Mostra de SP 2020 | Sensível, ‘Dias’ explora a solidão de dois homens – Crítica

Após Tsai Ming-liang passar em frente a porta de uma casa de jogos eletrônicos, o diretor teve sua visão capturada por um rapaz que ali estava. Decidiu, dessa forma, convidar o até então desconhecido Lee Kang-sheng  para atuar no seu filme de estreia que produziria para a televisão: All the Corners of the World (1989). Desde então, ambos já fizeram mais de nove filmes juntos. Interpretando o personagem fictício Hsiao Kang em todos eles, em Dias, Kang-sheng possui a companhia de um novo ator revelação, o Anong Houngheuangsy 

No drama exibido no Festival de Chicago (CIFF), no Festival de San Sebastián, no Festival de Berlim e na 44ª edição da Mostra de SP, Tsai explora as diferentes realidades de seus protagonistas. Enquanto Kang (Kang-sheng) mora sozinho em uma casa grande, Non (Houngheuangsy) vive em um pequeno apartamento em Bancoc, onde prepara metodicamente pratos tradicionais de sua aldeia natal. Quando Kang encontra Non em um quarto de hotel, os dois homens compartilham sua solidão.  

Tsai não tem pressa, e seu público também não deve ter. Através de pouquíssimos planos, menos de 50 ao total, que ocupam grande duração do filme, Tsai apresenta o cotidiano de Kang. Antes de iniciar propriamente sua rotina, o rapaz passa horas apreciando a chuva através de uma grande porta de vidro. Toma um longo banho antes de sair de casa. Acometido por uma dor no corpo, o rapaz passa por um tratamento utilizando um quente instrumento que auxilia no alívio de dores. Assim como a vida real, Tsai utiliza muitos minutos de seu longa dedicando-os a cada uma dessas cenas.  

Cuidadosamente, sem legendas, poucos diálogos estão presentes. A linguagem é importante, e por isso Tsai utiliza a linguagem cinematográfica como principal fio condutor em Dias. Aprendemos aos poucos a apreciar a vida solitária do moço. Enquanto o conhecemos, também passamos a conhecer Non, um jovem trabalhador que irá ter seu caminho cruzado com o de Kang futuramente. Dias pode não agradar a todos devido a lenta forma como funciona. Entretanto, se resumindo a poucas cenas, não foi necessário nada além para explorar de forma sensível e impactante a jornada solitária desses dois homens. Solitária até o momento de seu encontro. 

O encontro dos dois rapazes é conduzido com tanta paixão por Tsai, que sua paixão ressoa  de forma ampla, como se durante todo o filme estivéssemos esperando esse momento. Em uma longa cena de massagem erótica, o filme alcança o seu ápice dentro e fora das telas – extasiando a quem assiste -. Dizer que essa cena específica de Tsai é a melhor do cinema em 2020 não é exagero. A intimidade conduzida através da solidão que ambos possuem, tornam àquele quarto de hotel seu próprio mundo. Por pouco é possível lembrar que existe algo além deles dois na existência humana, excluindo inclusive a quem está assistindo. 

Em seguida, acompanhamos a entrega de uma caixinha de músicas de Kang para Non. Tsai decide agora, após a intimidade sexual e afetiva, explorar a intimidade afetiva, os acompanhando enquanto ambos veem a caixa tocar toda sua canção. Essa é somente uma das sequencias à altura da cena que nos foi apresentada anteriormente. 

Não é possível ver Dias acabar, continuamos com os personagens em mente dando continuidade às suas narrativas impedindo-os que voltem para a solidão que enfrentaram inicialmente. Por mais lindas e sensíveis que as longas cenas iniciais tenham sido, não há uma possibilidade de retornar a isso após a potência do encontro de ambos. A solidão, neste caso, só seria permitida novamente, se ambos tiverem que vivê-la durante seus dias para que desse forma, possam estar juntos novamente durante à noite. 

Acompanhe aqui a cobertura do Quarta Parede POP da Mostra de SP 2020

DIAS | RIZI
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RESUMO

Primeira ficção do diretor Tsai Ming-liang em sete anos, Dias é um dos filmes mais lindos e intimistas de 2020

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.