9º Olhar de Cinema | ‘Um Animal Amarelo’ e a herança colonizadora no Brasil – Crítica

"Um Animal Amarelo", de Felipe Bragança, foi exibido na 9ª edição do Olhar de Cinema.

Fernando (Higor Campagnaro) é um jovem cineasta, marcado pelo passado de sua família e por sua vontade de realizar grandes conquistas. Enquanto busca produzir seu novo filme, que mistura elementos de sua própria vida com a história do Brasil, Fernando parte numa jornada de autodescoberta, acompanhado por um espírito moçambicano. Filme exibido no Festival de Roterdã, no Festival de Gramado e visto na 9ª Edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba.

Um Animal Amarelo, dirigido e escrito por Felipe Bragança, é uma coprodução entre Brasil, Portugal e Moçambique. O roteiro, dividido em cinco partes, é um dos pontos positivos, devido à complexidade dos temas que são abordados. O texto é repleto de camadas, que se manifestam, principalmente, no personagem principal. Dessa forma, existem diferentes maneiras de interpretar este filme. Cada uma delas será detalhada ao longo desta análise. É interessante observar também que Bragança constrói com muita eficiência o arco de Fernando, atribuindo a sua jornada uma profundidade bastante coerente com as inúmeras contradições internas do protagonista. Até mesmo, as mudanças de tom que a história sofre com a passagem dos atos são bem elaboradas e fazem total sentido com o que é apresentado.

No entanto, talvez seja no terceiro ato que Um Animal Amarelo encontra alguns problemas. Esse é longo e é o momento no qual o recurso do voz over aparece em excesso. A narradora desempenha algumas funções interessantes no longa. Inicialmente, ela descreve os personagens, preenchendo lacunas com informações que poderiam muito bem ser desenvolvidas pelos próprios personagens. Esse é um ponto. No segundo ato, a narradora se materializa na excelente atriz Isabél Zuaa (As Boas Maneiras, de Marco Dutra e Juliana Rojas), que interpreta Catarina, e passa a expor cada vez mais as reflexões sobre as diferentes temáticas abordadas.

Cena do filme Um Animal Amarelo
Isabél Zuaa e Higor Campagnaro em Um Animal Amarelo (2020).

Uma dessas temáticas diz respeito ao passado colonialista do Brasil. Foram anos e anos de exploração e escravização de indígenas e africanos por parte do homem branco. Um Animal Amarelo trabalha esse tema a partir de metáforas. Quem é Fernando, o protagonista do filme? Ele é uma consequência direta dos mais de 300 anos de escravidão e dos mais de 5 milhões de pessoas escravizadas. Ele é o homem branco, privilegiado, que tem o desejo de ficar rico e de ter glória. Ele é neto de um dono de terras do interior (interpretado por Herson Capri), dono de escravos escondidos e que, dessa forma, ganhou muito dinheiro. “A obsessão pela ideia de ficar rico, carregando um cadáver mágico de um passado de dor e morte.”, diz a narradora. Essa, aliás, é fundamental no que diz respeito ao assunto, pois relembra constantemente, através de seus discursos, toda a violência, dor e sofrimento causados pelos nossos antepassados europeus. Mais do que isso, relembra o quanto nós, brancos, fomos beneficiados por esse passado. Ou seja, isso tudo ainda se faz bastante presente na sociedade em diversas estruturas.

Não é por acaso que Fernando tem a companhia de um espírito moçambicano. É o passado que o acompanha. A grande questão é que o personagem tenta seguir em frente com isso a fim de alcançar os seus desejos pessoais e egoístas. A decisão de ir à Moçambique em busca de pedras preciosas é idêntica a dos colonizadores europeus, que saquearam as nossas terras. A partir disso, o filme muda completamente, entrando numa espécie de trama internacional de negociações de joias e pedras preciosas, que também envolve Portugal (muito simbólico). Essa questão traz um pouco da visão econômica por trás do assunto. Não se trata apenas de classificar uma pessoa como boa ou má, mas de se pensar os interesses dela e o que ela é capaz de fazer para atingi-los.

Uma outra interpretação possível está associada ao atual contexto brasileiro. Também não é por acaso que Um Animal Amarelo se inicia no ano de 1984, quando o país passava pelo chamado período de transição democrática. O autoritarismo da Ditadura Militar está retornando com o Governo de Jair Bolsonaro e junto desse, um projeto de “apagamento” ou de simples esquecimento da nossa história. Dessa forma, o cinema pode muito bem ser uma ótima ferramenta de resgate desses discursos que remetem ao nosso passado de exploração, de saqueios, de violência, de opressão.

Mas o filme de Felipe Bragança pode também ser interpretado simplesmente como a história de um cineasta em busca da produção do seu filme. Numa determinada cena, Fernando pede para que o gerente de um banco analise seu roteiro a fim de conseguir um financiamento. O protagonista representa a imagem de um cineasta frustrado, que quer realizar o seu projeto para esclarecer as suas contradições internas e as suas angústias. “Das doenças todas, a que mais corrói os ossos é a memória, cineasta.” Fazer cinema no Brasil não é fácil. No entanto, muitos banalizam a atividade com visões estereotipadas. O diretor faz um ótimo uso da metalinguagem nesse sentido, construindo fortes relações com o próprio longa. Um Animal Amarelo se referencia a si mesmo o tempo todo. Vale destacar também uma cena muito divertida com o ator Thiago Lacerda, na qual ele critica o roteiro do próprio filme. Mas essa camada, que aborda a questão cinematográfica, se relaciona de modo competente com as camadas restantes, que, juntas, contribuem para a construção do personagem principal.

Há também algumas referências à lógica hollywoodiana de se fazer cinema, que é bastante presente no imaginário brasileiro. Mesmo que cinema no Brasil seja uma realidade completamente diferente da de Hollywood. Mas é possível observar isso em breves momentos como quando a narradora chama Fernando de “filhote de Indiana Jones sem câmera para filmar” ou, até mesmo, na fase internacional do roteiro.

Um Animal Amarelo, vencedor de 5 prêmios em Gramado, se destaca pela complexidade de seu personagem principal a partir dos temas abordados no roteiro escrito por Felipe Bragança. No entanto, o recurso do voz over, mesmo que tenha pontos positivos, acaba sendo utilizado de modo excessivo em determinados momentos do filme. É importante também destacar o ótimo trabalho de atuação de Isabél Zuaa, que, mesmo não aparecendo tanto, consegue se fazer bastante presente na história.

Acompanhe aqui a nossa cobertura do 9ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba

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RESUMO

Um Animal Amarelo se destaca pela complexidade de seu personagem principal a partir dos temas abordados no roteiro escrito por Felipe Bragança.

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Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.