Mostra de SP 2020 | ‘O Despertar de Fanny Lye’ é um excitante drama que questiona sua época – Crítica

Responsável pela produção, direção, roteiro, montagem e trilha sonora, Thomas Clay deve se orgulhar ao ser o responsável pela maioria dos aspectos inseridos em O Despertar de Fanny Lye (Fanny Lye Deliver’d)Em uma fazenda inglesa isolada em 1657, Fanny (Maxine Peake) vive uma vida tranquila com seu opressor marido John (Charles Dance) e seu filho pequeno (Zak Adams). Um dia sua vida é abalada com a chegada do jovem casal Thomas (Freddie Fox) e Rebecca (Tanya Reynolds) que afirmam ter sido roubados e precisam de um lugar para ficar. Mas esses estranhos são realmente quem dizem ser? O filme está disponível para aluguel na Mostra de SP 2020.

Com a inusitada presença desse jovem casal em suas vidas, Fanny é possibilitada de atravessar a caverna de Platão, passando a ter conhecimento de novas opiniões e coisas das quais foi impossibilitada até então. Adicionando à trama uma perigosa aventura com a presença desses jovens na casa de Fanny, o drama utiliza seus 110 minutos de forma preciosa, escolhendo quem irá sofrer mais e quem irá sofrer menos nas desavenças que serão protagonizadas. 

Sedutor, rebelde e falso puritano, o jovem Thomas que chega acompanhada por Rebecca, na casa de Fanny afirma ser o que não é. Entretanto, a mentira do garoto desenvolve sérias consequências para Fanny e sua família. O filme, narrado pelo jovem Rebecca, é um drama de época que, diferente da realidade, oferece às mulheres de seu tempo oportunidades que elas não tiveram no passado. 

Religiosa convicta, Fanny não pode tocar na bíblia por ser pecado, somente seu marido deve conduzi-la. Em casa, faz as tarefas domesticas e sofre punições a cada vez que algo sai da rotina. Mas a partir do momento que Fanny e seu marido se veem obrigados a continuar com o jovem casal, a mulher descobre novos desejos que se quer sabia existir até então, além de ter a oportunidade de se questionar sobre a vida que leva quando conhece a diferente vida de Rebeca. 

O longa que aparenta seguir uma linha previsível durante a trajetória, apesar de poder cair no clichê diversas vezes, reverte a situação de forma ousada atraindo a atenção do público e se destacando entre outros filmes de época que acompanha famílias após o regimento de Oliver Cromwell

O Despertar de Fanny Lye é um drama que sai da curva ao dar ênfase principalmente aos ideais que não estavam em vigência na época. Pensamentos progressistas como a liberdade sexual, a religião a partir de outra óptica, o protagonismo feminino bem como outros polêmicos temas que, em um mundo tomado pelo conservadorismo religioso, seriam pensamentos no mínimo arriscados para serem abordados em um drama que representa exatamente a época que retrata. Entretanto, a ficção que se embasa na realidade da época não é somente audaciosa como efetiva em sua intenção. 

Com direito à exploração de outros gêneros, Clay não se limita ao forte drama em seu filme. Utilizando a tensão de filmes de ação, O Despertar de Fanny Lye sustenta seu suspense envolto dos personagens como muitos filmes atuais não o fazem, principalmente com a forte trilha sonora que impacta ainda mais o que é visto em cena. 

Como seu título já diz, O Despertar de Fanny Lye é um ambicioso drama que tira sua personagem das trevas. Fanny, que era cercada por um marido machista e vivia com base na opressão da época, possui a oportunidade de um novo futuro. Perseverante, a mudança de postura de Fanny Lee em cena é algo louvável de acompanhar. Interpretada por Maxine Peake, a moça não se assemelha as atuais protagonistas de filmes de ação, mas sim a uma protagonista de um filme de ação de sua época, que ao se rebelar contra o sistema, opta por salvar a sua vida ao não ter outras opções. 

De forma dinâmica, mas tensa, Clay mescla gêneros e subverte o que os dramas clichês de época podem fazer por seus protagonistas. É triste pensar que não houveram tantas Fannys Lye na vida real, mas é para isso que o cinema serve afinal, explorar e entregar narrativas que a realidade não possibilitou existir. 

Acompanhe aqui a cobertura do Quarta Parede POP da Mostra de SP 2020

O DESPERTAR DE FANNY LIE | FANNY LIE DELIVER´D
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RESUMO

Ambientado em 1967, O Despertar de Fanny Lye, dirigido por Thomas Clay, reinventa os dramas tradicionais de época.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.