber, fosse o suficiente e nunca precisasse ser questionado. É um poder enganoso de uma opinião ter uma validação maior do que uma teoria científica.

Os terraplanistas tentaram de muitas formas provar a sua crença inconcebível, para se juntar a essa turma, ainda surgiram os caça-globo. Para eles, a Terra além de ser chapada, está parada, pois não conseguimos sentir o seu movimento. Infelizmente, eles não compreenderam o princípio da primeira lei de Newton, a da inércia. Segundo o físico, um objeto em movimento uniforme constante sem qualquer tipo de alteração de sua velocidade, permanecerá em inércia. Justamente, como a Terra percorre a sua órbita sem qualquer tipo de alteração, é impossível perceber o seu movimento estando nela sem o auxílio de aparelhos tecnológicos.

No decorrer de A Terra é Plana, alguns experimentos foram realizados pelos terraplanistas. Apesar de todos terem fracassados, eles continuam insistindo em provar essa tese estapafúrdia. Talvez um agravante importante, seja o distanciamento da academia e da ciência em relação ao senso comum. Um dos grandes motores desse grupo, é justamente as teorias da conspiração sobre fatos dos quais não conseguem compreender. Não foi à toa que uma das instituições mais atacadas por eles é a NASA. A complexidade das teorias e do vocabulário da comunidade cientifica se tornou inacessível ao senso comum.

Por outro lado, se a maior virtude da Ciência é a capacidade de renovação e crítica das próprias teorias, o que também pode ser um problema. Muitas pessoas sem o conhecimento prévio necessário, se sentem no direito de questionar teorias apenas com o próprio repertório deficitário. A comunidade terraplanista não foge disso, por não compreenderem as leis da física, teorias astronômicas e astrofísicas, acreditam poder discordar da ciência. Além da ignorância há uma forte influência ideológica e religiosa em seus questionamentos. Curiosamente, segundo eles, somente a Terra seria chapada e os outros planetas seriam esféricos. O que faz com que a Terra tenha uma aura divina e diferenciada dos demais.

Mark K. Sargent em “A Terra é Plana”

Massificação, alienação e fake news

É importante ressaltar os mecanismos psicológicos presentes no grupo mostrado em A Terra é Plana, começando pelo principal divulgador da ideia. É nítido como Mark Sargent se envaidece quando é elogiado e condecorado pelos outros terraplanistas. Mark, antes de se envolver com esse movimento, era um sujeito comum, restringido a sua insignificância. Alguns anos depois, se tornou uma celebridade. Em muitos depoimentos, os membros do grupo o exaltam e dizem que ele mudou as suas vidas com uma nova forma de enxergar o mundo. Mark se colocou em um lugar de desbravador, como se tivesse se tornado um Copérnico, mas no extremo oposto.

Ser um membro dessa comunidade pode trazer um sentimento de superioridade e pertencimento. Afinal, seria a luta de poucos contra muitos, a favor de uma “verdade” ocultada pelas instituições científicas. O terraplanismo pode ser sedutor, devido a sua simplicidade e ausência de métodos científicos complexos para provar seus argumentos. Esse movimento já tomou uma proporção tão elevada que pode ser considerado como um movimento de massa. A partir da figura de um líder, investe-se afeto nele e na sua ideia para receber em troca, o sentimento de pertencimento, em fazer parte de algo maior do que o próprio sujeito. Mecanismo psicológico presente também nas torcidas de futebol, seitas religiosas, manifestações políticas, entre outros.

A experiência da massa, pode ser uma das grandes maneiras de reviver o sentimento oceânico, presente nos primórdios do desenvolvimento psicológico. Esse sentimento é caracterizado pela ausência de limites entre o eu e o não-eu, como se não houvesse uma discriminação entre o sujeito e os objetos externos a ele. O sentimento oceânico é uma defesa frente ao desamparo fundamental, pois logo ao nascermos, nos deparamos com as ameaças do ambiente e a angústia de aniquilamento. Portanto, os movimentos de massa, correspondem à alienações. Ainda que se embasem em ideologias, religião ou mesmo em ideias científicas ou pseudocientíficas; há um impulso inconsciente em fazer parte de uma massa e se alienar no sentimento oceânico.

Em A Terra é Plana é mostrado o papel fundamental da internet em propagar as ideias de Mark, a partir de seus vários vídeos e do apoio que foi recebendo de outros internautas. Na contemporaneidade, vive-se um momento muito particular da História da Humanidade. No decorrer do desenvolvimento social, adquiriu-se um grande conhecimento e a liberdade em questionar uma série de preceitos, como a religião.

A existência deixou de ser tão restrita às normas e os valores foram flexibilizados, principalmente no que se refere aos comportamentos sexuais, éticos, religiosos, estéticos, estilo de vida, etc. Nos últimos séculos construiu-se a possibilidade dos sujeitos poderem escolher as suas próprias “verdades” e crenças, sem tanta intromissão do Estado ou da Igreja. Entretanto, houve o efeito colateral das pessoas criarem as suas próprias ilusões e negarem os fatos e até mesmo as comprovações científicas. O surgimento das fake news (notícias falsas) talvez tenha sido possível, devido a essas mudanças conceituais e perda de noção dos fatos, já que quase tudo pode ser questionado.

A questão mais importante do fenômeno das fake news, além da distorção perversa dos fatos, é a capacidade de se propagarem pela internet sem que uma grande massa perceba a falta de veracidade das notícias. Em muitos casos, ocorre a circulação de notícias antagônicas e muitos leitores não percebem a contradição. Apesar de muitas manchetes serem perceptivelmente surreais, um número grande de pessoas as transmitem em suas redes sociais, sem ter o cuidado de verificar a fonte de tais informações.

A liberdade conquistada na contemporaneidade, parece ter nos oferecido a possibilidade de escolher em quais fatos queremos acreditar. O contexto político é um ótimo exemplo disso. Os eleitores investem um apoio incondicional nos políticos de um certo posicionamento ideológico e demonizam os que pensam em outra perspectiva. Consequentemente perdem a referência e a crítica de seus próprios candidatos.

Como mostrado em A Terra é Plana, no caso dos terraplanistas, o fenômeno se repete da mesma forma. Desde a Antiguidade, pensadores gregos já reuniam fortes argumentos demonstrando que a Terra é esférica. Com o desenvolvimento da ciência isso se tornou ainda mais sólido. Mas para esse errante movimento, eles creem poder questionar esse fato. Por uma necessidade narcísica e infantil, se esforçam em provar que são o centro do Universo e assim negar a própria insignificância.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.