9º Olhar de Cinema | ‘Responsabilidade Empresarial’ e as denúncias de empresas cúmplices da Ditadura Militar na Argentina – Crítica

Confira a crítica do documentário argentino Responsabilidade Empresarial, exibido na 9ª edição do Olhar de Cinema.

No documentário Responsabilidade Empresarial, o cineasta argentino Jonathan Perel faz uma leitura do documento “Responsabilidade Empresarial por Crimes Contra a Humanidade, Repressão de Trabalhadores durante o Terrorismo do Estado” (Editora: Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos). Assim, ele faz uma denúncia de empresas que se beneficiavam da Ditadura Militar na Argentina (1976-1983), entregando trabalhadores para os agentes de repressão do Estado. Filme exibido na 70ª edição do Festival de Berlim e visto na 9ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba.

Assim como no Brasil, a história recente da Argentina é bastante complexa e repleta de golpes. Enquanto que aqui a Ditadura Militar ocorreu durante 21 anos ininterruptos (1964-1985), no país vizinho ocorreu em diferentes períodos: 1966 a 1973 e 1976 a 1983, uma das mais repressivas da América Latina. Durante esse período, milhares de pessoas foram perseguidas, torturadas e assassinadas. Dentre essas, trabalhadores, que desempenhavam atividades relacionadas aos sindicatos. Esse é o foco de Responsabilidade Empresarial.

Jonathan Perel — que além de dirigir, ficou responsável pela produção, pelo roteiro, montagem, direção de fotografia e som — percorre várias cidades da Argentina para filmar as entradas das empresas. Dessa forma, é possível citar: Acindar, Astillero Rio Santiago, Loma Negra, Fiat, Petroquímica Sudamericana, Alpargatas, Ford, Mercedes-Benz, Dalmine Siderca, entre outras. O interessante de um documentário como esse é se inteirar sobre o assunto após os 68 minutos de duração do filme, ou seja, continuar buscando o conhecimento sobre o tema.

Os relatos realizados através do voice over são impactantes e, até mesmo, revoltantes. Além disso, eles possuem inúmeros pontos em comum. Todas as empresas contribuíram com o fornecimento de documentos sobre os seus funcionários envolvidos com atividades sindicais e políticas para órgãos de repressão do Estado. Mas também, muitas, inclusive, criavam centros para tortura ou interrogatório dentro de suas propriedades. Vale a pena destacar o caso da Ford, que fazia uso da sua quadra esportiva para sessões de tortura, muitas das vezes em horário de trabalho. Em troca, recebiam benefícios econômicos. Esses passam por aquisição de propriedades para aumentar os rendimentos; estatização de dívidas milionárias; aumento na produtividade, nos lucros etc. Isso tudo sem contar as mudanças na legislação trabalhista, realizadas pelo Governo, e que beneficiaram muitos empresários. Os salários eram reduzidos, as condições de trabalho pioraram e, em alguns casos, os funcionários sequestrados eram demitidos com o argumento de que eles estavam faltando o serviço.

Responsabilidade Empresarial se desenvolve a partir desses relatos e dos dados de vítimas, sequestrados e assassinados, ao mesmo tempo, em que o diretor expõe as empresas de dentro do seu carro. Nesse sentido, existe um certo caráter observador no documentário. A ideia é clara: colocar em perspectiva a visão tranquila daqueles locais (que, teoricamente, são simplesmente pontos de trabalho) e os horrores com os quais os indivíduos dos mais altos cargos daquelas empresas eram coniventes. No entanto pensando no filme como uma denúncia talvez o método utilizado pelo cineasta não seja o mais eficiente. A repetição de várias informações semelhantes enquanto as fachadas de prédios são filmadas de modo estático não é capaz de fixar a atenção por muito tempo, ainda que retrate um tema tão urgente. Muitas produções com esse mesmo objetivo de denúncia ou exposição faz uso de imagens arquivos, o que, junto da narração, contribui bastante para a transmissão da mensagem ou para a elaboração do argumento, proposto pelo narrador.

É importante ressaltar que o documentário trabalha algumas questões como a cumplicidade e a memória e as relaciona muito bem. A perversa e corrupta relação entre as empresas e os Estados durante a Ditadura Militar não aconteceu apenas na Argentina, mas em toda a América Latina. Mesmo que o filme de Jonathan tenha problemas em sua composição, é válido que ele seja visto para que esse contexto seja resgatado e não caia no esquecimento. Muitas pessoas também morreram aqui no Brasil devido a essa cumplicidade. Assim, o mais correto a se fazer é identificar a responsabilidade de cada empresa, investigar e expor os envolvidos. E o cinema pode ser um excelente meio para esse exercício.

Enfim, Responsabilidade Empresarial levanta um importante debate acerca da relação suja entre grandes empresas e o Estado repressivo da Ditadura na Argentina. O filme de Jonathan Perel não poupa na investigação nem na denúncia. Além disso, estabelece uma relação interessante entre cumplicidade e memória. Mas ele peca na execução ao adotar uma postura mais observadora no que diz respeito às imagens utilizadas, incorporadas às informações repetitivas — mesmo que impactantes e fundamentais — transmitidas pelo narrador.

Acompanhe aqui a nossa cobertura do 9ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba

RESPONSABILIDAD EMPRESARIAL | RESPONSABILIDADE EMPRESARIAL

RESUMO

O documentário argentino Responsabilidade Empresarial denuncia as empresas que se beneficiaram economicamente da Ditadura Militar na Argentina (1976-1983).

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Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.