Mostra de SP 2020 | Controverso, documentário ‘Welcome to Chechnya’ denúncia caça aos LGBTQ+ na Chechênia – Crítica

Em 2017, o filme 120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo esteve no Festival de Cannes onde levou o Grand Prix daquele ano. O drama francês se passa nos anos 90 quando o grupo ativista Act Up intensifica seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento da aids. Durante a premiere do filme, os jurados do prêmio Queer Palm, prêmio dedicado aos filmes com temática LGBTQ+, entraram no tapete vermelho segurando cartazes condenando os ataques a gays na Chechênia. Os seis jurados, incluindo Lidia Terki, Travis Mathews e Yair Hochner, ergueram cartazes que diziam ‘Silêncio = Morte’, ‘Unificado’, ‘Ainda?!’, ‘Basta’, ‘Chega’ e ‘Chechênia’. 

O ocorrido não foi noticiado por muitos veículos de imprensa, inclusive, nenhum veículo nacional. Esse silenciamento da imprensa demonstra a falta de repercussão do ato, representando também como os próprios crimes cometidos no país tiveram pouca notoriedade. Os ataques aos LGBTQ+ na Chechênia foi um crime sigiloso, que pois em risco a vida de centenas de pessoas. Entretanto, as ameaças e silêncio do governo tornou ainda mais difícil o vazamento de qualquer informação sobre. Em 2020, o documentário Welcome to Chechnya vem para falar o que ocorreu naquele ano no país. 

O documentário que será exibido na Mostra de São Paulo 2020, acompanha um grupo de ativistas que precisam se desdobrar da forma que podem para tirar do país àqueles que estão sendo caçados pelo governo homofóbico secretamente. A partir daí o filme seleciona os personagens que irão nos guiar na trajetória de revolta e dor ao ver que, em pleno século XXI, um governo extremamente conservador não só consiga influenciar as agressões e discurso de ódio direcionado aqueles que eles não apoiam, como também efetuar uma séria e covarde caça de extermínio. 

Com um abrigo provisório, o grupo de ativistas se desdobra através dos casos que recebem para conseguir tirar as pessoas que entram em contato com a ONG por se encontrar em situação de perigo, enquanto o país é governado pelo conservador Ramzan Kadyrov, indicado em 2007 por Vladimir Putin, que afirma em uma entrevista utilizado no documentário não haver pessoas LGBTQ+ no país. 

Dirigido pelo repórter investigativo David France (A Morte e a Vida de Marsha P. Johnson, 2007), o filme é criado a partir de depoimentos de integrantes da ONG, que como pessoas LGBTQ+ sentem não só o medo e insegurança proporcionado pelo seu país, mas principalmente o sentimento de dever ao ver pessoas da comunidade que se encontram em perigo. Juntamente com isso, acompanhamos através de uma câmera na mão que os seguem no seu dia a dia, tudo o que ocorre no abrigo e com aqueles que estão em perigo. 

Sendo um país extremamente cristão, que tornou o islamismo uma forma de resistência devido ao seu passado em busca de independência da Rússia, a Chechênia virou palco de alguns dos maiores crimes contra os direitos humanos nos últimos anos. Quando iniciada a caçada aos LGBTQ+, ninguém sabia ou falava sobre, entretanto, conforme uma nova vítima ia sendo feita, novas testemunhas surgiam, vídeos e fotos como arquivos que comprovam as violências, além de vítimas que sobreviviam às torturas. 

Mesmo com isso em mãos, não era fácil conseguir um apoio e mobilização público a favor da comunidade LGBTQ+. Isso porque, no próprio país a repressão aos homossexuais é enorme. Quando acusados de trazer campos de extermínio para o século XXI e infringir os direitos humanos, um porta voz do governo checheno afirmou que “mesmo que existissem gays na Chechênia, a polícia não teria problema com isso, pois as próprias famílias deles se comprometeriam a enviá-los a um lugar de onde não seria possível retornar.”. E o documentário reafirma isso ao não nos poupar de ver o que essas famílias fazem com seus integrantes homoafetivos. Delicados vídeos caseiros de extrema violências são exibidos no documentário apresentando cenas de tortura, linchamento e todos os tipos de violência que podem ser cometidos.  

Pensando que o propósito do filme é repudiar e denunciar a grave situação do país, é doloroso e questionável o uso desses vídeos que fazem parte da composição na tentativa de chocar o público. Os vídeos são ainda, um tiro no pé do filme que, utiliza o material repudiado até então, a troco de sentimentos e experiências que o próprio documentário já havia alcançado com o material mais sutil visualmente, mas com uma impressão igualmente forte. 

A riqueza do filme está nos momentos pessoais nos quais a ONG de ativistas precisa acompanhar e realocação, dando uma nova possibilidade de futuro, àqueles que possuem risco de vida. Com o abrigo cheio de jovens que precisam ir embora do país pois estão sendo caçados, os ativistas não medem esforços para conseguir com que outros países os aceitem. O árduo trabalho de cada ativista é bem destacado no filme e merece esse lugar que possui, pois, em meio a tantas autoridades são somente eles que fazem algo. Não conhecido pela própria sociedade, e desmentida pelo governo Checheno, as perseguições aos homoafetivos se intensificam ainda mais quando as vítimas ameaçam expor o que ocorreu com eles. Isso faz com que não só o sujeito se torne um grande alvo das forças armadas que buscam por estes como também a família deles que passa a estar na mira do governo. 

O filme apresenta alguns personagens específicos, amostra da população perseguida no país. Entretanto, como esses personagens ainda são caçados pelo governo e possuem sua vida em risco antes e, principalmente, após sua exposição no filme, o diretor utilizou a técnica deepfake para esconder suas verdadeiras identidades. Através da manipulação digital, foi possível explorar o amago das emoções e sentimentos, sem expor o sujeito. O deepfake é feito de uma forma tão cuidadosa e profissional, que garantiu uma das melhores cenas do filme protagonizada por Maxim Lapunov, uma a primeira e única vítima que depôs contra o governo checheno, abertamente, acerca das atrocidades cometidas. 

A forma de descaso do governo que acomete esses crimes e dos outros países em contraponto com os poucos ativistas que precisam se virar para salvar cada vez mais gente expõe as contradições do falso moralismo que prefere ter um filho morto do que um filho homoafetivo. São poucas as famílias que apoiam seus familiares, como a família de Maxim Lapunov, e assim como é reconfortante ver o apoio que a família dá ao seu integrante, é revoltante ter que ver o preço que eles pagam por isto. 

Welcome to Chechnya utiliza uma série de formas visuais que criam uma fluidez e dinamismo em seu processo. Os depoimentos, filmagens em tempo real, entrevistas, vídeos de celulares dentre outros, ajudam a enriquecer o filme que possui uma clara e objetiva história de denúncia. Entretanto, a exposição de cenas violentas, enquanto se prega a não violência, além de ser contraditório, não emociona tanto quanto o outro material do filme, só enfatiza o mal-estar e angustia já construído por todo o resto. 

Acompanhe aqui a cobertura do Quarta Parede POP da Mostra de SP 2020

WELCOME TO CHECHNYA
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RESUMO

Documentário exibe fortes imagens violentas, em prol de um discurso não violento.

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Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.