Mostra de SP 2020 | Em ‘Nova Ordem’, Michel Franco esvazia seu filme em troca da violência gratuita – Crítica

Quando foi exibido no Festival de Veneza em setembro de 2020, Nova Ordem (Nuevo Orden), o novo filme do mexicano Michel Franco polemizou após sua premiere ao dividir a crítica ao receber resenhas negativas e positivas. Entretanto, algo entre elas foi unânime, o filme havia causado um choque no público. O cinema de Franco, conhecido pelo uso exacerbado da violência explícita, causou uma boa impressão no júri do festival, levando para casa o Leão de Prata (Grande Prêmio do Júri), além do Prémio Pequeno Leão de Ouro (Leoncino d’Oro Agiscuola). O filme marca a abertura da 44º edição da Mostra de SP 2020, que esse ano ocorre em novo formato. Confira aqui quais filmes o Quarta Parede POP já conferiu da Mostra. 

O filme se passa na Cidade do México, quando um casamento de luxo ocorre em meio a elite mexicana. Enquanto isso, o resto da cidade se encontra em completo caos devido aos protestos feitos pela população reivindicando seus direitos. Utilizando o protesto como oportunidade, o Estado aplica um golpe na cidade que irá protagonizar sérios episódios de assassinato e tortura. Diante disso, Franco tece uma trama que irá colocar os patrões vs. empregados em um vertiginoso esquema de fuga, mas também de uma luta contra si.

Nova Ordem é um filme que funciona como uma espiral. Descendo de forma espinhosa, cada novo plano rumo aos confins da cidade apresenta o que há no subsolo, um show de horrores completamente desestruturado. Anterior a isso, enquanto a simpática Marianne (Naian González Norvind) e seu noivo Alan (Dario Yazbek Bernal) aguardam a chegada da juíza para o casamento que ocorre em casa, um antigo trabalhador da mansão, Rolando (Eligio Meléndez), chega em busca de ajuda financeira para que possa custear os procedimentos médicos que sua mulher precisa. Ambos trabalharam durante anos na casa da família de Marianne, entretanto, após serem retirados de um hospital público, que agora abriga vários manifestantes machucados, precisa encontrar um hospital particular para levá-la antes que sua situação se agrave. 

Com a ajuda de Marianne, que deixa o casamento para auxilia-lo, juntamente com uma das pessoas que trabalha em sua casa Christian, ao se deslocar da parte rica da cidade, percebe que há vários militares expostos nas ruas bloqueando o acesso. Em meio à tamanha desordem, no qual manifestantes começam a invadir as casas ricas da região, roubando e matando aqueles que não os obedecem, o que era um lindo dia naquele lado da cidade, se transforma em completa confusão em poucos minutos. 

Franco não mede esforços em suas intenções em Nova Ordem. Enquanto os manifestantes em cena assassinam a high society mexicana, alguns dos criados da casa saqueiam objetos, roupas e itens valiosos. No centro da cidade que está completamente destruída, há centenas de manifestantes já mortos pelos militares. Em uma teia de eventos, tudo o que que ocorre em seguida só leva cada uma das classes sociais ao declínio. Centralizando o seu poder, os militares após o golpe, controlam os moradores da cidade com um toque de recolher instaurando definitivamente o seu governo. 

Com essa estrutura narrativa, Franco expõe as mazelas que acometem os seres humanos na tentativa de representar o que ocorre nos sistemas fascistas que utilizam a desestabilização social para se instaurar. Retrato fictício do que ocorreu e ocorre no mundo atual, Franco não toma partidos ao apresentar a sujeira impregnada em todos os âmbitos da sociedade. Homens ricos, brancos, poderosos e corruptos utilizam o casamento de Marianne como lugar de negócios ao utilizar seus ternos e suas propinas como presente de casamento, mas não possuem dinheiro e preocupação o suficiente para ajudar àqueles quem não tem. Enquanto isso os manifestantes que invadem o casamento não pensam duas vezes se for necessário matar alguém para conseguir o que desejam. É através dessa situação de gato e rato que Franco explora as instituições simbólicas da sociedade, pesando até onde as relações podem ir em busca de seu interesse.

Naian González Norvind e Fernando Cuautle em Nova Ordem (2020)

Assim como em Depois de Lúcia (2012), o diretor investiga a índole do homem capaz de cometer as maiores atrocidades em troca de seu próprio bem estar, seja ele físico, moral ou ideológico. Na disputa de classes traçada pelo roteirista, os manifestantes buscam algum tipo de regalia diante da desigualdade social, plantando o caos ao reivindicar pelos seus direitos. Isso configura um prato cheio para aqueles que desejam a ordem a qualquer custo, mas um novo tipo de ordem. A ordem instaurada pelo regime militar, também possui suas próprias relações regadas a violência, mentiras e descaso social.

Com um estilo frenético, o drama oferece uma estética moderna em contraponto com um México mais simples, no meio dos dois, há o centro da cidade já destruído, nesses aspectos o filme recorda Parasita (2019), que também cria a dualidade entre os jogos de poderes entre as classes sociais. Enquanto a cidade é destruída, o filme também se degradada em sua narrativa e na exploração de personagens, se tornando cada vez mais suja e perigosa. Não só nos lugares que apresenta, mas os personagens que possuem conduta duvidosa.

As micro violências, as macro, as violências implícitas e explícitas, em terra de golpe, a violência reina. Entretanto, na tentativa de alcançar uma repulsa do público diante da exacerbada violência, bem como chocar a quem assiste, toda sua trama construída até então é esquecida em detrimento do show de horrores visual. Há crítica, mas uma crítica que foi construída somente para que o filme pudesse chegar àquele momento: momento onde tiros são dados há centímetros de várias cabeças humanas, trabalhadores são enforcados e o governo ditatorial firma ainda mais suas forças e alianças. Toda a trama inicial é deixada de lado pelo diretor que prefere chocar, do que desenvolver.

Nova Ordem repete o mesmo de Depois de Lúcia, assim como o drama adolescente, todos os males que acometem a protagonista servem de base para a série de violência que ela sofre. Entretanto Nova Ordem maximiza as violências em uma cidade e não as centra em um único personagem. Cru e sem benevolência, Franco não polpa seus personagens do sistema, nem mesmo os mais simpáticos da trama. No filme, o que ocorreu na cidade está se espalhando entre municípios vizinhos, logo estará em outros estados. Resta saber se a próxima obra de Franco irá ao cerne do que tanto crítica, ou maximizar os níveis de violências no qual iremos acompanha-lo, novamente, expandindo-os, mas dessa vez por todo o país. 

Acompanhe aqui a cobertura do Quarta Parede POP da Mostra de SP 2020

NOVA ORDEM | NUENO ORDEN
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RESUMO

Em Nova Ordem, filme vencedor do Leão de Ouro, Michel Franco não desenvolve a trama que apresenta em troca da exploração da violência.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.