Crítica | ‘Casa de Antiguidades’ e a metamorfose surreal

Casa de Antiguidades, de João Paulo Miranda Maria, debutou cercado expectativas em 2020. O filme tentará uma vaga, como representante do Brasil, no Oscar 2021. Protagonizado por Antonio Pitanga, o filme foi o único latino a receber o selo do Festival de Cannes desse ano, depois teve sua primeira exibição mundial no Festival de Toronto, passando por San Sebastian, na mostra “Novos Diretores”, até sua chegada ao Festival de Chicago 2020, com cobertura do Quarta Parede POP.  A produção também é um dos destaques da 44ª Mostra de SP.

No longa, Antonio Pitanga dá vida a Cristovam, um homem simples do interior, que precisa mudar de cidade  após ser dispensado, em busca de melhores condições de vida e trabalho. Porém, ele se depara com uma realidade que desperta, dentro dele, algo que antes não estava escancarado, sofrendo com a solidão e o preconceito dos moradores locais. João Paulo Miranda Maria invoca os demônios invisíveis dos oprimidos através de um olhar, cheio de nuances, sobre o racismo sistêmico no Brasil moderno. O que acontece quando após décadas de abusos destroem a humanidade de Cristovam? É sob essa sinopse que o filme se desenha.

Em seu primeiro longa, o diretor se beneficia de uma equipe técnica que salta aos olhos. Benjamín Echazarreta (Uma Mulher Fantástica) comanda a fotografia da produção, com enquadramentos que colocam os personagens no centro da narrativa, muitas vezes em planos fechados, evocando seu estado de espírito. Além de um deleite visual, diga-se. O desenho de som é impecável, e todo ruído proveniente da casa de Cristovam, bem como o que acontece mata a dentro é extremamente bem captado e sentido em detalhes. É possível acompanhar, ainda, toda a estranheza dos personagens com um olhar minimalista, em um longa munido com uma brasilidade peculiar.

Os diálogos do filme são mínimos, e muitas vezes, quando eles existem, são truncados e propositalmente esquisitos. As músicas são pontuais, e quando surgem, jogam a favor do que está acontecendo em cena. Já os elementos que cercam o protagonista são surrealíssimos e dão exatamente a certeza de que a experiência com esse filme é essencialmente uma experiência sensorial. A metamorfose física e espiritual de Cristovam é percebida e sabe-se o que está acontecendo algo com ele, mas a forma como isso se dá não fornece tantos elementos para o espectador, já que esses são quase escondidos. É como se o diretor, propositalmente, nos colocasse para pensar, no entanto, por vezes, as simbologias são colocadas sem impulsionar a história.

Há muitas interpretações a serem feitas no longa, que merece um segundo olhar. Porém, como já fora dito, muitos simbolismos acabam se perdendo em um emaranhado de eventos desconexos, enfraquecendo a força que a narrativa poderia ter em favor de sua poderosa história.

Já o comentário social é ácido e dialoga como a atualidade. Em um Brasil que parece perdido no tempo, as diferenças sociais (uma fazenda austríaca com ares futuristas e a casa abandonada são extremos opostos), a xenofobia, o racismo em sua forma mais repugnante e as relações empregatícias refletem um país que retrocede ao invés de avançar. A cidade parece perdida no tempo, mas é apenas uma sensação. Tudo isso é observado através da opressão e dos maus tratos sofridos pelo personagem de Pitanga, ótimo em cena e de uma crueza impressionante no papel, embora não deva dizer nem cinquenta – no máximo umas cem – palavras em todo o longa.

No entanto, tudo fica muito subjetivo em tela. Cabe ao espectador interpretar o que é dado. Casa de Antiguidades não é um filme fácil de assimilar, tampouco confortável. E nem deveria ser. Cristovam, um homem negro indígena do norte rural do Brasil, é o protagonista deste filme, o que por si só é um mérito, que além da boa performance de seu protagonista, traz ainda duas performances femininas a serem observadas: Ana Flávia Cavalcanti e Aline Marta Maia. Contudo, Antonio Pitanga é quem nos guia nesse estranho passeio por um Brasil surreal, e ao mesmo tempo, atual.

CASA DE ANTIGUIDADES
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RESUMO

Casa de Antiguidades, de João Paulo Miranda Maria, traz Antonio Pitanga como protagonista em um drama sureeal com elementos fantásticos.

* Filme visto durante exibição online para imprensa do 44º Festival Internacional de Cinema de Chicago.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...