Mostra de SP 2020 | ‘Shirley’ explora as mulheres apagadas pela sociedade em thriller dramático – Crítica

Na 42ª Mostra de SP foi exibido o drama A Madeline de Madeline (2018). Escrito e dirigido por Josephine Decker, o drama teatral explorou as potências de Madeleine (Helena Howard), uma jovem atriz, que, guiada por uma protetora mãe em casa e por uma exigente professora no teatro, precisa encontrar o equilíbrio de sua personagem, uma versão de si mesma. Apresentando as limitações, e explorando as grandezas de Madeline, Josephine Decker repete o seu feito em Shirley 

Exibido na Mostra de SP 2020, em Shirley, Shirley Jackson (Elisabeth Moss) é uma escritora de contos de suspense casada com Stanley Hyman (Michael Stuhlbarg), um renomado professor da Bennington College. Os dois decidem abrigar em sua casa um casal de jovens estudantes (Odessa Young e Logan Lerman) por um período. Shirley encontra nessa rotina peculiar a inspiração que precisava para sua mais nova obra. O filme, exibido no Festival de  Sundance, venceu o Prêmio Especial do Júri de Auteur Filmmaking para a cineasta.

Intrigada pelo caso de uma jovem estudante desaparecida, com a ajuda da jovem esposa do novo pupilo de Stanley, Shirley abre suas asas para alcançar novos voos. Diferente de um conto, a mulher decide agora fazer um romance sobre o misterioso caso da estudante. O roteiro do filme é de Sarah Gubbins, baseado no romance de mesmo nome de Susan Scarf Merrell, que criou uma ficção em torno da real romancista Shirley Jackson. 

Autora de seis romances, dois livros de memórias e vários contos, Jackson ficou notoriamente conhecida após a publicação do seu conto A Loteria (The Lottery), que detalha um submundo secreto e sinistro de um bucólico povoado americano. Em 1959, ela publicou A Maldição da Residência Hill, livro que foi adaptado pela Netflix, criando a primeira temporada da série de televisão antológica de terror sobrenatural americana The Haunting, dirigida por Mike Flanagan. 

Interpretados por Odessa Young e Logan Lerman, o jovem casal irá passar uns tempos na casa do professor para que Fred Nemser (Lerman) possa desenvolver sua carreira acadêmica ao lado de seu mestre, enquanto a jovem grávida Grace (Young) irá ajudar nos afazeres domésticos, um pedido de Stanley já que a última diarista não durou muito tempo na casa. Com o forte temperamento de Shirley, conviver com a talentosa artista não é fácil, mas é justamente nesse processo, que Shirley e Grace irão explorar o aspecto de serem mulheres, esposas e artistas no século passado. 

O filme utiliza uma tênue linha entre o drama e o suspense para abordar as três histórias que se propõe: a história da escrita de Shirley, o desaparecimento da estudante e a história da jovem Grace. De forma satisfatória, o filme cruza os três enredos que apresentam mulheres que se perderam em sua jornada através da solidão. Cada uma delas, confiando em um homem para que pudessem ter o poder de elevar suas potencias, mas foram cada vez mais apagadas. 

Com uma fotografia marcante de Sturla Brandth GrøvlenSturla diferencia as cenas criadas no imaginário de Shirley acerca da inspiração de sua história que possuem uma turva imagem, mas se diverte com as cenas que captura no dia a dia da autora. Enquanto isso, Decker, pontua seus anseios, medos, divertimento, tudo com sua ousada direção destacando as paixões através de uma câmera lenta, mas os perigos eminentes através de uma câmera confusa. O drama desconfia de todos os personagens que possui, mesmo aqueles que acompanhamos. E é esse um de seus charmes, com personagens interessantes que apresentam um aprofundamento apesar dos aspectos clichês, Shirley se desdobra sobre eles fazendo assim com que acompanhemos suas transformações em cena. 

Mentalmente instável, a autora vive seus dias dentro de casa e apesar da forte personalidade, obedece com facilidade os pedidos do marido, mesmo contra sua vontade. O filme aborda de forma clara e certeira o que era esperado de uma mulher entre a década de 50 e 60, principalmente daquelas casadas. Com uma série de normas a seguir, as mulheres, as vezes poderiam se dedicar e fazer o que gostavam, desde que isso não afetasse ou sobressaísse o trabalho de seu marido. Entretanto, apesar da óbvia crítica, o filme não se centra somente nisso. 

Com Shirley escrevendo um conto de terror, o filme se desdobra em apresentar a relação de cumplicidade e apoio que ela e Grace criam durante o filme, uma sendo o braço direito da outra, enquanto precisam seguir com a norma estabelecida. Apesar de ser possível se rebelar contra o sistema de dona de casa, que é inclusive abraçado por Shirley, seus dias se tornaram 24 infinitas horas dentro de casa. Ambas abriram mão de suas carreiras e produções para que seus maridos pudessem decolar na área, e através da intima câmera de Decker, é perceptível os únicos lugares nos quais elas possuem liberdade, a cozinha e um dos cômodos que se tornou um escritório.   

Shirley é um poderoso drama, que com características de thriller, utiliza as fortes performances para espelhar as mulheres do século passado que apesar de possuírem grandes atributos para além dos cuidados domésticos, se tornaram garotas comuns devido ao machismo da época, fazendo com que sua verdadeira essência fosse camuflada até serem completamente esquecidas. Elisabeth Moss e Odessa Young possuem um incrível entrosamento e interpretações contrárias que se casam completamente quando em cena. Enquanto Moss é rígida e impulsiva, Young possui uma tranquila e amável personalidade, algo que não dura muito a partir do processo de fusão desenvolvido fantasticamente pelas duas. 

Acompanhe aqui a cobertura do Quarta Parede POP da Mostra de SP 2020

SHIRLEY
4

Summary

Elisabeth Moss vive a romancista que escreveu “A Maldição da Residência Hill”, livro que deu origem a série da Netflilx.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.