Artigo | O final de ‘Supernatural’, uma das mais duradouras e geeks séries de todos os tempos

“A estrada até aqui” foi longa e repleta de altos e baixos, mas como tudo que tem um início precisa de um final, chega ao fim, após quinze anos, a série Supernatural, ícone da Cultura Pop.

Quando a jornada começou, possuía como sinopse a proposta de acompanhar os irmãos Sam (Jared Padalecki) e Dean Winchester (Jensen Ackles), enquanto eles procuravam por seu pai, John Winchester (Jeffrey Dean Morgan), que estava caçando o demônio que matou sua esposa (mãe dos meninos) e a namorada de Sam. Para isso, eles utilizavam o diário de seu pai, com registros de suas caçadas, para continuar o “negócio da família”, salvar pessoas e caçar criaturas sobrenaturais.

É natural que uma série com quinze temporadas se mantenha regularmente reinventando-se, mudando seus conceitos e ampliando seu universo e não foi diferente com Supernatural. Aliás, se houve um elemento constante nessa série, foram as constantes mudanças. Falaremos a seguir, um pouco sobre essa jornada, passando por todas as temporadas, ou seja, já fica o aviso de que haverão spoilers!

Público avisado, falaremos agora um pouco sobre cada temporada e suas características, lembrando de que cada uma delas foi extremamente diferente da outra. Se houvesse uma comparação entre a quinta temporada com a primeira, provavelmente, haveria quem dissesse que se tratam de duas series diferentes.

A série produzida pela Warner e que posteriormente passou a ser exibida pela CW, teve sua primeira temporada criada pelo showrunner Eric Kripke (responsável também pelas temporadas seguintes, até a quinta). A primeira possuía uma aparência de filmes de terror, com uma fotografia escura e histórias horripilantes, mas contendo, claro, o alívio cômico que era evidenciado pela química dos dois atores principais. A proposta na época era fazer com que os garotos viajassem pelos Estados Unidos, com seu icônico Chevy Impala 1967, enfrentando fantasmas, wendigos, demônios e outros elementos do folclore norte-americano, ao mesmo tempo em que coletavam pistas sobre seu pai e mentor desaparecido, John Winchester, e sobre o Demônio de Olhos Amarelos, responsável pelos traumas dos garotos e o que os motivou a viver essa dura vida como caçadores.

A segunda temporada já veio com uma proposta um pouco diferente. Após desmitificar o mito chamado John, os mistérios agora rondavam o Demônio dos Olhos Amarelos Azazel (Fredric Lehne) e sua ligação com Sam (assim como seus poderes sobrenaturais), levando a uma batalha épica contra o vilão e um terrível sacrifício de Dean.

Após a conclusão do primeiro ciclo da história (a batalha contra aquele que foi o responsável por sua missão), os irmãos Winchesters precisam arrumar um meio de livrar Dean de uma terrível maldição por causa do trato realizado por ele mesmo, para salvar Sam. O final da terceira temporada é sem dúvidas, um dos mais sombrios da série inteira.

Enfim o público foi contemplado com a chegada da quarta temporada, que mudou bastante suas diretrizes. Ao invés das sangrentas e assustadoras histórias de lutas contra monstros perversos e demônios (os principais vilões), a série mostrou o outro lado, o lado do bem (pelo menos temporariamente), apresentando os párias dos demônios, introduzindo uma raça até então nunca vista pelos caçadores, os anjos, e foi graças a essa nova ramificação da história, que conhecemos o anjo icônico e carismático Castiel (Misha Collins).

Após os eventos da quarta temporada, somos apresentados ao apocalipse, graças ao surgimento de Lúcifer (Mark Pellegrino), cuja performance do ator, o consagrou como um dos mais memoráveis Lúciferes da ficção. Os objetivos de Kripke consistiam em finalizar a série nesta temporada, colocando os heróis para enfrentar o vilão maior, a encarnação do mal, relegando aos personagens um final épico e repleto de lágrimas. Mas não era isso que os estúdios pretendiam e dessa forma, mais temporadas começaram a ser produzidas, sem Kripke e trocando constantemente de showrunners.

Swan Song, o episódio final da 5ª temporada de “Supernatural”

A partir daí, realmente o nível da série começou a cair, já que depois do apocalipse não havia mais uma ameaça que realmente fizesse o público se importar de verdade com a história. Mesmo assim, a série apostou no carisma de seus personagens, na riqueza de seu universo e em um fator que foi decisivo para o sucesso de mais dez temporadas, os fan services.

Sim, Supernatural, a série de terror que explorava o lado sombrio das lendas folclóricas norte-americanas, passou a ouvir os pedidos do público e com isso, continuaram mantendo o motor funcionando, mesmo que não com o mesmo gás que havia antes.  Essas outras dez temporadas tiveram altos e baixos, mas apesar nem sempre manter seus números em relação a público e nem sempre receber bons comentários da crítica, continuou presente nos eventos geeks e no imaginário do público, absorvendo para seus episódios, lendas mitológicas de origens diversas e até mesmo a própria cultura pop, fazendo homenagens a séries como Arquivo-X e até a Scooby-Doo. Houve até um episódio bastante polêmico, que mostrava os irmãos Winchesters vindo para o mundo real, onde suas histórias realmente acontecem em uma série de TV e eles são apenas atores, interpretando seus papéis.

Graças às suas ideias mirabolantes, Supernatural se manteve relevante mesmo quando parecia que os realizadores não sabiam mais o que estavam fazendo e mesmo assim, sempre tiraram boas cartas da manga, mantendo o amor que o público sempre teve. Graças a série, muitos personagens serão lembrados por muitos anos, bem como os conceitos que Supernatural inventou, como por exemplo, os demônios, fantasmas, wendigos, leviatãs, anjos que se tornam deuses, universos paralelos, ceifadores, bruxas, deuses pagãos, arcanjos, djins, nephilins, entidades cósmicas, metamorfos, vampiros e lobisomens e os rituais necessários para matar essas criaturas.  Bem como personagens secundários marcantes, como Bobby, Mary Winchester, Crowley, Jo, Ellen, Kevin, Chucky, Michael, Charlie, Eyleen, Rowena, Lilith, Meg e vários outros.

Interessante ressaltar, que a química que víamos na tela, era resultado da ligação dos atores na vida real. Os personagens principais, destacando os atores Jensen Ackles e Jared Padalecki, eram amigos na vida real (chegando até a morar juntos por um tempo e sendo padrinhos de casamento um do outro).

Supernatural vai deixar saudade das leituras de Sam a procura de uma forma de deter monstros específicos, às gulodices de Dean e sua propensão à luxúria, mas também aos momentos emocionante entre os irmãos, às cenas épicas, aos vilões que realmente davam medo nos expectadores e aos personagens carismáticos que ganhavam a telinha.

Supernatural também vai deixar saudade nas Comic-Cons e também aos stands dos eventos geeks, onde Ackles, Padalecki, Collins e companhia arrancavam risadas e deixavam o público em êxtase.

O inusitado episódio ScoobyNatural, da 13ª temporada

Mas, enfim, a última temporada,  teve um arco final digno?

Pra ser sincero, mais ou menos.

O final da série é até bem amarrado, com uma temporada sendo dedicada aos atos maléficos de Chucky, o Deus de Supernatural. De fato, vários eventos são marcantes nos episódios finais, com os já manjados sacrifícios e monólogos emocionantes de personagens específicos. A forma de deter o vilão final, conta mais uma vez com os planos mirabolantes dos protagonistas, mas… é só isso.

O final da quinta temporada, desde a preparação dos episódios anteriores, ao clima estabelecido, tanto no quesitos ação, ameaça dos vilões e emoção entre os personagens principais, ganham de lavada deste novo final. De fato, o expectador raiz, que acompanhou todos os episódios fielmente, merecia talvez, um final mais emocionante. Um vilão que parecesse mais ameaçador. No final da quinta temporada, até a edição e a trilha sonora emocionaram mais. Foi um final interessante, mas faltou coração. Não basta apenas mostrar cenas das temporadas passadas de Supernatural, mas faltou aquele algo mais que fez a série ser tão amada. Faltou mais dos Winchesters, uma vez que a batalha final teve pouco envolvimento deles, algo extremamente diferente do que nas temporadas passadas, que mesmo eles sendo humanos, interagindo num mundo de seres muito mais poderosos, sempre arrumavam um jeito de deter os vilões com as próprias mãos. Mesmo assim, foi um final acertado.

O último episódio não possui vilões épicos (até possui vilões, mas são bem comuns), nem batalhas épicas ou um final épico, diga-se de passagem. Para quem acompanhou todas as temporadas, pode parecer até um desfecho bem chocho. É emocionante, mas bem chocho. Porém, ainda assim, é um encerramento bastante condizente com os eventos finais da série, uma vez que depois que descobrimos que as aventuras épicas dos heróis vinham dos devaneios megalomaníacos da mente de Chucky, agora que ele não está mais no poder, faz sentido que os heróis tenham um final bastante calmo e sem as tramas insanas de sempre.

De qualquer forma, para os fãs, resta revisitar a série sempre que bater saudade, assistindo novamente os seus episódios preferidos. Quanto aos nossos caçadores preferidos, onde quer que eles estejam, nos resta apenas desejar que eles estejam com suas pistolas carregadas com balas de prata, suas facas e punhais afiados, um par de cervejas geladas e com o motor do Impala sempre roncando.

Boa caçada, Winchesters!

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...