Mostra de SP 2020 | ‘Limiar’ é um longa armênio de intensa reflexão – Crítica

Limiar (Threshold) conta a história de um cineasta armênio (Arsen Ohanjanyan) em busca de locações para o seu próximo filme. Durante essa jornada, ele começa a se identificar com as paisagens e as diversas questões particulares que atravessam aquele lugar. O filme foi visto na 44ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2020.

A coprodução entre Canadá, Armênia e Turquia foi dirigida e escrita pela dupla Rouzbeh Akhbari e Felix Kalmenson. Um dos aspectos do filme que mais chama a atenção é a fotografia. A produção trabalha com uma certa neutralidade das cores, há uma constante presença da cor cinza. Isso reforça um pouco da solidão e da angústia do protagonista. Além disso, muitas cenas fazem uso de iluminação natural, com sombras bem definidas. A fim de ressaltar os cenários visitados pelo personagem principal, Limiar frequentemente realiza planos mais abertos. Dessa forma, é válido lembrar uma das primeiras cenas, na qual o cineasta aparece numa imensidão formada por neve. Ele, em alguns momentos, torna-se apenas um detalhe naquele meio, o que se relaciona muito bem com a ideia do envolvimento do personagem com o cenário que ele está visitando. Mas também existe uma certa preferência por parte do departamento de fotografia desse filme em elaborar enquadramentos simétricos, ou seja, imagens bem centralizadas.

O longa tem um ritmo bem lento, a ponto dos 64 minutos de duração parecerem 2 horas. Não acontece muita coisa no plano expositivo, mas há um grande desenvolvimento subjetivo, interno ao protagonista. Os diretores optam pela realização de movimentos bastante suaves com a câmera e, aos poucos, vão revelando elementos de composição das cenas. Certamente, não é um filme para quem está buscando um simples entretenimento. A produção que está sendo analisada é mais contemplativa e, com isso, é bem silenciosa; apresenta diálogos econômicos e pontuais e o som ambiente. Porque a ideia por parte dos cineastas é desenvolver uma certa conexão entre o personagem de Arsen e aquelas locações ao longo de suas caminhadas.

Numa determinada cena, o protagonista participa de uma discussão sobre o universo. “Conhecemos o universo?”, ele se pergunta. Essa cena é muito representativa do que o filme quer passar. O roteiro se desenvolve a partir das reflexões silenciosas do cineasta. O personagem é bastante pensativo a tal ponto disso se transformar numa obsessão, na sua loucura. Porém, você nunca sabe muito bem sobre o que ele reflete tanto. Nesse sentido, Limiar torna-se completamente abstrato. Não há uma cena ou algum elemento concreto que determine uma ação ou um tema.

Mas a possibilidade de assistir a esta obra cinematográfica por si só já é extremamente válida. É sempre uma experiência enriquecedora ter contato com produções de fora dos limites de Hollywood ou, principalmente, filmes não-ocidentais. Por mais que o filme armênio tenha pontos altos e baixos — assim como qualquer outro — ele nos dá a chance de conhecer outras culturas, outras formas de realização cinematográfica.

Limiar é o primeiro longa-metragem da dupla Rouzbeh e Felix. No entanto, eles também produziram juntos um curta chamado A Passage no ano passado. Questões como o contexto histórico-políticos e a identidade nacional parecem ser questões de interesse por parte dos cineastas. O grande problema é que, pelo menos na obra que está sendo analisada, essas questões não se apresentam de modo muito claro mesmo sendo possível identificá-las de alguma forma. Assim, é possível retomar um ponto discutido anteriormente: o roteiro é muito abstrato. Ele não apresenta muitas respostas. Para muitos, isso pode ser frustrante.

Enfim, Limiar possui pontos positivos relacionados aos aspectos técnicos, como a fotografia, que desempenham um bom diálogo e contribuem para o desenvolvimento do personagem principal. Dessa forma, ficam marcadas características como a angústia e a solidão do protagonista. No entanto, o filme deixa a desejar com um roteiro, que até apresenta pontos ligados ao contexto histórico-político-cultural da região, mas não de maneira determinada, concreta. Ou seja, ele só fica no plano do reflexivo. Além disso, o tom consideravelmente contemplativo — que também tem relação com as características do protagonista — faz com que o longa tenha um ritmo bem mais lento.

Acompanhe aqui a nossa cobertura da 44ª Mostra de São Paulo, que ocorrerá entre os dias 22 de outubro a 4 de novembro

LIMIAR | THRESHOLD
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RESUMO

Limiar possui pontos positivos relacionados aos aspectos técnicos, como a fotografia. No entanto, o filme deixa a desejar com um roteiro bastante abstrato.

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Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.