Mostra de SP 2020 | ‘Sem Ressentimentos’ se apoia no romance para não se aprofundar nas próprias questões levantadas – Crítica

É comum encontrarmos em filmes LGBTQIA+ abordagens melancólicas, e até mesmo pessimistas sobre relacionamentos. A sensação deixada é que casais não-heterossexuais só conseguem ser abordados por meio de fins trágicos. Sem Ressentimentos (Futur Drei) tenta fugir um pouco dessa “tendência”, por mais que ainda busque tratar de assuntos bastante pesados em conjunto ao relacionamento. 

Aqui, seguimos a história de Parvis (Benny Radjaipour), que após ser pego roubando bebida em uma balada, se vê obrigado a cumprir horas de serviço comunitário em um abrigo de refugiados. Lá ele irá conhecer Amon (Eidin Jalali) e sua irmã Benafshe (Banafshe Hourmazdi), e a partir dessa amizade o filme expõe três realidades completamente diferentes ao mesmo tempo. Por mais que Amon e Benafshe sejam irmãos, as vivências e os problemas de cada um não são os mesmos, e o roteiro procura se aprofundar neles, trazendo os principais pontos reflexivos do filme. 

Ao tentar levantar esses pontos, o roteiro de Sem Ressentimentos se perde um pouco por possuir três assuntos diferentes que, talvez, merecessem um filme inteiro para serem abordados devidamente. Amon, por exemplo, por mais que seja o interesse romântico de Parvis, acaba ficando bastante apagado. Até mesmo Benafshe, que possui o maior arco do terceiro ato, não recebe a atenção que merecia, principalmente considerando a possibilidade de deportação que ela carrega durante todo o filme. 

O diretor, Faraz Shariat, se mostra mais preocupado com a identidade visual, deixando-o com aquele pop visual que filmes do gênero costumam ter. É impossível não apreciar a fotografia e a forma com que ele filma e desenvolve o relacionamento entre Parvis e Amon. Ele escolhe utilizar cenas contemplativas e sensuais para mostrar o interesse de um pelo outro, até chegar ao ápice que se inicia desde o primeiro beijo até a última cena. 

Sem Resentimentos é, acima de tudo, um filme para se sentir. O roteiro pode não se aprofundar da forma que deveria nas diferentes realidades que ele mesmo apresenta, mas consegue levantar uma importante discussão ao final da projeção. Ele oferece um frescor por não se deixar levar pela mesma fórmula trágica do gênero, e ainda nos faz acompanhar uma diferente realidade e ambientação que a comunidade LGBTQIA+ enfrenta. 

Acompanhe aqui a cobertura do Quarta Parede POP da Mostra de SP 2020

SEM RESSENTIMENTOS | FUTUR DREI
3.5

RESUMO

Sem Ressentimentos traz um certo frescor, mas não se aprofunda devidamente nas próprias questões levantadas.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.