Crítica | ‘The Boys in the Band’ entrega uma experiência cinematograficamente teatral e relacionável

Baseada na peça de 1968 de mesmo nome escrita por Mart CrowleyThe Boys in the Band é a segunda versão dessa história para o audiovisual, tendo sua primeira lançada em 1970. A peça causou alvoroço na época por ser a primeira a não ter medo de retratar um grupo de amigos gays em seus cotidianos normais. Ela se passa inteiramente em apenas uma noite e um cenário, durante a comemoração de aniversário de um dos membros do grupo. 

A peça foi refeita em 2018 com o mesmo elenco desta nova versão do filme, que contém a produção assinada por Ryan Murphy. Não seria difícil notar o dedo de Murphy no projeto pelo elenco que constantemente está marcando presença em outros de seus projetos. Ele, inclusive, possui um contrato milionário com a Netflix e têm lançado cada vez mais conteúdos de sua autoria diretamente na plataforma. 

The Boys in the Band não disfarça a origem teatral de sua história, seguindo à risca a mesma estrutura da peça, mas dando pequenos toques adicionais para dar um ar mais cinematográfico à produção. Por exemplo, ao longo do filme são adicionados pequenos flashbacks para ilustrar o que os personagens estão contando, e também para dar uma diversificada no cenário que permanece o mesmo ao longo de todo o restante da duração.  

Mas, ao contrário do que muitos podem pensar, o filme se passar em, praticamente, apenas um cenário não deixa a experiência cansativa. Muito pelo contrário. O diretor Joe Mantello navega com a câmera pelo apartamento trazendo alguns truques de direção, e até mesmo alguns planos sequências que acompanham os personagens de um cômodo a outro. As técnicas criativas apresentadas são essenciais para deixar o filme mais dinâmico e cinematográfico. 

Entretanto, é claro que tudo isso não seria o suficiente caso o roteiro e o elenco não dessem conta do recado. Por ser inteiramente focado na interação dos personagens, o roteiro precisava estar afiadíssimo nos diálogos. colocando-os como o ponto forte da experiência. Eles são extremamente bem escritos, trazendo reflexões que transmitam entre amor, desilusão, insegurança, culpa, e por aí vai. 

Os personagens dão uma aula de reflexões sobre a vida, mesmo que as expressem de uma forma bastante diferenciada. O filme não segue um caminho previsível, e em sua segunda metade toma um rumo bastante desconfortável, mais do que já estava sendo anteriormente. É como se cada cômodo do apartamento que os personagens estão representasse um conflito diferente, chegando ao ápice quando eles reúnem na sala após o início de um temporal. 

Encabeçando o elenco, Jim Parsons constrói um personagem extremamente detestável, mas que conduz a trama magistralmente. Ele é aquele tipo de pessoa que é tão insegura de si mesma que precisa descontar todos seus ressentimentos nos amigos. Não há limites para ele, e não há comentário sarcástico ou cruel o suficiente que faça ele pensar duas vezes antes de falar.  

Matt Bomer e Jim Parsons em “The Boys in the Band “(2020)

Zachary Quinto é outro destaque, roubando a cena com sua personalidade controlada, mas bastante afiada ao mesmo tempo. Seus comentários são sempre ácidos e cruéis, e sua dualidade com o personagem de Parsons é um dos conflitos mais interessantes de acompanhar. Ele não perde a classe em momento algum, mesmo quando se sente afetado por algo que foi dito.  

Os outros personagens também completam o círculo social de forma certeira, com todos tendo destaque em algum momento. A presença de Brian Hutchinson, à princípio, chega a parecer desnecessária, mas com o tempo o desconforto que ele causa no grupo se mostra um dos pontos principais da trama, e o principal responsável por fazer Parsons perder o controle de si. 

The Boys in the Band desvia dos obstáculos que poderiam fazer dele um filme cansativo. A boa direção, o roteiro afiado, e elenco de peso conduzem a experiência perfeitamente, mesmo com o final agridoce. É um filme para refletir, se identificar com os personagens – por mais imperfeitos que sejam – e principalmente, ainda mais para quem for hétero, levar os problemas sociais da comunidade dos anos 60 a não continuarem se repetindo nos dias de hoje.  

4

RESUMO

The Boys in the Band tenta ao máximo se distanciar da experiência teatral que a história pede, e consegue ao trazer dinamismo ao passado dos personagens e direção. Com um roteiro afiado e personagens excelentes, o filme se destaca por não deixar cansativo algo que tinha tudo para ser.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.