CIFF 2020 | ‘The Columnist’ é uma divertida comédia de terror sobre linchamentos na internet – Crítica

A era das redes sociais já proporcionou ao cinema grandes filmes que explorassem suas mazelas como Suor (2020), exibido na Mostra de SP e no Festival de Chicago (CIFF) e Caught in the Net (2020) exibido no Festival de Vancouver (VIFF). Ambos apresentam o horror que as redes sociais podem proporcionar às pessoas e suas terríveis consequências. Outro filme que pode ser inserido no mesmo conjunto é The Columnist (De kuthoer ), uma comédia de terror que acompanha uma colunista se vingando de todos aqueles que postaram mensagens desagradáveis e ameaças de morte para ela nas redes sociais. O primeiro longa do roteirista Daan Windhorst, dirigido por Ivo van Aart, foi conferido pelo Quarta Parede POP no Festival de Chicago (CIFF).

Femke (Katja Herbers), uma autora e colunista de renome, está em processo de escrita de um novo livro. Entretanto, não há inspiração o suficiente que a ajude a dar o ponta pé inicial em seu processo no trabalho. Sendo cobrada pela empresa na qual trabalha, Femke é constantemente distraída ao entrar nas redes sociais e se deparar com uma enxurrada de mensagens de ódio, ameaças de morte, falsas acusações e todos o tipos de comentários maldosos acerca de sua pessoa. Ao descobrir que uma das pessoas que comete o bullying virtual com a mesma é um de seus vizinhos, Femke decide se vingar empurrando-o do telhado de sua casa. A morte do rapaz serve como desbloqueio para a criatividade da moça que consegue terminar o primeiro capítulo da obra. Entretanto, nenhum livro é feito somente com um capítulo. 

Em sua coluna, Femke fala sobre a liberdade de expressão e é graças a isso que consegue mantê-la. Entretanto, possuindo pessoas que não concordam com ela aqueles que não são contemplados pelo seu pensamento também utilizam sua liberdade de expressão para despojar na internet tudo o que acham da moça. É dessa forma que o filme trabalha até que ponto a liberdade de expressão pode ir. Mensagem de ódio pode ser considerado liberdade de expressão? Se aventurando nesse debate, The Columnist utiliza o drama, comédia e o terror ao investigar a limítrofe linha que separa o uso da liberdade nas redes e a partir de que ponto ela se torna linchamento virtual.

A excelente Katja Herbers interpreta sua personagem de forma impulsiva, mas cautelosa, que de forma atenta não deixa nenhum comentário a seu respeito passar batido. De forma divertida e preocupante, a mesma utiliza o fácil acesso à internet para pesquisar e conseguir o endereço de todos aqueles que demonstram opinião contrária a sua. As relações sociais que Femke possui no filme se limitam a sua filha adolescente (Claire Porro), que faz protestos na escola defendendo a liberdade de expressão em países autoritários e o novo namorado (Bram van der Kelen), seu rival na indústria literária que é o exímio exemplo de como as pessoas não são aquilo que aparentam. 

The Columnist é um filme descontraído que não se leva a sério. Enquanto Femke mata um a um dos homens que admitem ter comentado na internet coisas sem pensar, através dos crimes brutais que não esgotam suas possibilidades de prática, o filme constrói uma narrativa crítica questionando ao telespectador as barreiras e entraves da liberdade de expressão no mundo digital. 

Katja Herbers em “The Columnist”

A serial killer dos dedos como fica conhecida, não se limita na forma de agir: eletrocuta, enforca, atira e mata suas vítimas utilizando as ferramentas que possui no momento. O filme possui uma viva fotografia que torna o filme descontraído no esquema no qual acompanhamos, mas que ganha um tom sombrio conforme Femke se aproxima do final do longa. Os crimes, cometidos durante a madrugada, dão ênfase no terror eminente presente nas cenas e criam a dualidade na personalidade da personagem. Mãe, namorada e escritora durante a manhã, stalker e serial killer durante a noite. O filme utiliza o seu tema central como uma boa fonte energética que serve como fundamento para todas as abordagens que deseja explorar, seja em sua parte aterrorizante, nos diálogos mais sérios ou nos subtextos apresentados.

Estranhamente divertido, The Columnist segue os moldes de filmes como A Caçada (2020)) e A Babá (2017), que unem a comédia ao terror em um filme de serial killer que conhecemos desde o primeiro momento. Entretanto, The Columnist se destaca principalmente pelo teor crítico. Ao construir uma trama que destaque a liberdade de expressão em seus diversos meios, incluindo países extremamente conservadores, o filme cria um paralelo entre as violências cometidas por Femke e esses governos, até que seus objetivos sejam devidamente alcançados. 

Acompanhe aqui a cobertura do Festival Internacional de Cinema de Chicago (CIFF), feita pelo Quarta Parede POP. 

THE COLUMNIST | DE KUTHOER
3.5

RESUMO

Ousado, engraçado e com uso do gore, The Columnist explora o limite existente entre a liberdade de expressão e o linchamento virtual.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.