Crítica | Sensível, ‘Babenco’ é uma carta de amor ao diretor e ao cinema

Em 2015 estreava o filme Meu Amigo Hindu, último longa do diretor e roteirista argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco. No filme, o cineasta Diego (Willem Dafoe) sofre de um câncer terminal. Após ser internado em um hospital, ele divide o quarto com um menino hindu, com quem faz amizade. Durante o longa, Diego conversa com a morte (interpretada por Selton Mello), com quem passa a ter grandes devaneios enquanto reflete sobre a sua morte ainda em vida.

O documentário  autobiográfico que estreou essa semana retrata a história de Babenco, diagnosticado com seu primeiro câncer aos 38 anos logo após as filmagens de  O Beijo da Mulher-Aranha (1985), grande sucesso internacional protagonizado por John HurtRaúl Juliá e Sonia Braga que lhe rendeu indicação ao Oscar de Melhor Diretor. Babenco morreu em julho de 2016, entretanto, antes de falecer, conviveu com a ideia da morte durante anos a fio.

Na busca inalcançável pela obra de sua vida, o maior medo do diretor era ir sem deixar sua marca registrada, pois medo da morte não tinha, mas sim do esquecimento. Apaixonado pela arte cinematográfica, desde muito cedo Babenco sabia que não queria seguir ordens nem ter patrões, trilhando sua carreira com estes princípios, o cinema abriu portas para uma vida onde a sua criatividade seria o seu único líder. Em Babenco – Alguém Precisa Ouvir o Coração e Dizer: Parou, sua companheira em vida, a atriz e diretora Bárbara Paz, transforma o trabalho e paixão de Babenco pela sétima arte em uma homenagem à vida do diretor. 

Escolhido como representante do Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2021, o filme o primeiro documentário a representar o país na categoria e somente o terceiro filme dirigido por uma mulher a ser submetido pelo Brasil. O longa acompanha a jornada de um Babenco, já acometido pela doença em seus últimos anos de vida. Com momentos pessoais do diretor em casa, o artista ensina a esposa Bárbara Paz a conduzir a câmera, modificando o zoom e aprendendo a diferença de um plano aberto para um plano fechado com o rosto do marido em foco. O diretor passa assim o bastão a Bárbara, aquela que irá nos conduzir agora no cinema. 

O documentário apresenta cenas dos grandes filmes de Babenco que marcaram não somente sua trajetória como artista, mas também a história do cinema. Com obras como Pixote (1980), O Beijo da Mulher-Aranha (1985) e Carandiru (2003), Babenco se desdobrou sobre os homens que vivem em vulnerabilidade social ao estarem reclusos da sociedade. As semelhanças entre o recorte de cada longa ficam ainda mais em evidência quando costurados com o contexto documental explorado por Paz, que no filme deseja fazer uma homenagem ao marido a altura do que ele fez em vida. 

Apesar de ser um filme sobre e para Babenco, de forma poética, Paz nos leva em uma jornada através de suas próprias memórias ao lado do diretor. Com a câmera na mão, registra os momentos mais pessoais do artista que passa por um processo de degradação devido à doença. Os momentos de vulnerabilidade são contrapostos com momentos ainda mais pessoais vividos por Babenco, aqueles que ele vivenciou em atividade durante sua carreira. Com cenas de bastidores que tocam na memória de qualquer pessoa familiarizada com o trabalho de Babenco, é difícil não se emocionar ao ver como o diretor de comportava no set. 

O documentário não é um estudo detalhado do que foi a vida de Babenco desde a infância até a sua morte, entretanto temos a oportunidade de presenciar raros vídeos do diretor no início de sua carreira que compartilha com a câmera um pouco de sua vida. Além disso há também o uso dos bastidores que recordam as filmagens de Carandiru, Pixote, Meu Amigo Hindu, Brincando nos Campos do Senhor (1991) e Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977). Preso, exilado, diagnosticado com câncer e entre idas e vindas do hospital, Babenco não deixou que nada o parasse, vivendo com o simples objetivo de fazer filmes cada vez mais significantes para o mesmo. 

Babenco: Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer Parou (2019)

Através de uma delicada abordagem, Paz utiliza a fotografia preto e branco para que possamos mergulhar em suas memórias e passado com Babenco. A aprendiz do diretor recordou os momentos mais difíceis que viveram, ressignificando com o uso da câmera todo o período de sofrimento que viveram nos hospitais em enfrentamento ao câncer. O que recorda o próprio cinema do diretor já que Babenco também ressignificou através do cinema os âmbitos que enfrentou na vida. Sensível, a forma lírica como a diretora conduz o filme, entra em choque com a robusta figura de Babenco, que intimida com o olhar, mas que sensibiliza com sua arte.  

Não é comum ter acesso a intimidade de artistas que só costumam aparecer por trás das câmeras. E enquanto Babenco abordava fortes assuntos sem poupar o público das mazelas da sociedade, aqui podemos vê-lo sereno e em paz com a convicção da doença que possui e de suas consequências, seguindo um dia de cada vez para que ainda seja possível estar aqui no amanhã. No enorme medo de ser esquecido, Paz utiliza as sensíveis falas do marido que conseguiu registrar, transformando seus depoimentos em verdadeiras cenas de cinema, contando com a presença ilustre de grandes atores do cinema nacional que fizeram parte da vida de Babenco. 

Emocionante, sensível e belo, Babenco – Alguém Precisa Ouvir o Coração e Dizer: Parou é feito para quem ama cinema, sobre alguém que amou tanto o cinema a ponto de fazê-lo até quando não tinha condições. Em sua homenagem a Babenco, Paz homenageia também tudo o que sua arte significa para a história, tocando em pontos pessoais, mas em pontos amplamente sociais. Produzido por Willem Dafoe e Petra Costa, a melancolia de Paz remete o cinema de Petra, entretanto, aqui a diretora não apela tanto ao dispensar o uso da narração e deixar que a história se conte somente através da linguagem cinematográfica.  

Somente um documentário foi indicado na categoria de Melhor Filme Internacional nesses 93 anos de Oscar, Honeyland (2019) representando a Macedônia, também indicado na categoria de Melhor Documentário. Entretanto, apesar dos obstáculos, ser representado por Babenco é acima de tudo lembrar que ele vive, vive em sua arte a qual se dedicou anos a fio, vive na memória daqueles com quem conviveu e também do público que o conheceu através do cinema. Paz, que venceu o prêmio de Melhor Documentário no Festival de Veneza 2019, homenageia não somente o grande artista brasileiro, mas também o homem com quem conviveu durante anos de sua vida. Mesmo que não sejamos indicados, estamos sendo tão bem representados quanto fomos no passado com os grandes filmes de Hector Babenco.

BABENCO - ALGUÉM PRECISA OUVIR O CORAÇÃO E DIZER: PAROU
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RESUMO

O delicado e melancólico Babenco – Alguém Precisa Ouvir o Coração e Dizer: Parou é o primeiro documentário a representar o Brasil no Oscar.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.