Crítica | ‘Alguém Tem Que Morrer’ é o arquétipo do melodrama clichê

A nova minissérie espanhola da Netflix, Alguém Tem que Morrer (Alguien Tiene Que Morir ) quase pode ser resumida pela famosa poesia de Drummond, Quadrilha. Rápido como os versos do poeta (possuindo apenas três episódios), o enredo da obra do criador Manolo Caro, no entanto, sofre de um problema crítico: o clichê cansativo.

João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

que não tinha entrado na história.

Basicamente, a série trata-se da história de uma família tradicional espanhola. O jovem Gabino (Alejandro Speitzer), retorna à Espanha depois de ter passado dez anos no México, para reencontrar uma antiga conhecida,  Cayetana (Ester Expósito) com quem seus pais queriam que ele se casasse. Porém, as coisas não acontecem como planejado, já que Gabino não retorna sozinho, mas sim com um amigo misterioso, Lázaro (Isaac Hernández).

Premissa interessante, pois sim, mas seu desenvolvimento utiliza-se de tantos lugares-comuns que a a história acaba se tornando enfadonha.

Nesse ínterim, é de conhecimento geral que a Espanha tem uma forte veia novelesca que beira o brega, característica que passou para o México e que foi exacerbada por esse país. O sucesso de La Casa de Papel é um caso à parte em que tal traço não se observou e, talvez por isso tenha se destacado tanto. Mas Alguém Tem que Morrer não fugiu à regra e, mesmo que tenha sido rápida, ainda é uma novela comum, mesmo que traga temas relevantes para a sociedade contemporânea.

Dessa forma, durante todos os seus três capítulos, nada se destaca, nenhuma atuação, nenhum momento do roteiro. Não há qualquer arrebatamento, mesmo que tecnicamente falando, tudo tenha sido feito de maneira correta. O figurino, a trilha sonora e a fotografia são bem feitos e expressivos, mas nada fazem para tornar a série prazerosa de se assistir.

Alguém Tem Que Morrer (2020) – Netflix

Seguindo nesse raciocínio, Alguém Tem que Morrer lembra bastante As Telefonistas (Las Chicas Del Cable) no que se refere ao caráter noveleso, apesar de que esta última teve um começo muito promissor, só dando errado no final. Nesse quesito, aqui destacam-se as personagens Amparo (Carmen Maura) e Mina (Cecilia Suárez), cuja relação de sogra megera e nora heroína remete bastante àquela de Cármen (Concha Velasco) e Lidia (Blanca Suárez) naquela outra série.

Por outro lado, há uma clara crítica social ao período pós-guerra civil Espanhola, em que a rivalidade entre republicanos e monarquistas continua, assim como a perseguição e a intolerância quanto aos “desajustados”. Tal fato é ilustrado no preconceito em relação artistas, representado por Lázaro, que é bailarino clássico profissional – as raras e apressadas cenas de dança aliás, são as melhores da série -, assim como no preconceito aos homossexuais.

Quanto à isso, não há problema algum, o problema reside todo na fórmula já desgastada utilizada por Caro. Como dito, não há nada de novo e o melodrama corre solto o tempo todo – para culminar só faltava Lázaro ressuscitar como seu homônimo bíblico! Ainda bem que isso não aconteceu. 

Sendo assim, para entender Alguém Tem que Morrer é simples. Releiam o  poema de Drummond (e percebam a confusão de desastres!) que vocês terão todo o resto.

ALGUÉM TEM QUE MORRER
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RESUMO

Alguém Tem Que Morrer apresenta temas relevantes para a contemporaneidade, mas repete fórmulas sem nada de inovador ou empolgante.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.