VIFF 2020 | ‘Inconvenient Indian’ explora a colonização cultural dos povos indígenas – Crítica

Descendente de cherokees, grupo étnico iroquês nativo dos Estados Unidos, o autor Thomas King possui uma vasta obra dedicada às primeiras nações da América do Norte. Após The Truth about Stories: A Native Narrative (2003) e A Short History of Indians in Canada: Stories (2005), o autor lançou sua obra de maior sucesso, The Inconvenient Indian: A Curious Account of Native People in North America (2012).

No livro, através da crítica e experiência pessoal, King pesquisa o que significa ser indígena na América do Norte, tecendo uma narrativa que coloca em choque o que compôs a relação entre nativos e não-nativos ao longo dos séculos desde que os dois se encontraram pela primeira vez.  Em 2020, a diretora, atriz e roteirista indígena canadense Michelle Latimer venceu o prêmio de Melhor Documentário Canadense e o Amplify Voices de Melhor Filme Canadense no Festival de Toronto ao levar para as telonas uma adaptação documental do livro de King. No filme, Latimer utiliza a narração de King para se guiar pelos caminhos que o mesmo adentrou no livro. O documentário foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Vancouver.

No Canadá, Thomas King, entra em um cinema de rua para ver Inconvenient Indian, filme que apresenta sua própria narração acerca da imagem criada no inconsciente coletivo social acerca dos indígenas. Ao sentar na cadeira da sala de cinema, King se torna também o próprio público de sua obra. Na imensa tela do cinema, o filme apresenta a forma como o cinema abordou os povos nativos nas mais variadas obras, principalmente na época de ouro de Hollywood, que em seus filmes sempre deixou claro quem são aqueles que vencem no final: o homem branco armado. 

Sendo representado de forma equivocada durante anos a fio nas mais diversas artes, enquanto o documentário explora a imagem do que King explorou através das palavrasLatimer perpassa cada um dos âmbitos onde os indígenas estão presentes para desmistificar a errônea ideia que a sociedade criou no imaginário coletivo. Uma série de cenas da história do cinema são mostradas, onde o índio é rebaixado a superioridade do homem branco na sociedade, imagens essas que foram essenciais para a construção dessa imagem perdurada por tantos anos. 

Na tentativa de criar uma nova imagem do índio na sociedade, Michelle precisa voltar no tempo e procurar as estruturas sociais onde ele se faz presente. De acordo ao filme, para a sociedade, o indígena só é indígena se utilizar a vestimenta propagada por esse inconsciente, bem como parecer fisicamente com um.  Alcançando novos paradigmas, a diretora mostra indígenas contanto suas histórias e ocupando lugares essenciais para que a verdadeira concepção se solidifique. 

O filme cria uma ordem cronológica dos fatos seguindo essa corrente que moveu, não só a história dos nativos, como também o próprio documentário. Com uma encenação da colonização, a tela é tomada por uma luta travada entre os povos europeus e os indígenas, cercada por um público que com a mão em direção ao peito, exalta sua nação. Em seguida acompanhamos Kent Monkman, artista que utiliza suas pinturas na tentativa de se retratar com a história manchada de seu país. País esse que assim como outros tirou vários filhos de suas mães indígenas na busca pela catequização e formação escolar europeia. Um deles presente no longa que ao retornar para os braços de sua mãe teve de reaprender sua cultura e, hoje, é somente a segunda geração de sua família.  

O documentário ainda possui uma leva de interessantes personagens que utilizam seus discursos para desmistificar a ideia da sociedade sobre o ser indígena. Presente na música eletrônica, o grupo A Tribe Called Red revoluciona o cenário musical impulsionando suas músicas em festas com o discurso empoderador em defesa de seu povo. Assim como as cineastas Nyla Innuksuk, Alethea Arnaquq-Baril, Gail Maurice que utilizam as mídias audiovisuais para produzir o conteúdo que não tiveram acesso em sua vida, obras cinematográficas com indígenas protagonizando histórias típicas de adolescentes como filmes coming-of-age, comédia, drama e suspense. 

Enquanto o filme se constrói nessa perspectiva explorando os cenários nos quais os indígenas se fazem presente como o musical, a indústria de tatuagem, o cinema, ainda se recuperando de uma triste e grande perda cometida pelo homem branco, nos tornamos personagem enquanto a câmera nos guia. Cada personagem apresentado, conversa com a câmera que o segue e nos torna parte da história, aceitando o telespectador como parte de sua jornada. Entretanto, enquanto isso ocorre, King está no cinema, vendo tudo passando na grande telona. Vivemos divididos entre essas duas esferas na qual somos parte de um filme, dentro do próprio filme. E enquanto King forma ele sozinho, o seu próprio público, com o passar das 1h20min do documentário, o cinema vai se enchendo cada vez mais, não só de indígenas, mas de pessoas que se interessam em assistir o que está sendo exibido. 

Inconvenient Indian é um documentário dinâmico que transita na metalinguagem de ser um filme dentro de um filme, mas que não possui amarras estéticas diante do que quer ser. O trabalho de pesquisa de Latimer, indígena canadense, juntamente com o trabalho de King que resultou neste documentário, é algo urgente e necessário não só como uma grande obra de representatividade, mas como um documento que chama atenção para aquilo que os homens brancos fizeram no passado, fazem no presente e podem fazer no futuro. E enquanto fazem, ainda são os indígenas que lutam por eles mesmos.

Em 2016, ocorreu em Standing Rock a maior mobilização indígena nos Estados Unidos em mais de um século. Lá, indígenas lideraram resistência de meses contra um oleoduto que ameaçava seu território. Michelle documentou a ocupação na série de resistência indígena RISE (2017) dividida em oito partes, da qual ela também foi a showrunner e diretora. Com imagens do protesto em cena, nos quais os povos nativos precisam lutar e reivindicar por seus direitos Inconvenient Indian se torna mais ríspido e objetivo. De forma clara, após a diretora apresentar um sorridente casal de pessoas brancas que utilizam as vestimentas de indígenas como fantasia, através de sua montagem, o documentário questiona: qual a atual posição desses que, além de torturar, massacrar, colonizar e se apropriar de nossa identidade, ainda tentam tomar nossas terras, nossos bens, nossas fontes. Isso nunca terá fim? 

Confira a cobertura completa do Festival de Vancouver aqui.

INCONVENIENT INDIAN
3.5

RESUMO

Inconvenient Indian é uma interessante e necessária jornada metalinguística no passado dos povos indígenas.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.