Livro x Série | A perfeita representação de um relacionamento real em ‘Normal People’

Uma das principais questões que fazem as histórias românticas alcançarem um grande número de pessoas é a identificação. Sem ela, os romances podem parecer banais, sem açúcar, e até mesmo tediosos de se acompanhar. Algo precisa existir ali para que o leitor/espectador se conecte com os personagens e os sentimentos deles.  Normal People

Construir um romance, seja na literatura ou no audiovisual, é muito mais difícil do que aparenta ser. Não é apenas colocar dois personagens para se apaixonarem de uma hora para a outra. É algo muito maior que isso: os sentimentos precisam ser palpáveis, e a trajetória precisa ser acreditável. Em alguns casos, a luta para admitirem o que sentem precisa ser construída de forma que faça quem está acompanhando aquela história sentir a mesma dor e dificuldade.  

Em Normal People, nova minissérie da BBC Three baseada no livro de Sally Rooney (“Pessoas Normais”, Companhia das Letras), todos esses requisitos estão presentes. Aqui, vamos conhecer a história de Connell (Paul Mescal) e Marianne (Daisy Edgar-Jones), dois adolescentes que possuem realidades extremamente opostas. Marianne é solitária, não tem amigos, e mora em uma mansão com sua mãe e irmão que não possuem uma boa relação com ela. Já Connell é popular, participa do time de futebol, e mora com sua mãe que os sustenta trabalhando como faxineira para a família de Marianne. Típico clichê romântico adolescente, certo? Errado.  

O grande diferencial dessa história não está na premissa, e sim como ela se desenrola. Sally Rooney escreve seus personagens de uma forma bastante íntima e delicada. Eles não são pretos no branco, e nem ao menos fáceis de entender. Pelo contrário: complexos, com dificuldades de se expressar, e até mesmo de entenderem os próprios sentimentos.  

Tanto a minissérie como o livro acompanham o romance dos dois ao longo dos anos que se iniciam na escola, e vão até o final do período da faculdade. Nesse meio tempo, a história é recheada de encontros e desencontros. Mas, muito mais do que isso, Normal People é uma história sobre intimidade, insegurança, e falta de comunicação. 

Connell (Paul Mescal) e Marianne (Daisy Edgar-Jones) em Normal People (2020) – BBC Three

NORMAL PEOPLE: A ADAPTAÇÃO 

Como o nome já indica, Connell e Marianne são pessoas normais, como eu e você que está lendo. Eles não são o típico casal que passa por uma relação conturbada, e que no final vemos que foi extremamente romantizada. A história está consciente das problemáticas que o relacionamento deles possui; ela sabe que os personagens não são os mais fáceis de se compreender, e é exatamente por isso que eles são tão relacionáveis.  

O livro aproxima ainda mais o leitor com uma narrativa que foge do convencional, sem linearidade, e inserindo diálogos sem travessão, e às vezes até mesmo no meio de parágrafos. A escrita de Rooney pode afastar alguns, mas aqueles que conseguirem embarcar terão, provavelmente, uma das experiências mais imersivas na literatura.  

Tendo em vista esse fator, o principal desafio da minissérie era tentar adaptar essa narrativa complexa para o audiovisual. Dentro de cada capítulo, acompanhamos um período da vida dos dois, que vai e volta no tempo para contar eventos específicos que fizeram do relacionamento deles estar no ponto em que está. Trazer esses detalhes sem perder a intimidade e complexidade dos personagens era algo extremamente complicado. 

Porém, a grande surpresa é que os roteiristas, produtores e diretores conseguiram transportar essa linguagem perfeitamente. Segundo Lenny Abrahamson Hettie Macdonald, que dirigiram 6 episódios cada, a maior preocupação era que a intimidade sentida pelos personagens no livro, fosse sentida na minissérie também. Por esse motivo, foi tomado um cuidado extremo com a adaptação.  

Aqui, além de conseguirem transportar todo o sentimento e linguagem da obra original, a história foi perfeitamente adaptada, seguindo a risco cada cena e até mesmo alguns diálogos do livro. A sensação deixada é que conseguiram deixar a história mais intensa e sentimental nas telas. 

Connell (Paul Mescal) e Marianne (Daisy Edgar-Jones) em Normal People (2020) – BBC Three

DAISY EDGAR-JONES E PAUL MESCAL 

É claro que, mesmo com todo esse cuidado, o sucesso não teria sido o mesmo caso os atores não transparecessem a mesma química que os personagens possuem. Daisy Paul foram escolhidos a dedo para os papéis, e a química entre eles parece transcender a ficção. Eles conseguem demonstrar todos os sentimentos, angústias e inseguranças dos personagens de forma extremamente natural, e muitas vezes sem que nem ao menos um diálogo esteja presente em cena. 

Normal People é uma história que muito não é dito com palavras, e sim com olhares, expressões e atitudes. Connell e Marianne não sabem como se comunicar ou se expressar. Porém, o espectador não fica perdido em nenhum momento em relação ao que eles estão sentindo pela excelente atuação do casal. Quando eles se tocam, por exemplo, é possível sentir a euforia que aquele simples gesto está sendo para eles. 

Paul Mescal é uma revelação. Ele compreendeu perfeitamente as características de Connell, e consegue se aprofundar ainda mais nelas pela intensidade do roteiro. É possível ver no fundo dos seus olhos o que ele está sentindo. Quando finalmente consegue se expressar com palavras, sua atuação é pesada, e até mesmo difícil de se assistir. Há muita dor envolvida ali. Não é à toa que sua atuação recebeu uma indicação ao Emmy 2020 

Daisy Edgar-Jones também se destaca. Apesar de não ter uma cena tão emocionalmente pesada igual à de Mescal, a atriz consegue expressar muito pela sutileza. Marianne é controlada, esconde o que sente na maior parte do tempo, mesmo quando as coisas beiram ao insuportável. Você sabe o que ela está sentindo apenas com um pequeno vislumbre do olhar e das expressões faciais. É uma atuação controlada, mas bastante intensa e apaixonante.  

Algo que merece ser destacado também são as cenas de sexo. À primeira vista, elas chamam a atenção por serem longas e explícitas. Mas não é necessário nem 2 episódios para conseguir ver a delicadeza com que elas são filmadas, e que na verdade, não é a nudez que chama a atenção, e sim o sentimento investido ali. A química entre Daisy Paul se destaca mais uma vez por deixar parecer que não estamos assistindo à uma série, e sim um momento extremamente íntimo daqueles personagens.  

Connell (Paul Mescal) e Marianne (Daisy Edgar-Jones) em Normal People (2020) – BBC Three

Seja na televisão ou na literatura, Normal People é uma obra carregada de sentimentos. Ela consegue expor o lado mais íntimo de um relacionamento da forma mais imersiva possível, fazendo com que você sinta cada dor, alegria ou insegurança do casal. É real até demais. E é exatamente por isso que ela se destaca tanto. O tempo investido com esses personagens será algo marcante para cada leitor ou espectador que se permitir aceitar seus defeitos, e se identificar com as situações.  

A adaptação extremamente fiel faz com que a experiência de ler a obra original e assistir a minissérie seja a melhor possível. Intensa, íntima e com excelentes atuações, a minissérie se destaca como uma das maiores surpresas de 2020, e como uma das melhores opções na televisão dos últimos anos. É uma história para ler e reler, ver e rever, e jamais esquecer.  

* No Brasil, Normal People está disponível na plataforma de streaming STARZPLAY

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.