Mostra de SP 2020 | Baseado em fatos, ‘O Charlatão’ prejudica boa premissa com sua narrativa – Crítica

Representante da República Tcheca na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2021, O Charlatão (Charlatan), escrito por Marek Epstein e dirigido pela polonesa Agnieszka Holland acompanha a vida de Jan Mikolášek (Ivan Trojan), um curandeiro tcheco bem conhecido e bem-sucedido, que diagnosticou e curou pessoas usando sua intuição e sua familiaridade com as plantas. Nascido no início do século 20, o fitoterapeuta Jan Mikolasek tornou-se rico e famoso após curar inúmeras doenças por meios pouco ortodoxos. Um verdadeiro emblema da Tchecoslováquia antes da Segunda Guerra Mundial, o curandeiro tornou-se ainda mais apreciado durante a ocupação nazista e o regime comunista.  

O drama segue os moldes da cinebiografia tradicional e acompanha seu protagonista a partir do momento no qual o mesmo presta serviço militar. Enquanto serve ao exército, o rapaz desenvolve fortes sentimentos de raiva ao presenciar a morte de um amigo e viver a fúria da guerra. Ao aliar essas emoções ao sentimento negativo que possui com relação ao seu pai, o jovem decide aperfeiçoar seus dotes após curar, através do uso de plantas medicinais, a perna necrosada de sua irmã. Depois de viver um ano com uma curandeira, o jovem aprende a fazer diagnósticos através do xixi, bem como as ervas medicinais indicadas para cada caso. 

Enquanto sua vida profissional é dedicada totalmente à sociedade na qual vive, Jan é um homem amargo que guarda sentimentos conflitantes dentro de si. Com a homoafetividade sendo completamente inviável na época, o homem esconde sua orientação sexual da sociedade, mas, em casa, possui um fiel ajudante no trabalho que se tornou seu secreto companheiro com o passar dos anos. O filme foi visto pelo Quarta Parede POP na 44º Mostra de SP.

O Charlatão apresenta a história através de uma ótica não cronológica. Os métodos de diagnóstico e cura notórios de Mikolášek chamaram a atenção do regime comunista tcheco, que fizeram ele ser preso depois que estricnina foi encontrada nos corpos de dois homens que ele havia tratado. Já velho, no julgamento, o homem precisa enfrentar de frente as últimas mudanças políticas que o afetaram, e enquanto isso, sua história é narrada voltando no início de tudo. 

Apesar da inteligente direção, o filme possui um design de produção de época ressaltado pelo uso de cores cinzentas. Bem como a fotografia que destaca em sua impressão o fato de estarmos no século passado. Todos os fatores citados acima influenciaram para que o drama se tornasse além de longo, monótono, apesar de todas as mudanças ocorrendo em cena. 

De forma maçante, as duas histórias que acompanham épocas diferentes da vida de Jan não tornam o filme mais dinâmico, mas sim cansativo. O protagonista interpretado por Ivan Trojan, excelente ao interpretar o insuportável personagem possui a difícil missão de  conquistar através do carisma. Mas, sua dedicação à profissão, ressalta os motivos pelo qual ele marcou a história. Por mais que seja possível ressaltar as colaborações de Jan a história e ciência, o mesmo foi filho de sua época. Com uma personalidade ranzinza, sendo homoafetivo em uma época que não era bem visto, sua própria mente o condenava. Entretanto, os momentos de carinho e sinceridade que possuiu com František (Juraj Loj), foram os momentos mais agradáveis de acompanha-lo. 

O Charlatão é um drama, que além de maçante e chato, torna-se completamente dispensável apesar da história real que apresenta. Todos os aspectos que formam o longa, não torna interessante a história de vida de Jan, que envolvido em situações polêmicas em vida e em morte, merecia algo mais dinâmico e atraente. 

Acompanhe aqui a cobertura do Quarta Parede POP da Mostra de SP 2020

O CHARLATÃO | CHARLATAN
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RESUMO

Exaustivo, falta dinamismo que segure a história representada no drama de época representante da República Tcheca no Oscar 2021, O Charlatão.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.