CIFF 2020 | Romance esteticamente atrativo, ‘Verão de 85’ não se sustenta com o roteiro que possui – Crítica

Selecionado para a competição oficial do Festival de Cannes de 2020, Festival de Toronto, Festival de Vancouver e Festival de Chicago, Verão de 85 (Summer of 85/Été 85) é o novo filme escrito e dirigido pelo francês François Ozon. O drama utilizou como base o livro Dance on My Grave (1982) do autor britânico Aidan Chambers. O livro conta a história de um adolescente britânico chamado Henry Robinson, detalhando os eventos que o levaram a dançar no túmulo de seu amigo um pouco mais velho, Barry Gorman, com quem Robinson teve um caso de amor.  O filme foi visto pelo Quarta Parede POP no Festival de Chicago (CIFF) 2020.

Verão de 85 se passa em um verão da década de 80, no aniversário de 16 anos, Alexis (Félix Lefebvre), enquanto está no mar da costa da Normandia e é heroicamente salvo da morte por David (Benjamin Voisin), de 18 anos. Alexis acaba de conhecer o amigo dos seus sonhos e juntos, irão dar início a um romance que faz com que essa amizade não dure tanto tempo. 

O filme que se passa na costa, possui o frescor de uma cidade litorânea, guiada por personagens com características distintas. Enquanto Alexis é um garoto magro, baixo e extremamente sensível, David é um musculoso rapaz, descolado, que não possui dificuldade em fazer amigos. Mesmo com as diferenças presente entre eles, isso não os impede de criar um automático vínculo quando se conhecem. Entretanto, com a intensidade que o relacionamento ganha ao passar dos dias, fica claro que enquanto Alexis deseja um relacionamento monogâmico entre ambos, David deseja curtir a vida e estar aberto para novas experiências. 

O filme narrado pela visão de Alexis, não possui uma cronologia a ser seguida. Ele nos guia através do relacionamento do casal, que ocorreu no passado, enquanto apresenta um Alexis deprimido no presente que escreve a pedido do seu professor de literatura o que ocorreu entre ele e David. Dessa forma, acompanhamos duas tramas paralelas, uma de amor vivida pelo casal, e outra que possui um trágico aspecto sem que saibamos o que ocorreu de fato. 

O filme mergulha totalmente no aspecto jovial dos anos 80. As cores vivas, os cortes de cabelo, o figurino, todo o estilo da época estão impressos no filme que, a cada cena, destaca precisamente em qual época se passa. A trilha sonora agitada que mescla o agito e a serenidade proporcionada pela presença de David na vida de Alexis, ambas com grande aspecto de destaque no filme, criando um equilíbrio de como o jovem protagonista se sentia no relacionamento. 

Apesar de visualmente caloroso, o roteiro de Ozon não aproveita as ferramentas que possui. Com uma narrativa automática, os personagens agem de forma robótica na qual aparentam preocupação com relação ao momento que devem agir ou falar conforme apresentando no roteiro. As cenas que não fluem com tanta naturalidade lembram o desastroso The Room (2003) que foi revivido em 2018 após um filme (O Artista do Desastre) sobre as filmagens daquele considerado “o pior filme do mundo”. 

Em Verão de 85, onde os atores aparentam estar estáticos fora de quadro esperando somente o momento de entrar em ação e dizer o que está no roteiro. Isso não é necessariamente o problema, já que os filmes são feitos dessa forma, o problema é eles parecerem estar fazendo exatamente isso. Não há naturalidade, fluidez, e são poucas as cenas feitas de forma orgânica que se tornam convincentes. A cena inicial do filme definitivamente não é um delas. O longa já possui um início frenético, com um diálogo sendo trocado entre o protagonista e um amigo, que soam desesperados para colocar o texto para fora como se por pouco não perdessem as palavras. 

Além disso a trama aborda alguns assuntos que não apresentam uma conformidade com o resto da trama, sendo forçados para que se encaixem com a proposta do filme. Em uma cena, o professor de literatura de Alexis cita seu apreço e interesse pela morte, tópico totalmente aleatório, que o rapaz não havia demonstrado interesse até então. Essa cena está presente unicamente para que no futuro, David também note o seu apreço pela morte e insira o contexto apresentado na proposta do livro no qual o filme se adaptou. Todo esse recorte é feito de forma forçada e sem nenhuma naturalidade, o que reforça ainda mais o estigma robótico no qual os atores estariam somente esperando o momento para despejar sua fala em cena. 

Verão de 85 é um filme visualmente atrativo, magnético e que com seu aspecto comingof-age dos anos 80 atribui significado a toda sua estética e trilha sonora. Entretanto, apesar da sensibilidade do romance, o fraco roteiro torna difícil apreciar até mesmo as performances dos bons atores que possui. A quente fotografia de ressalta a beleza do design de produção, mas graças ao bagunçado roteiro faz com que o filme pareça ser um filme para TV.  

Acompanhe aqui a cobertura do Festival Internacional de Cinema de Chicago (CIFF), feita pelo Quarta Parede POP. 

VERÃO DE 85 | ETÉ 85
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RESUMO

Novo filme de François Ozon, Verão de 85 possui a energia caótica dos anos 80 impressa em um romance LGBT que se perde no fraco roteiro.

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Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.