Mostra de SP 2020 | ‘Miss Marx’ oferece uma viagem no tempo e resgata uma importante figura histórica – Crítica

Entre o grande número de mulheres que marcaram a história mas foram negligenciadas com o tempo está Eleanor Marx. Terceira filha de Karl Marx, nascida em Londres em 1855, a jovem chamada pela família como Tussy, foi educada em casa pelo pai que ressaltou em seus ensinamentos o capital como guia da sociedade e a ênfase em seus constructos sobre o socialismo. Criada nesse contexto, o filme de Eleanor não poderia ser outro. Associada a Federação Social Democrata, a jovem dividiu sua vida entre o ativismo sindical, ressaltando as conferências e escrituras sobre socialismo; e um conturbado relacionamento amoroso. Miss Marx

Em Miss Marx, filme que compôs a seleção oficial do Festival de Veneza e venceu o prêmio da crítica italiana no festival, Eleanor (Romola Garai) se encontra no funeral de seu pai. A mesma em seu discurso no enterro recapitula os grandes feitos do homem, ressaltando aqueles que estão inseridos em suas vidas e presentes no momento. Enquanto Eleanor nos adentra na vida do filósofo, a câmera apresenta os personagens a cada vez que ela cita seus nomes. Grandes figuras históricas e também personagens que faziam parte do seu cotidiano, estão presentes no filme. Friedrich Engels (John Gordon Sinclair), Helen Demuth (Felicity Montagu), Olive Schreiner (Karina Fernandez), Laura Marx (Emma Cunniffe), Paul Lafargue (George Arrendell) e o não menos importante Edward Aveling (Patrick Kennedy). Escrito e dirigido por Susanna Nicchiarelli, o filme será exibido na Mostra de SP 2020 entre os dias 22 de outubro e 04 de novembro.

Na tentativa de situar o telespectador historicamente, o filme utiliza Eleanor como sua porta voz. O drama que irá girar em torno da filha de Marx, é guiado através dos discursos e diálogos da própria personagem para entender o que ocorreu antes do início do filme. Com seus pais já falecidos, o desejo concebido por ambos foi executado, enterrados juntos no mesmo local. Após passar a vida toda cuidado de seus pais, agora Eleanor encontra-se livre para poder dedicar o seu tempo a ela mesma. Dessa forma, a jovem embarca em uma nova fase na qual irá organizar suas ideias em livros, fundamentados com a teoria de seu pai, além de traduzir peças teatrais e utilizar sua oralidade como sindicalista. 

Dividido em blocos de anos, o filme situa qual ano estamos acompanhando antes da cena iniciada. Isso influencia para que possamos ter noção cronológica dos fatos e entender o que ocorria no mundo durante aquela época. Com uma ambientação dividida entre planos abertos, enquanto há um ar livre e descontraído nos grandes jardins que a burguesia possuía em suas casas, uma ambientação mais séria e escura permeia as instalações internas. A direção de arte do filme é clara e precisa ao pontuar o contraste social existente nas casas que Eleanor transitava e entre as fábricas nas quais a mesma ia ao reivindicar pelos direitos dignos dos trabalhadores. 

Com grandes casas, enormes bibliotecas e móveis chamativos, Eleanor leva uma boa vida com aquilo que possui, mesmo que, no dia a dia, se preocupe com as finanças pessoais e tenha controle do que gasta. O mesmo não ocorre com Edward Aveling (Patrick Kennedy), seu parceiro. Engatando um romance com o socialista após a morte de seu pai, Eleanor prevê uma feliz vida em conjunto com seu amado, médico e fundador da Liga Socialista. Entretanto, quando se relaciona com Edward, Eleanor se vê investindo em uma frágil relação, sem a base da confiança e com seus princípios desvalidados. Os vieses socialistas de Edward não são o suficiente para fazê-lo economizar o dinheiro que possuem e se planejar financeiramente. Bem como, o amor que possui por Eleanor não é o bastante para evitar que ele se relacione com outras mulheres. 

Assim como a vida de Eleanor, o drama também se divide entre os dois grandes aspectos de sua vida, sua carreira na política e seu conturbado relacionamento. Tento em vista que o filme é baseado em fatos reais, há grande influência da época na qual a jovem vivia e também dos princípios morais que ela enfrentava. Sendo de grande valia para a luta feminista, Eleanor destacava como o patriarcado reprimia as mulheres e acreditava que a luta socialista as tornariam livres em algum momento, havendo assim igualdade de gênero. 

Romola Garai e Patrick Kennedy em Miss Marx (2020)

Todos os pontos que a jovem defendia são apresentados no filme de forma orgânica. Apesar de inspirado em fatos reais, o filme utiliza sua criatividade para que a trama se torne mais dramática e trágica. Entre elas há a descoberta de Eleanor sobre o seu meio-irmão Frederick Lewis Demuth (Oliver Chris), configurando uma das cenas mais divertidas do filme. O longa também recorre ao passado, voltando no tempo e apresentando uma jovem Eleanor Marx que se encontra na biblioteca de sua casa com todos os seus familiares ainda vivos. Essas cenas do filme que pincelam a nostalgia no longa, e servem na construção do amadurecimento da personagem, não se encaixam tanto. Além de desnorteadas, soam artificiais e deslocadas, principalmente a cena final.  

Trafegando entre o trágico e o cômico, Miss Marx é um divertido drama que coloca os holofotes sobre uma importante figura histórica negligenciada durante muitos anos. Romola Garai, indicada ao Globo de Ouro em 2012 pela série The Hour e em 2011 pela minissérie de época Emma, conduz sua Eleanor Marx suavemente. Carismática, divertida, mas que facilmente demonstra tristeza quando o filme entra em seu arco mais dramático. A atriz facilmente invoca em nosso imaginário uma Eleanor Marx que não temos ideia de como era, mas que somos facilmente convencidos de que era do jeito que a atriz apresenta.

Conduzido pelo grupo musical Gatto Ciliegia Contro il Grande Freddo, o filme oferece uma trilha sonora punk que destoa completamente do cenário e ambientação lírica que a protagonista perpassa, a música entra em contraste com a moça que apresenta uma mistura de sentimentos, mas não se impõe em muitos deles. Todo o contraposto é colocado em cena pela música, incluindo uma cena na qual, com a presença inquestionável de Romola Garai, após um estalo de lucidez induzido, Eleanor Marx dança de forma extravasada. A cena que possui uma força poética, apesar de interessante se desconecta do filme assim como suas aparições de mais jovem. Mas é tão bom ver Eleanor colocar os ânimos para fora, que compensa a desarmonia. 

Miss Marx é um drama que pode, não ser fiel a história que conta, mas tenta fazê-lo da forma mais acessível e dramática possível. Na tentativa de apresentar parte específica da história, nos introduz uma personagem interessante em cena e mais ainda fora delas. A intepretação de Romola é um dos pontos mais altos do filme, que, em uma combinação esquisita com a trilha sonora, apresenta um divertido resultado. Apesar disso, algumas cenas desconexas, tiram a sua leveza e seu tom descontraído. 

Acompanhe aqui a cobertura do Quarta Parede POP da Mostra de SP 2020

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RESUMO

A jornada histórica apresenta Eleanor Marx, a filha mais nova de Karl Marx, é contada através de uma descontraída perspectiva em Miss Marx.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.