Crítica | ‘Lovecraft Country’ surpreende e se consagra como uma das melhores séries de 2020

Howard Phillips Lovecraft foi e continua sendo uma das maiores influências da cultura pop em geral, mas mais especificamente em sua área de atuação, a literatura de horror cósmico. Apostando em cenários sombrios, povoados por seitas maléficas e criaturas-deuses além da imaginação, cujo mero vislumbre já é o suficiente para roubar a sanidade de uma pessoa comum, o escritor estadunidense revolucionou as histórias de ficção e fez escola, influenciando a maior parte de obras fictícias, mesmo que não relacionadas ao horror. Lovecraft Country

Com criaturas enigmáticas e icônicas como Chtullu (o deus de tamanho colossal que permanecia em estado de hibernação no fundo dos oceanos, mas que graças ao seu poder astronômico, influenciava pessoas por meio dos sonos) e incontáveis outras criaturas, geralmente oriundas de outros universos, Lovecraft se faz presente no cinema, na literatura, em jogos, animações e vários outros meios de expressão artística. Mas apesar de sua importância, é preciso também que se conheça o lado obscuro de Lovecraft, mais precisamente sua fortíssima tendência ao racismo, inclusive, se referindo aos negros em seus contos, como abominações.

Há quem diga que até o próprio conceito de horror cósmico, que e tão aclamado pelos fãs, é uma espécie de manifestação do racismo do autor, uma vez que é dessa forma que ele demonstra seu temor e aversão ao desconhecido, ao que é diferente, às outras raças. E é exatamente sobre isso que Lovecraft Country quer discutir.

A série criada por Misha Green e lançada pela HBO em agosto, procura reverenciar os aspectos positivos da obra de Lovecraft, mas criticar de forma intensa seus pontos negativos, e não apenas isso, ao reverenciar aqueles que serviram de vítima não apenas para o autor, mas também por toda a sociedade branca: os negros.

Lovecraft Country (2020) – HBO

Na década de 1950, preocupado com o sumiço de seu pai, Atticus (Jonathan Majors) se junta a Leti (Jurnee Smollett) e ao seu tio George (Courtney B. Vance) em uma jornada até o sul do país, região onde a segregação racial é mais acentuada. Nessa viagem, eles acabam tendo suas vidas sendo ameaçadas não apenas por racistas assassinos, mas também por criaturas oriundas dos piores pesadelos, além de bruxos e magia negra. A partir daí, cabem aos heróis compreender como funciona essa nova realidade mística e realizar os maiores sacrifícios para salvar aqueles que mais amam.

Uma das principais caraterísticas da série é a sua diversidade. Logo no primeiro capítulo, a narrativa mostra a que veio, demonstrando como era difícil possuir a pele escura naquela época, tendo sempre que se precaver em prol de sua própria vida e os realizadores são bastante eficazes em provocar esse medo no expectador. Assistindo Lovecraft Country, somos todos negros, desde o primeiro frame. E os inimigos são os brancos segregadores.

O interessante na narrativa é o fato de que ela insere os personagens negros não apenas como coadjuvantes, como foram posicionados na cultura pop durante muito tempo, mas sim, como protagonistas e muitas vezes, até heróis. Mas ainda mais interessante do que isso é que, mesmo no papel de protagonistas, a cultura negra se mantém intacta, seja na música, na história e na personalidade.

Em Lovecraft Country, todas as minorias são valorizadas, sejam negros, gays, lésbicas e mulheres, tenham elas a idade que tiverem. É incrível a cena em que uma personagem negra, por volta dos seus 50 anos, se torna uma super heroína, tirada dos quadrinhos, algo muito difícil de ver na maioria das obras de ficção que existem por aí. Com direito a viagem no tempo, aventuras em masmorras subterrâneas e criaturas lendárias, Lovecraft Country, entregando episódios que não poderiam ser mais diferentes uns dos outros, propõe ao expectador uma viagem insana como uma montanha-russa, deixando a sensação de que literalmente qualquer coisa pode acontecer no episódio seguinte.

Lovecraft Country (2020) – HBO

 

A solução visual da série é impecável, seja por causa da fotografia bastante contrastada e colorida, que se altera em alguns episódios, dependendo do contexto fantástico em que a história se encontra, aos efeitos visuais, que são extremamente bem realizados e que se comparam aos filmes de Hollywood, é impecável.

Jonathan Majors, que havia se destacado em Destacamento Blood, filme da Netflix estrelado por Chadwick Boseman, acaba por entregar um excelente Atticus, cheio de nuances dramáticas e muito carisma, fazendo com que o púbico se identifique com ele imediatamente, papel este que promete lhe render novos trabalhos em breve (já foi confirmada sua participação como vilão em Homem-Formiga 3).

Não podemos deixar de mencionar Jurnee Smollett, que tem tudo que uma personagem mulher, empoderada e negra precisa ter: força, carisma e um belo gingado quando precisa. O mesmo pode ser dito da excelente Aunjanue Ellis, a Hippolyta Ellis, que no começo aparece tímida, no papel de esposa de George, mas que conforme os episódios avançam, acaba por se tornar uma das mais valiosas integrantes da equipe. E por fim, mas não menos importantes, vemos um controverso e sensível Michael Kenneth Willians, que entrega Montrose, o pai de Atticus e que também é gay.

Lovecraft Country (2020) – HBO

Mas, uma das personagens mais enigmáticas é a irmã de Letti, Ruby (Wunmi Mosaku), que entrega umas das cenas mais polêmicas da temporada, mostrando a reação de uma mulher negra na posição de poder assumir o papel de uma pessoa branca e assim, usufruir de seus benefícios (o que levanta a discussão de toda a luta pela igualdade que os negros lutavam naquela época e que ainda lutam nos dias de hoje). E do lado dos vilões, o destaque fica para os carismáticos e sedutores bruxos William (Jordan Patrick Smith) e Christina (Abbey Lee Kershaw).

Apesar de dar alguns pequenos escorregões, como é o fato de que após um acontecimento traumático no final de um episódio, o seguinte começar de forma a não valorizar tão bem os últimos eventos, Lovecraft Country se revela uma agradável surpresa, quebrando as expectativas da maior parte do público que esperava mais uma obra assustadora nos moldes do escritor icônico, e marcando seu lugar como sendo uma das melhores séries de 2020.

LOVECRAFT COUNTRY – 1ª TEMPORADA
5

RESUMO

Apostando na diversidade e na força de seu elenco, Lovecraft Country, da HBO, traz terror e suspense de uma forma diferente e atraente.

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...