Mostra de SP 2020 | Sandra Wollner polemiza em ‘O Problema de Nascer’ – Crítica

O longa austríaco, O Problema de Nascer, foi exibido na 44ª Mostra de Cinema de SP.

A co-produção entre Alemanha e Áustria, O Problema de Nascer, conta a história da jovem Elli (Lena Watson), uma androide, que vive com Georg (Dominik Warta), como uma réplica de sua filha. O filme foi exibido no Festival de Berlim e visto na 44ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Além de escrever o roteiro, esta foi a quarta vez que Sandra Wollner assumiu a função de diretora de um longa. A cineasta austríaca se sai bem ao adotar decisões técnicas que contribuem para um envolvimento por parte do público com a história. Ela faz um bom uso da câmera ao filmar muitas cenas como se estivesse observando os eventos de longe. Além disso, sempre realiza movimentos suaves, calmos, ao seguir os personagens, muitas vezes filmados detrás. No entanto, Sandra também encontra os momentos corretos para gravar as cenas com uma dose de intimidade.

O Problema de Nascer carrega um enorme clima de tensão, suspense, ao longo dos seus 94 minutos. É uma pena que não entregue um resultado à altura no final. Mas isso, além da função desempenhada por Sandra Wollner, também está bastante relacionado aos bons trabalhos de montagem, fotografia e direção de arte. O filme apresenta uma certa lentidão, o que se encaixa muito bem com o estilo contemplativo da diretora. Ainda mais, a fotografia é marcada pelo uso de cores frias, enquanto que a direção de arte na primeira metade é caracterizada por uma estética mais futurista e, na segunda, por um visual mais antigo, simples.

Se nas questões mais técnicas o filme apresenta um bom trabalho, talvez o roteiro seja a questão mais complexa para ser analisada. Inicialmente, é importante reforçar que Sandra acerta ao retratar aquela história de modo isolado, sem buscar soluções de possíveis universos ou recorrer a explicações científicas para tentar explicar o caso dos androides. Isso funciona no que diz respeito à premissa. Também é perceptível o quanto a roteirista deixa espaços vazios na história. Certos elementos dessa não são explicados, mas ficam subentendidos. Aliás, uma das principais características de O Problema de Nascer é justamente esta: o filme não reforça as situações, apenas sugere.

Outro recurso utilizado de modo positivo pelo roteiro é a narração — neste caso, a voz é da Elli. A narradora do tipo 1ª pessoa, além de contribuir para o desenvolvimento da personagem principal, aos poucos vai esclarecendo as ideias e a subjetividade por trás da androide. Na medida que o filme passa, é possível encontrar uma outra função para a narração: a omissão temporal. Mas não é interessante comentar mais do que isso a fim de evitar os infelizes spoilers.

No entanto o texto tem dois problemas. O primeiro diz respeito a algumas informações confusas justamente devido à questão da cronologia dos eventos retratados na ficção. Já o outro problema é a sequência final que não consegue entregar uma boa conclusão. Ao passar pela experiência de assistir a esse filme, estes dois pontos discutidos neste parágrafo se sobressaem ao término do roteiro.

Lena Watson em “O Problema de Nascer” (2020)

Agora, a polêmica que marcou o Festival de Berlim deste ano. As representações problemáticas dos personagens saltam das telas e rompem a experiência cinematográfica. Especialmente no que diz respeito à dupla formada por Georg e Elli. Fica claro que a relação entre os dois ultrapassa os limites de uma relação entre pai e filha, chegando ao incesto. Algumas cenas chegam a ser repugnantes pela exposição do elenco, principalmente a jovem atriz Lena Watson. Essas tornaram-se excessivas no filme, não fariam falta caso fossem excluídas na edição final — isso porque Sandra Wollner confessou em entrevista ter removido vários elementos explícitos da primeira versão do roteiro. Além disso, a história não questiona essa situação.

Georg é um personagem atormentado, melancólico, e faz uso de uma androide para satisfazer as suas vontades e “tapar um buraco” em sua vida. Aliás, essa característica atribuída à Elli de tentar repor algum vazio se repete no segundo ato do filme, quando a jovem se encontra com Sra. Schikowa (Ingrid Burkhard).

O interessante — e o roteiro poderia ter explorado melhor essa situação — é quando as memórias programadas em Elli começam a se misturar. E, consequentemente, as reações se confundem. Nesse sentido, é atribuída à personagem um caráter mais profundo. Os pensamentos e as reflexões do androide carregam bem esse peso.

Enfim, O Problema de Nascer é uma ficção que apresenta um bom trabalho de direção por parte de Sandra Wollner e um atraente trabalho visual, que contribuem para o clima de tensão no filme. Ele acerta ao retratar a história de modo simples sem inventar explicações desnecessárias para responder perguntas que ninguém tem interesse em saber. Apresenta um roteiro com pontos positivos, como o recurso da narração, e negativos. Desses é possível citar o grande nível de exposição dos personagens e dos atores, principalmente no que diz respeito à Elli, que rompe completamente com a experiência cinematográfica e estabelece um questionamento moral.

Acompanhe aqui a nossa cobertura da 44ª Mostra de São Paulo, que ocorrerá entre os dias 22 de outubro a 4 de novembro

O PROBLEMA DE NASCER | THE TROUBLE WITH BEING BORN
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RESUMO

O Problema de Nascer, novo filme da cineasta austríaca Sandra Wollner, apresenta pontos positivos, mas trabalha uma polêmica que se sobressai em relação à história.

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Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.