CIFF 2020 | Em ‘Padrenostro’, Claudio Noce revive seus traumas a partir da imaginação – Crítica

No final dos anos 60 a Itália deu início a um período de turbulência sócio-política que durou quase 20 anos. O país protagonizou uma série de incidentes de extrema esquerda e extrema direita. Este período foi marcado por uma onda de terrorismo, e foi inicialmente chamado de extremismos opostos. Mais tarde o período foi rebatizado como Anos de Chumbo. Retomando o ocorrido durante sua infância, atrelado ao que recordava a partir de sua imaginação, o diretor Claudio Noce deu vida a um dos filmes presentes no Festival de Chicago (CIFF): Padrenostro.

Padrenostro acompanha Valerio (Mattia Garaci), um jovem de dez anos que possui fértil imaginação. Sua vida de criança vira de cabeça para baixo quando, com sua mãe Gina (Barbara Ronchi), ele testemunha um atentado a seu pai Alfonso (Pierfrancesco Favino) por um grupo terrorista. A partir desse momento, o medo e a sensação de vulnerabilidade deixam uma marca dramática nos sentimentos de toda a família. Mas é justamente nesses dias difíceis que Valerio conhece Christian (Francesco Gheghi), um menino de 14 anos. Esse encontro, em um verão repleto de descobertas, mudará suas vidas para sempre.  

O drama que se passa nos anos 70, guiado pelos olhos de uma criança, é o retrato de como um evento traumático pode desencadear formas de escape para que ainda seja possível seguir a vida de forma minimamente confortável. Vítima de bullying na escola, os únicos com quem o jovem possui intimidade são os integrantes de sua família. O pai exemplar e herói do filho é o seu integrante favorito, mas o amor não é o suficiente para mantê-lo por perto, já que Alfonso vive mais tempo fora de casa à trabalho do que com sua família. 

Conhecendo Christian após uma série de eventos traumáticos, incluindo o desaparecimento de seu pai que ainda não voltou para casa após o atentado, Christian é o único que permite com que Valerio seja feliz. Essa amizade iniciada de forma automática exige uma série de mudanças no comportamento de Valerio que passou a fugir da escola, roubar dízimo da igreja, além de sair sem avisar aonde ia. As radicais aventuras dos dois amigos atrai o interesse e afeto de Valerio que agora possui um amigo com quem passar o seu tempo. 

Com um design de produção que remonta as casas da burguesia italiana dos anos 70, Padrenostro possui um ar de juventude. O filme não possui teor sombrio apesar os eventos que narra. Apresentando uma proposta contrária, o drama é sereno e a trilha sonora utilizada ajuda a destacar o seu frescor. Entretanto, o seu tom muda conforme a família de Valerio conhece Christian. Assim, destacando o ciúmes e as desavenças que ambos protagonizam, o filme se torna mais rígido e imprevisível. 

O drama italiano não é centrado nos crimes cometidos, mas sim na amizade de Valerio e o misterioso Christian. Percebendo a aproximação de Christian com sua família, Valerio precisa aprender a lidar com sentimentos e situações inexistentes até então. O que leva o filme a um novo arco, mas de forma totalmente orgânica, influenciando a dramaticidade do longa. As performances formam uma cadeia de suporte na qual ambas funcionam muito bem tendo seus momentos únicos, mas funcionam ainda melhor quando estão juntos em cena, já que é o conflito familiar que desenvolve os sentimentos inexplorados. Destaque para Pierfrancesco Favino que quando em cena transmite com sua presença exatamente aquilo que Valerio possui em seu inconsciente, um pai amoroso que pensa em sua família em primeiro lugar. Favino venceu o Prêmio de Melhor Ator no Festival de Veneza. 

Pierfrancesco Favino e Mattia Garaci em “Padrenostro” (2020)

Entretanto, assim como os aspectos positivos, o filme também possui seus deslizes. Enquanto a ágil direção transmite desde o tormento na floresta até a serenidade sentida por Valério na praia, o roteiro não deixa claro suas intenções. Atribuído como drama, o filme lança alguns mistérios para intrigar o público, mas a intenção gera dúvidas que terminam por não serem esclarecidas.  

A sétima arte, assim como as outras artes, não deve se limitar a explicar, dar asas a imaginação também pode ser utilizada como uma ferramenta essencial que deixe o público levar o filme consigo durante dias a fio. Entretanto, muitas vezes isso pode atrapalhar ao invés de ser algo benéfico para a produção, e foi este o caso de Padrenostro. Ao inserir suposições sobre o personagem de Christian, o filme não se preocupa em seguir com as rotas com as quais flerta, deixando para que o público faça suas próprias escolhas. 

Acompanhe aqui a cobertura do Festival Internacional de Cinema de Chicago (CIFF), feita pelo Quarta Parede POP. 

PADRENOSTRO
3.5

RESUMO

Padrenostro possui boas atuações e uma história envolvente, mas se perde em meio a muitos mistérios.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.