9º Olhar de Cinema | A verdade por trás do “progresso” em ‘O Reflexo do Lago’ – Crítica

O Reflexo do Lago, baseado no livro “O Lago do Esquecimento”, de Paula Sampaio, apresenta o cotidiano dos moradores de uma das ilhas formadas pelo Lago Tucuruí. A partir disso, são colocados em perspectiva os efeitos socioambientais da usina hidrelétrica de Tucuruí em relação a essas pessoas décadas após a sua construção. Filme exibido no Festival de Roterdã, no Festival de Berlim e foi visto na 9ª Edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba.

O documentário dirigido por Fernando Segtowick apresenta uma mistura de elementos participativo, ou seja com uma ênfase na interação entre os cineastas e os personagens não-fictícios do filme e o tema, e observador — com um olhar em especial para o cotidiano das pessoas ou a contemplação da paisagem. No que diz respeito ao primeiro, O Reflexo do Lago tem como um dos interesses apresentar o lado da produção cinematográfica. Dessa forma, além da apresentação dos moradores e da região, o público também tem a oportunidade de “conhecer os bastidores” do processo de filmagem — o planejamento das gravações, o “set”, o deslocamento dos realizadores, as entrevistas. Tudo isso enquanto uma segunda câmera capta as imagens desse processo ao qual, geralmente, não temos acesso. É um filme sobre a realização de um documentário.

O trabalho de direção é bem eficiente. Fernando Segtowick entra em contato com os moradores do Pará e com o ambiente da região. É o conhecimento em todos os aspectos sobre o tema proposto. Com isso, chama a atenção os olhares envergonhados das pessoas devido à câmera. Isso passa uma certa naturalidade. O uso do preto e branco contribui para um olhar mais delicado por parte dos cineastas. Mas, conforme foi mencionado, há todo um envolvimento com o ambiente ao redor. Por isso, é necessário retomar o caráter observador do documentário. A direção dá ênfase à paisagem com planos mais abertos. A câmera não realiza muitos movimentos bruscos, na maioria das vezes ela é estática. No entanto, também é presente o uso de planos mais fechados — quase que detalhes — de olhares fixos em direção ao horizonte. Além disso, é necessário ressaltar a importância do som nesse filme. Esse aspecto técnico recebe muito destaque; o som de portas se abrindo, dos insetos, do caminhar nas pontes, os motores do barco, os pássaros, a chuva etc. Este recurso fala bastante sobre o local. Apresenta uma visão calma e reflexiva sobre aquela região.

Fernando também acerta ao levantar como questão o ideal de “progresso”, promovido pelo projeto nacional-desenvolvimentista da Ditadura Militar. O documentário usa como expressão desse ideal a usina hidrelétrica de Tucuruí, uma das maiores do Brasil. Por consequência, o foco do filme é apresentar os efeitos dessa grande obra, realizada entre 1974 e 1985, para os moradores do entorno e o meio ambiente. Entretanto, a contradição aparece no momento em que os “personagens” são apresentados e esses, por exemplo, não possuem acesso à energia elétrica. Acontece que a usina foi construída com o objetivo de fornecer energia para a extração de minério de ferro na região da Serra dos Carajás, no Pará.

Que “progresso” é esse? É um ideal que sequer leva em consideração a população que vive naquele local. Tem apenas como finalidade a extração e exploração da biodiversidade, das riquezas naturais e minerais e da energia.

O Reflexo do Lago
O Reflexo do Lago (2020)

A hidrelétrica foi responsável pelo desmatamento de uma grande área florestal, extração de madeira, o que levou à perda de biodiversidade, ao prejuízo nas pescas, à proliferação de insetos e de várias doenças. Essas foram as consequências para a população local. Isso tudo sem contar os casos de corrupção associados às obras, como o da empresa Agropecuária Capemi, que, por si só, também promoveu uma série de crimes ambientais. É uma discussão importantíssima e a questão ambiental está cada vez mais presente nas conversas sobre política. Nesse sentido, O Reflexo do Lago cumpre bem o papel de resgatar o debate acerca do projeto da Ditadura Militar e seus impactos socioambientais. Infelizmente, peca ao não expressar com clareza os verdadeiros beneficiados por essa política.

Dessa forma, seria quase impossível não traçar um paralelo com o Governo de Jair Bolsonaro. Algumas cenas oferecem pistas de que o documentário estava sendo produzido no ano de 2018. O atual Presidente e seu Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, promovem o maior índice de desmatamento da Amazônia em anos. As tradicionais queimadas atravessam constantemente os jornais e uma grande área da floresta já se perdeu devido ao projeto sujo e criminoso do Governo autoritário em vigência no Brasil, que visa corresponder aos interesses de grupos poderosos ligados ao agronegócio. O filme retrata essa atualidade de modo chocante e reflexivo ao se aproximar do final.

Ainda pensando esse contexto, há uma fala marcante de uma das pessoas entrevistadas. Ela levanta a questão da importância da oralidade. É a ideia do “passar adiante” a partir das histórias faladas. Alguém precisa fazer aqueles comentários, contar tudo o que se passou naquela região, porque o completo desaparecimento, esquecimento ou apagamento, é a tendência frente aos projetos de desmatamento.

Concluindo, O Reflexo do Lago trabalha um tema urgente a partir daqueles que sofrem diretamente com as consequências. Ao misturar elementos de um documentário participativo e observador, o realizador Fernando Segtowick leva o público a uma contemplação e a uma reflexão sobre aquele ambiente e sobre os moradores da região, que encontram na oralidade uma maneira de levar todas as histórias e todo o conhecimento adiante. Além disso, o filme faz um resgate do debate acerca dos diferentes projetos de Brasil. Todos querem seguir um ideal de “progresso”, mas que progresso é esse e qual é o custo a ser pago para alcançá-lo?

Acompanha aqui a nossa cobertura do 9º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba

O REFLEXO DO LAGO
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RESUMO

O Reflexo do Lago trabalha um tema urgente a partir daqueles que sofrem diretamente com as consequências. Além disso, o filme resgata o debate acerca de um projeto de Brasil.

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Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.