Crítica | Anya Taylor-Joy brilha na ótima ‘O Gambito da Rainha’

Quem diria que xadrez pudesse ser tão emocionante? Duvido você assistir aos impressionantes sete episódios da nova minissérie da NetflixO Gambito da Rainha – e não sair, no mínimo, intrigado com este jogo que é um espetáculo à parte. Há uma atmosfera quase “mística” envolvendo o esporte e seus jogadores, que parecem magos lançando jogadas inteligentíssimas – e difíceis – diante desse enigmático tabuleiro. 

Elizabeth – Beth –  Harmon (Anya Taylor-Joy) é uma jovem que foi colocada em um orfanato religioso ao perder sua mãe. Uma criança extremamente fechada, devido aos traumas vivenciados, ela mostra-se extremamente inteligente – especialmente na área matemática – e se interessa pelo xadrez ao ver o zelador do colégio jogando. O Sr. Shaibel (Bill Camp) lhe ensina diversas técnicas e é seu tutor até ela se tornar um prodígio em um meio majoritariamente masculino. 

Escrita e dirigida por Scott Frank, duas vezes indicado ao Oscar, a  série é impecável. Há alguns deslizes, mas quase irrelevantes frente ao esmero alcançado. São óbvios o cuidado e capricho empregados à produção para atingir uma trama de época de excelência nos mínimos detalhes. Os cenários – seja nos Estados Unidos, França ou Rússia – são tão perfeitos e a história é tão bem contada que até nos perguntamos se a enxadrista Beth Harmon de fato existiu. Mesmo fruto da ficção, é evidente que o design de produção e direção merecem aplausos ao criar um enredo com consistência e intrigante. 

Mesmo com a riqueza nos cuidados estéticos, pesquisas de época e figurinos, a composição jamais é forçada. Nada é extremamente encenado ou dramatizado. É quase possível esquecer que estamos assistindo à uma série ao observarmos, hipnotizados, Beth encarar, reflexiva, o tabuleiro à sua frente. Anya Taylor-Joy está, inclusive, fascinante neste papel trazendo, com perfeição, uma figura misteriosa, impenetrável. 

Anya Taylor-Joy em “O Gambito da Rainha” – Netflix (2020)

Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Há sempre o outro lado da moeda. A mente admirável da jovem podia vencer Grandes Mestres do xadrez e, ao mesmo tempo, perder-se em memórias angustiantes sobre sua vida. Obstáculos impõem-se na jornada em se tornar campeã mundial, como o abuso do álcool. Esta fraqueza – a mesma de muitas mentes geniais em todos os tempos e lugares – jamais é representada de forma clichê ou pretensiosa. 

Por último, mas não menos importante, uma grande questão apresentada pela série é a situação das mulheres na sociedade da época. Ao longo dos sete episódios, conhecemos várias mulheres e suas dores. O sofrimento em não conseguir se libertar de conceitos impostos, como se fossem fantasmas a espreitar até mesmo longe dos olhares públicos. É impossível não se comover com a personagem de Alma – mãe adotiva de Beth – e sua solidão. O Gambito da Rainha é uma surpresa ótima no catálogo Netflix e traz uma história arrebatadora e emocionante. 

O GAMBITO DA RAINHA
5

RESUMO

O Gambito da Rainha é uma adição surpreendente ao catálogo Netflix e empolga com sua história emocionante.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"