CIFF 2020 | ‘Apples’ é um drama peculiar sobre as implicações da perda de memória – Crítica

Apples (Mila) é o filme de estreia do diretor grego Christos Nikou, entretanto, o cineasta foi assistente de direção no filme de Richard Linklater, Antes da Meia-Noite (2013), e no longa do seu conterrâneo Yorgos Lanthimos, Dente Canino (2009). Além de também ter sido supervisor de roteiro deste último citado. O diretor escreveu seu primeiro longa em parceria com Stavros Raptis, diretor de elenco de Em Pedaços (2017). A dupla levou para casa o Prêmio Silver Hugo de Melhor Roteiro no Festival de Chicago (CIFF). 

No filme exibido no Festival de Veneza, Aris (Aris Servetalis), um homem de meia-idade se encontra em meio a uma pandemia mundial que causa amnésia súbita. Após ser acometido pela amnésia, o mesmo se encontra inscrito em um programa de recuperação criado para ajudar pacientes a construir novas identidades se não tiverem encontrado suas famílias. Enquanto está inserido nesse novo contexto, Aris recebe tarefas diárias que deve cumprir enquanto seus médicos acharem necessário. 

O drama cômico que acompanha Aris segue seus momentos antes de perder a lucidez, quando o mesmo ouve de forma consciente em sua casa sobre o que está sendo feito no hospital. Após perder a noção de quem é e ser direcionado para lá, uma série de testes diários são feitos na tentativa de ver alguma melhora no rapaz, que nada esboça. Ao iniciar o seu novo procedimento, o moço é realocado em um novo apartamento, onde deverá tentar construir uma nova vida. 

Apples é um drama com uma proposta audaciosa, além de estranha. Refletindo os enlaces da memória e perda, possui características bizarras e apáticas que o ligam ao cinema de Lanthimos. Devido a isso, Nikou é um artista importante para ficar de olho em seus futuros trabalhos, vindo a ser um possível novo nome para a Greek Weird Wave” (Estranha Onda Grega), movimento do cinema grego impulsionado pela degradação social e econômica do país. 

O filme é, ele inteiro, apático. Com um design de produção formado por uma paleta de cores de tons pasteis, com um protagonista que não esboça emoções e uma trama que não exige muito a priori, é através dessa apatia que Apples constrói o seu tom. O dia a dia na cidade, efetuando as atividades solicitadas pelos médicos como “sair de casa”, “conhecer alguém”, “jantar fora” e outras pequenas tarefas, as mesmas ressaltam ainda mais a apatia do protagonista quando é necessário que ele fotografe todas as atividades que fizer e em cada uma delas sua expressão de tédio e automatismo é a mesma. 

Obviamente o filme não propõe a apatia à toa. Nesse novo mundo, todas emoções e sentimentos importam, até mesmo as mais simples delas, como a simples preferência de Aris pelas maçãs ao invés das laranjas. Sendo elas inclusive a única fonte de cor mais viva na casa do rapaz. Ao conhecer uma também recém amnésica jovem, Aris passa a fazer suas atividades com ela e, quanto mais se aproximam, novas portas se abrem. A cada nova atividade uma nova camada de Aris surge, ainda que com dificuldade, mas sempre um progresso do seu total estado de apatia. 

Aris Servetalis em “Mila” (Apples) – 2020

Conhecendo mais sobre o nosso protagonistaApples questiona até que ponto as memórias são boas de serem lembradas. Não seria mais fácil esquecê-las e dar início a uma nova vida? Com o tom de estranheza clássico do cinema grego mais recente, a apatia dos personagens e frieza das habitações, tudo se transforma conforme Aris avança nas atividades e precisa dar início àquelas que exige um contato humano mais próximo com outras pessoas. Exigindo um envolvimento emocional  que o personagem a muito não tem.

Apples sabe qual é o seu ponto de partida e o que quer investigar. Nikou não deixa a desejar para os seus conterrâneos, mesmo estando somente em seu primeiro filme. Resta aguardar os próximos filmes do diretor para acompanhar se ele se entregará a crua bizarrice de vez, ou se continuaremos a ter a ponta de lucidez que nunca se perde em completo estado de displicência.

Acompanhe aqui a cobertura do Festival Internacional de Cinema de Chicago (CIFF), feita pelo Quarta Parede POP. 

MILA (APPLES)
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RESUMO

Em seu premiado filme de estreia, Christos Nikou entrega uma obra com sua marca pessoal com Apples (Mila).

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.