Mostra de SP 2020 | ‘Mães de Verdade’ é um melancólico drama que desperdiça sua duração – Crítica

Selecionado para a 73º edição do Festival de Cannes, Mães de Verdade (True Mothers – Asa Ga Kuru ) de Naomi Kawase era um dos filmes mais aguardados no evento. Entretanto, com a edição impossibilitada devido ao coronavírus, o filme ficou conhecido ao ter sua estreia no San Sebastián International Film Festival que ocorreu no último mês. Após sua première, o filme será exibido no Festival Internacional de Cinema de Chicago e na 44ª Mostra de São Paulo, que ocorrerá entre os dias 22 de outubro a 4 de novembro, ambos com cobertura do Quarta Parede POP. 

O longa apresenta Kiyokazu Kurihara (Arata Iura) e Satoko (Hiromi Nagasaku), um casal que impossibilitados de ter um filho biológico decidem adotar. Seis anos depois, enquanto vivem um feliz casamento, eles recebem uma ligação de uma mulher chamada Hikari Katakura (Aju Makita), alegando ser a mãe biológica de Asato (Reo Sato), o filho adotivo do casal. Hikari diz querer seu filho de volta, chantageando a família com a pedida de uma alta quantia de dinheiro. 

Não cronológico, o filme acompanha a vida de Kiyokazu em paralelo a de Hikari. O drama nos apresenta as duas mulheres nos momentos em que suas vidas se ligam, a partir do nascimento de Asato. O casal, impossibilitado de ter filhos biológicos, apesar de ter um desejo de criar família, pensam inclusive em divórcio antes da adoção. A abordagem de Naomi Kawase da família tradicional japonesa de classe alta apresenta os costumes morais e a índole de ambos na construção de um futuro que o dinheiro não foi o suficiente para alcançar. 

Companheiros singelos e fraternos, o casal protagonista flui em cena conforme as oportunidades surgem. Vulneráveis inicialmente com as descobertas acerca da dificuldade em engravidar, a forma como a mente dos dois se conecta a partir das escolhas que ambos fazem juntos é inspiradora. É prazeroso acompanhar um casal que procura funcionar em prol de seus sonhos juntos, e não desgastar a relação a cada problema que surge. Apesar de acompanharmos o funcionamento de ambos, é Kiyokazu quem possui destaque. 

Arata Iura guia sua personagem como a natureza guia suas estações. Fina e doce, nem mesmo as maiores tristezas conseguem tira-la do centro de uma pessoa que media o racional e emocional de tal forma que, todos os acontecimentos do filme são definidos por sua elegante compostura. Fácil de lidar, guiada por seus ideais, Kiyokazu é uma personagem encantadora em todos os lugares que se faz presente. 

Em contraste com a confusa Hikari, que é vive em um mundo onírico durante sua adolescência e é puxada para fora devido as turbulências causadas por sua família. Os Kurihara em contraponto com a família Katakura possui condições financeiras inferiores e segue uma norma de regras e fundamentos morais, também forte representação da cultura japonesa, que possuem grandes impactos no futuro de Hikari. Após engravidar na adolescência precisa dar o filho mesmo que não queira, pois, a gravidez na adolescência além de ser “uma criança cuidando de outra” como ressalta sua mãe, é um vexame para a família que opta por isolar a menina durante a gravidez. 

Mães de Verdade (Asa Ga Kuru, 2020)

Asoto, filho biológico de Hikari e filho adotivo de Kiyokazu, é a ligação entre ambas que passam por experiências completamente opostas após o nascimento do menino. Enquanto a família Kurihara vive em uma ascensão de felicidade em encontro à vida perfeita que sempre imaginavam ao construir uma família; a vida de Hikari regride já que desde que descobriu a gravidez tudo aquilo que possuía de base afetiva em sua vida desmorona. Criando grande repulsa por aqueles ao redor, Mães de Verdade  apresenta através do contraponto entre o onírico e o esquálido a vida que a jovem possuía antes e depois da gravidez, contraste vívido principalmente nas ambientações e fotografia do filme, que caminha a partir da paz e tranquilidade apresentada pela natureza, para o caos e torpe nos momentos na cidade. 

Em um futuro, sugada por tudo o que teve de enfrentar com sua família, Hikari perde o olhar sonhador e se transforma em um zumbi vivo. Mobilizada pela vontade e esperança de reencontrar seu filho, a jovem não é mais a pessoa feliz que era. Mergulhada pelas obrigações do capitalismo, o novo mundo dela não precisa de sonhos, precisa de metas a serem cumpridas dentro dos prazos. E mesmo que a zona tórrida da realidade do mundo tenha destruído o que a moça tinha de positivo em sua vida no passado, é ainda, o se filho a sua esperança para qualquer tipo de reencontro com a felicidade. 

Mães de Verdade é um singelo drama, que recorda os sentimentos explorados por Hirokazu Koreeda em Pais & Filhos (2013), mas enquanto o filme de Koreeda foca na relação das crianças com suas famílias, aqui Naomi foca na disforia existente entre os dois contextos divergentes mas que partem do mesmo elo motivacional. Mesmo possuindo difíceis realidades, o filme não abusa da melancolia. Com 2 horas de minutos de duração, há algumas subtramas desinteressantes que não acrescentam às histórias principais e poderiam ter ficado de fora. Entretanto, quando bem investidas na construção dos interessantes personagens, o filme é satisfatório de se acompanhar.

Acompanhe aqui a nossa cobertura da 44ª Mostra de São Paulo, que ocorrerá entre os dias 22 de outubro a 4 de novembro

MÃES DE VERDADE | ASA GA KURU
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RESUMO

Melancólico e singelo, Mães de Verdade abusa das subtramas, mas investe em seus personagens para criar um drama consistente.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.