Mostra de SP 2020 | Jeremy Hersh questiona os aspectos morais de seus personagens e do público no poderoso ‘Mãe de Aluguel’ – Crítica

Em seu primeiro longa-metragem, o ambicioso Jeremy Hersh apresenta em Mãe de Aluguel (The Surrogate) um delicado drama que se propõe a discutir temas que a muito tempo são negligenciados pelo cinema. Através de um drama teatral Hersh nos apresenta Jess Harris (Jasmine Batchelor), uma jovem designer digital que decide virar mãe de aluguel de um casal de amigos gays. Entretanto, quando a gravidez não ocorre como planejado, os três amigos protagonizam grandes momentos de tensão. 

Jess Harris é uma web designer de 29 anos que trabalha em uma organização sem fins lucrativos no Brooklyn. Ela está em êxtase por ser a barriga de aluguel e doadora de óvulos de seu melhor amigo, Josh (Chris Perfetti) e o marido dele, Aaron (Sullivan Jones). Após 12 semanas de gravidez, um teste pré-natal retorna com resultados inesperados que representam um dilema moral. O filme pode ser visto na Mostra de SP 2020 até o dia 05 de novembro.

Com um tom de comédia independente do cinema americano, Mãe de Aluguel é muito diferente daquilo que aparenta. Colocando em foco a dualidade dos valores morais, o drama investiga de forma minuciosa os trâmites que rondam a decisão de ter um filho com Síndrome de Down. Após saber que seu filho possui 99% de chance de possui a síndrome, o casal questiona a decisão de ter esse filho, enquanto Jess questiona o porquê de não o ter. 

Enquanto a jovem influencia de todas as formas com que o casal aceite a ideia aos poucos, tornando-a parte do seu dia-a-dia através de encontros na associação de jovens com Síndrome de Down, livros sobre o assunto e contato com famílias que possuem essa realidade, o casal apresenta cada vez mais resistência e opinião contrária à da amiga. Assim, de forma intuitiva e natural, o filme explora com afinco o tema bem como os pontos de ambas as partes. 

De forma instigante, o filme provoca no público uma identidade moral com ambos os lados. Por mais que inicialmente trace um caminho que o telespectador tenda a tomar um dos lados para si, conforme o drama mostre a que veio, os argumentos vão se tornando cada vez mais sólidos e válidos, fazendo com que essa discussão não seja apenas algo de “lados”, mas sim de escolhas que, apesar de possuir seus poréns, também terá consequências não importa qual seja a escolha feita. 

Dividido em pequenos quadros, o filme se desdobra a partir da visão de Jess e nos locais que ela habita. Se dividindo entre o apartamento de seus amigos, seu trabalho, a associação, o apartamento de um antigo parceiro, a casa de sua irmã e cafeterias, o dia a dia de Jess conduz a trama. Sem uma estética que chame atenção, ou um design de produção que se destaque, o filme é um drama moderno que se potencializa a partir de seu roteiro. 

As grandes questões levantadas pelos protagonistas são abordadas e exploradas minunciosamente conforme Jess se aproxima de uma família com um filho que possui Síndrome de Down. Ao materializar a sua ideia, fica cada vez mais difícil para que a mesma mantenha a antiga relação de proximidade com seus amigos. Sábia, divertida e questionadora, Jess passa a ter princípios que até o momento não fazia parte de sua concreta realidade. Questionando sobre a acessibilidade ao redor de sua cidade, e a forma como a sociedade recebe pessoas com deficiência, o aspecto de pesquisa da moça adentra toda a sua realidade.

Apesar de possui um bom elenco em cena, há um grande destaque presente. Interpretada por Jasmine Batchelor, o destaque do filme, para além do roteiro que possui, vai para a sua protagonista. Interpretando sua personagem da forma mais humana possível, Jess possui a curiosidade de quem quer aprender para poder ser a sua melhor versão no futuro, mesmo que isso exija sacrifícios de sua parte. Como uma jovem mulher negra na sociedade, precisa enfrentar ainda seus pais que afirmam pensar em um futuro brilhante em uma carreira de sucesso para a mesma, dando continuidade ao que foi feito por sua mãe. 

Exibido no Festival SXSW Film, Mãe de Aluguel é uma poderosa estreia paranJeremy Hersh. Com um roteiro original e honesto, o drama desenvolve seus personagens enquanto instiga os próprios pensamentos de seu público. Dominado por uma grande performance de sua protagonista, Jasmine Batchelor, o filme possui poderosos diálogos e nuances que o cinema deveria explorar com mais frequência.  

Acompanhe aqui a cobertura do Quarta Parede POP da Mostra de SP 2020

MÃE DE ALUGUEL | THE SURROGATE
4

RESUMO

Drama do cinema independente americano, Mãe de Aluguel se destaca com o sútil e impactante roteiro e com a performance de sua protagonista.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.