Mostra de SP 2020 | Em ‘Filho de Boi’, Haroldo Borges retoma o circo e a infância através da ficção – Crítica

Filme de estreia do diretor de fotografia de Jonas e o Circo Sem Lona (2015), Haroldo Borges juntamente com Ernesto Molinero agora segue, através da ficção, os mesmos caminhos apresentados por Paula Gomes no documentário. Em Filho de Boi, um jovem sonhador que possui uma difícil relação com seu pai, deseja deixar sua cidade natal na qual sofre humilhações cotidianas dos meninos da região. Na tentativa de ir em busca de uma nova vida, o menino deposita a esperança de um novo futuro quando um circo chega à sua cidade atrás de um novo palhaço. A produção do coletivo Plano 3, um dos quinze filmes mais votados pelo público, está disponível na Mostra de SP 2020 até o dia 05 de novembro.

Filmado no nordeste brasileiro, a caatinga vira protagonista neste filme sertanejo onde João de 13 anos vive um conturbado relacionamento com o seu pai. O introspectivo jovem, apresenta seriedade aonde quer que vá e dificuldade em fazer amigos. Sofre com o fato de ser chamado de filho de Boi pelos garotos da cidade que zoam ele e seu pai após sua separação com a mãe de João. O jovem que só pensa em escapar da dura realidade que vive, passa a dividir os seus dias no trabalho braçal que exerce na roça, e as visitas ao circo. 

Com a paixão pelo circo despertada na tela, é a sua condução que ocorre por trás dela que encanta. O filme, conduzido por Haroldo Borges e Ernesto Molinero, é resultado de uma forte conexão com área que os artistas possuem. Em Jonas e o Circo Sem Lona (2015), também produzido pelo Plano 3, a equipe acompanha Jonas, um jovem de 13 anos que deseja ir embora com o circo, mas com a mãe contrária ao menino, torna-se cada vez mais difícil para ele, que decide então criar o seu próprio circo dentro de casa. O filme que explora a história de Jonas de forma documental possui forte influência em Filho de Boi, drama que possui João em sua trama central, Jonas Laborda e sua mãe, Wilma Macedo, atuando no elenco.

Os diretores exploram as minúcias que cerca todos os ambientes e personagens presentes na trama. Com uma câmera mais preocupara com os detalhes, do que com os seus personagens, poucas vezes conseguimos ver cada um dos personagens que acompanha João pois, Haroldo e Ernesto desejam nos adentrar no universo da trama, nos apresentando a cada pedaço de espaço, objetos e assim ressaltando a importância da representação lúdica do universo circense para nosso protagonista. 

Entretanto, no longa, o universo circense não é como aqueles grandes circos luxuosos e cheio de cores brilhantes. Em Filho de Boi, o circo, assim como seus protagonistas, está caindo aos pedaços. Com remendos e buracos, ele se mantém somente graças a perseverança de seus artistas, e do público que não deixa de prestigia-los. Com um ônibus sem portas e janelas, um carro com problema na bateria, tudo o que o circo possui apresenta algum defeito, mas não aos olhos de João. 

Para João o circo não seria somente a chance de fazer algo novo, mas principalmente uma chance de começar uma nova vida. Através de uma performance carregada de seriedade, mas também de ingenuidade, João Pedro Dias interpreta um João cansado da vida, mesmo com somente 13 anos de idade. Cansado da amargura e falta de afeto. Enquanto seu pai, interpretado por Luiz Carlos Vasconcelos, é exatamente um João mais velho, mas mais vivido e sábio, um filho de seu tempo e de sua terra. 

Ensaiando durante a noite para que seu pai não veja, João encontrou no circo o que acreditava não ter até então. Lá, cercados de amigos e de afeto, sua trajetória se cruza com a de vários outros com quem se identifica. Através de uma fotografia calorosa, guiada pelo sol quente do sertão e pelas noites frias da  região, Filho de Boi une a realidade ao lúdico de forma palpável dando espaço para que a fantasia se torne realidade. Aqui não vivemos em um mundo de sonhos pois o real urge. Com um elenco de não atores trabalhados pela diretora de elenco Fátima Toledo, responsável pela preparação dos atores em Cidade de Deus (2002), Filho de Boi possui um realístico e comovente elenco, entretanto, o destaque fica para João que transmite através do silêncio e do penetrante olhar todo o peso da vida que leva e insegurança que possui. 

Filho de Boi é um filme que retrata uma realidade ímpar através de uma narrativa sensível vivida por João. Representando milhares de jovens que adiaram seus sonhos pela urgência exigida pela realidade do agora, o drama caminha através das potências de existir e resistir nos espaços por mais doído e trabalhoso que seja. Sendo claro em sua mensagem, a sensibilidade do longa sertanejo é o seu maior destaque, alcançando em cada diálogo, cena e personagem a efetividade da urgência de ser.

Acompanhe aqui a cobertura do Quarta Parede POP da Mostra de SP 2020.

FILHO DE BOI
4

RESUMO

Sensível e realístico, Filho de Boi é um drama ambientado no sertão que se desdobra através das dúvidas de um inseguro jovem ao conhecer o circo.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.