CIFF 2020 | ‘Dear Comrades!’ revive greve de trabalhadores na Rússia em 1962 – Crítica

Em Dear Comrades! (Dorogie tovarishchi), o diretor russo Andrei Konchalovsky volta a explorar o tema da guerra como em Paraíso (2016), quando acompanhou uma aristocrata russa presa por esconder crianças judias durante a Segunda Guerra Mundial. Veterano do Festival de Chicago (CIFF), o diretor fez estreia no festival em 1971 com Tio Vânia (1970). Após isso ainda concorreu pelo Gold Hugo com Sibiriada (1979), Paraíso (2016) e em 2020, quando Andrei saiu do festival com o prêmio Silver Hugo de Melhor Direção. 

Baseado em fatos reais, o filme se passa em 1962, na cidade Novocherkassk e acompanha o evento conhecido como Revolta de Novocherkassk. Lyudmila (Julia Vysotskaya) é membro do Partido Comunista, comunista ferrenha que lutou durante a Segunda Guerra Mundial pela ideologia de Stalin. Certa de que sua contribuição criará uma sociedade comunista, ela detesta qualquer sentimento antissoviético. Durante uma greve de trabalhadores na fábrica de eletromotrizes local, Lyudmila testemunhou a manifestação sendo baleada por ordem do governo, visando suprimir greves em massa na URSS. Durante o banho de sangue e o pânico que se seguiu, sua filha desaparece, o que muda a visão de mundo de Lyudmila. Apesar do bloqueio da cidade, das prisões em massa e das tentativas das autoridades de encobrir o massacre, Lyudmila procura sua filha. 

Quando foi exibido no Festival de Veneza no início de setembro, foi ressaltado que neste ano, muitos filmes abordaram o âmbito político de forma mais explícita, sendo esse teor protagonista de quase todos os filmes exibidos. O mesmo ocorreu no Festival de Chicago 2020, que em seu catálogo possui a grande maioria dos longas exibidos no festival europeu. Dear Comrades!, protagonizado pela mulher de Andrei, não é exceção, sendo inclusive, o longa mais político de todos. 

Com a trama política explícita, o filme recorre à fotografia preto e branco resgatando o aspecto noir utilizado em antigos longas do cinema que retrataram partidos soviéticos. Maçante, o filme brinca de gato e rato com todos os personagens que possui, aqueles que são contra o sistema, mas principalmente com aqueles que são a favor. Após um massacre em massa da população que demonstrava se rebelar contra o governo, enquanto os mortos possuem seus corpos sendo espalhados pelas cidades próximas, aqueles que sobreviveram ao ataque precisam assinar um tratado afirmando nunca trazerem à tona o que ocorreu. Lyudmilla não escapa disso e percebe que seu glorioso governo socialista, não condiz com seu imaginário. 

Assim como em And Tomorrow the Entire World (2020), a protagonista sofre uma série de desilusões vivenciadas em todos os âmbitos de sua vida. Não confia mais no governo que possui, o cara com quem se relaciona é casado, além de ter sua filha desaparecida após o fatídico dia. Com toque de recolher instaurado, e necessidade de permissão para trabalhar, os posicionamentos ditatoriais que foram recém vistos em outro longa também presente no Festival de Veneza, Nova Ordem (2020), demonstra como o governo de Novocherkassk passa a domar e silenciar aqueles que os contradiz. 

O longa possui aspecto frio, principalmente pelos tramites políticos que ocorrem contra a população. Os planos fechados transmitem um calor que não está presente durante o resto do filme, entretanto, o calor é seguido pelo desconforto existente nos diálogos que possui uma violência implícita ainda mais aterrorizante que as cenas de assassinato em massa. A direção de Konchalovskiy modula os sentimentos através do uso da câmera tanto quanto a performance de Vysotskaya guia o telespectador. A protagonista, Julia Vysotskaya, é uma mulher destemida que passa por cima de seus próprios princípios para conseguir rever sua filha. O grande elenco torna-se pequeno diante da grande performance da atriz.

Dear Comrades! é um filme político antes de tudo, mas que utiliza uma história de amor familiar para que sua trama se torne fluida. Entretanto, apesar dos interessantes personagens e de grandes cenas de confrontos políticos, o longa apesar de ter somente 120 minutos de duração se torna extremamente maçante e desgastante, fazendo com que quem assista clame pelo seu encerramento. Com um final surpreendente que faz valer a pena a trajetória, alguns minutos a menos o tornariam ainda melhor. 

Acompanhe aqui a cobertura do Festival Internacional de Cinema de Chicago (CIFF), feita pelo Quarta Parede POP. 

DEAR COMRADES | DOROGIE TOVARISHCHI
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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.