CIFF 2020 | Adaptação do livro Laços, ‘The Ties’ é um maçante drama familiar – Crítica

O conturbado drama que esteve presente na seleção oficial do Festival de Veneza 2020The Ties (Lacci) é uma adaptação do livro Laços (2014) de Domenico Starnone, primeiro livro do autor lançado no Brasil. Tanto o livro quanto o filme acompanha Aldo (Luigi Lo Cascio, Silvio Orlando) e Vanda Giovane (Alba Rohrwacher, Laura Morante) em um drama de casamento em crise ambientado em Nápoles e Roma durante um longo período, começando na década de 1980.

No filme, o casal que possui dois filhos, Isabella e Avvocato, decide se separar após Aldo assumir infidelidade a Vanda, entretanto o drama foca em acompanhar os trâmites envolvidos neste laço familiar afrouxado. O drama familiar também foi exibido na última edição do Festival de Chicago (CIFF).

The Ties se passa durante a vida do casal, acompanhando momentos antes da separação até a velhice de ambos. O casal que aparenta ser feliz diante de outras pessoas, em casa possui algumas notáveis desavenças quando percebemos que a sobrecarga de Vanda no cotidiano familiar. Trabalhando na cidade de Roma, Aldo viaja todos os dias até Nápoles para estar com sua família, entretanto, é no trabalho que o homem conhece uma nova moça, Lídia (Linda Caridi, vencedora do primeiro RB Casting Award da história do Festival de Veneza, prêmio escolhido por um grupo de júri formado por diretores de elenco). Com a introdução da personagem, o casamento de Aldo e Vanda vira de cabeça para baixo. Enquanto o rapaz não pretende deixar Lídia, Vanda faz ameaças em desespero para que o marido permaneça em casa. 

O drama do italiano Daniele Luchetti, escrito por Luchetti e Francesco Piccolo em parceria com o autor do livro Domenico Starnone, acompanha a conturbada vida do casal e as implicações de suas escolhas em suas vidas e na vida de seus filhos. Dividido a partir da separação do casal, até o momento no qual, na velhice, ambos estão juntos novamente, o drama foca nas marcas que as dores do passado deixam, e no quanto, apesar de aparentar ter tido um ponto final, sempre haverá resquícios do que existiu.

As crianças durante a conturbada separação são aquelas que mais sofrem, pois, ao não entender o que ocorrem seguem somente com a ação do tempo. Isabella que durante a infância chega a vomitar durante uma discussão, na adolescência apresenta resistência em voltar a manter contato com o pai. Tudo isso reverbera em sua forma de ser e agir na vida adulta. The Ties ressalta de forma clara a disparidade de gênero, enquanto Valdo possui a liberdade de sair de casa e Vanda precisa arcar com as consequências de se uma mulher e mãe nos anos oitenta. Cobrada não só pela sociedade, mas por sua própria consciência que só vê uma saída como forma de escape.  

Conturbado, o filme possui interpretações sólidas que ajudam a construir o arco de um relacionamento desastroso na vida adulta e com sequelas na velhice. A imaturidade e sagacidade se destacam na vida do casal nos anos 80, enquanto agora na velhice ambos já estão cansados demais para um novo arranjo conjugal, mas não para trocar farpas e ofensas.  Apesar de ser um retrato sobre como uma família sofre com a ação do tempo, o filme nunca sai da inércia.

Sem pontos altos e baixos no filme, apesar de vários deles presentes na história da família, o drama é uma grande linha reta sem que haja qualquer momento de destaque, mesmo com suas tentativas falhas. A adaptaçaõ de Laços possui uma interessante história e bons atores no comando de seus personagens – destaque para o trio protagonista vivido por Alba Rohrwacher, Luigi Lo Cascio e Linda Caridi -, mas não possui a força das vidas que retrata. 

Acompanhe aqui a cobertura do Festival Internacional de Cinema de Chicago (CIFF), feita pelo Quarta Parede POP. 

LAÇOS | LACCI (THE TIES)
2.5

RESUMO

Adaptação de livro de mesmo nome, Laços (The Ties, Lacci), de Daniele Luchetti, é um desinteressante drama apesar do bom elenco.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.