Mostra de SP 2020 | ’17 Quadras’: a história de uma família desassistida pelo estado de DC – Crítica

Quando criança, o jornalista Davy Rothbart conheceu os irmãos Emmanuel Durant Jr e Akil ‘Smurf’ Sanford na quadra de basquete. Juntos, os três cresceram registrando tudo o que ocorria na família Sanford. Morando à exatas 17 quadras do prédio mais importante de Washington D.C., Capitólio, os três registram duas décadas de vídeos domésticos íntimos vividos na casa da família Sanford, centro de uma série de lutas enfrentadas contra à violência, drogas e ao sistema opressor.   

Assim como Time (2020), 17 Quadras (17 Blocks) é construído a partir de vídeos caseiros que retratam a infância da família bem como o seu crescimento em uma das cidades mais violentas dos Estados Unidos. Emmanuel com 9 anos, é o extremo oposto de seu irmão mais velho, Akil. Enquanto Akil abandonou os estudos aos 15 anos, e passou a vender drogas na busca por um crescimento financeiro, Emmanuel ocupa as câmeras falando quais são suas matérias escolares favoritas, apresentando a vontade de se tornar bombeiro em sua vida adulta. Em uma família disfuncional, Emmanuel aos 19 anos, possui boas notas, uma namorada com quem deseja formar um futuro e foi aceito no curso que possibilita a realização de seu sonho. Auxiliando todos em casa, o filho perfeito é uma das poucas vidas não atingidas pelas mazelas ao redor.

Por trás deles, há ainda sua mãe Cheryl, que utiliza as drogas como subterfugio das mazelas que a cercam, principalmente com relação ao relacionamento afetivo que possui. Uma mãe que busca as possíveis alternativas para criar seus filhos de forma digna, mas que se envolve em um relacionamento que a deteriora mais que a ajuda. Há ainda também, Denice (11 anos nas primeiras imagens), irmã de Emmanuel e Akil que, ao virar mãe jovem, possui o apoio da família para criação de seu filho. 

Através dessas relações interpessoais, da relação da família com o meio no qual se encontram, 17 Quadras explora os temas de vulnerabilidade social que não à toa, cercam essa família. Por mais que morem em um lugar fisicamente próximo ao Capitólio, centro legislativo do Estado Americano, o descaso com o bairro da família é exposto através das filmagens caseiras de Rothbart. Ocupando as ruas como forma de escape e utilizando o basquete como atividade de lazer, quando crescem, outros caminhos são apontados para a família que é cercada pelos males sociais. 

A vida da família Sanford possui disparidades na vida pessoal de cada um, entretanto laço do afeto mantem todos unidos. Mas, no contexto apresentado, o amor não foi o bastante para evitar que atrocidades marcassem a família, que perde um de seus integrantes após uma invasão domiciliar seguida de assalto e assassinato. A partir de então Rothbart segue agora, quais as implicações dessa perda na vida dos familiares, sem a alternativa de remediar a situação. 

Além das filmagens caseiras, o longa também é guiado por vídeos atuais que seguem os personagens do documentário. Em uma narrativa que se inicia com a câmera acompanhando Cheryl voltando a sua casa de infância é que o filme mescla os vídeos caseiros antigos com filmagens recentes. Apresentando a progressão e as consequências da violência, drogas, e do descaso do estado, em suas vidas o filme utiliza o recorte na família Sanford como representação do que ocorre com vários outros no estado. O documentarista não é personagem, sabemos que ele existe e sua relação com a família porque essas informações são apresentadas anterior ao documentário. Mesmo que ele não esteja em cena, é importante que sua relação com a família seja ressaltada pois é assim que ocorre a trajetória ocorre de forma fluida e o filme não se torna uma exploração de história de vida. 

17 Quadras é um conto triste, semelhante a proposta de Minding the Gap (2017), o filme apresenta os males que acometem a família e suas consequências, mas dessa vez não em um grupo de amigos e sim em uma família. Entretanto, apesar de também utilizar a câmera como desabafo para suas desavenças, o filme não alcança a mesma relação de proximidade do documentário de 2017. Cheryl é quem mais se abre para a câmera apresentando saudades do passado, arrependimentos e desejos do futuro. A mãe que não e perfeita, fez o melhor que pôde com o que tinha, se culpa pelo uso de entorpecentes e somente na idade avançada percebe que é hora de agir. Mas não que seja tarde demais, muito pelo contrário, é o vislumbre de um futuro livre que a move. 

A vida da família ainda possui a presença de Caren, namorada de adolescência de Emmanuel que tinha esperanças de uma vida em conjunto, fazendo parte da estrutura funcional da família – já que Caren auxilia na criação dos filhos de Denice – e também na do filme, a jovem é elemento essencial para mostrar os desdobramentos em sua vida dos males que atingiram os Sanford. Vindo de uma escola particular e de uma família de classe média, Caren teve uma vida com mais oportunidades e possibilidades de futuro. Entretanto, isso não a livrou de sofrer as implicações e consequências advindas da tragédia que acomete a família Sanford, mesmo que isso ocorra de uma forma diferente. 

O documentário possui pontos em comum com Time, sendo um acompanhamento longínquo e gradativo da vida de uma família, mas também de Minding the Gap ao explorar os mais diversos âmagos que podem acometer um grupo de pessoas desassistidas pelo estado e as consequências que isso implica em suas vidas. Doloroso e intuitivo, 17 Quadras é uma jornada na família Sanford que nos leva da dor ao carinho, afeto, mas principalmente à revolta. Poético em sua estrutura narrativa, magnético em seus personagens, mas realístico como um todo, é uma denúncia àqueles que possuem a obrigação de fazer algo pelo seu povo e, também, dedicado a todas as famílias que sofreram, de alguma forma perdas irremediáveis nos últimos anos no estado de DC.

Acompanhe aqui a cobertura do Quarta Parede POP da Mostra de SP 2020

17 QUADRAS | 17 BLOCKS
3.5

RESUMO

17 Quadras navega na trajetória de uma família que sofre as consequências de uma vida imersa na violência, drogas e outros males.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.